‘Moedas paralelas’, o fantasma que ameaça retornar
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‘Moedas paralelas’, o fantasma que ameaça retornar

arielpalacios

04 de dezembro de 2009 | 20h42

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Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias argentinas começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas “quase-moedas” – criticadas intensamente pelo FMI – passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para…38%! O patacón, a quase-moeda bonaerense, foi o hit parade das moedas paralelas.

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Mais de meia década após a extinção dos patacones, lecops e cecacors, o governo de Córdoba, uma das principais províncias da Argentina, ameaçou reimplantar o sistema de “moedas paralelas” – as moedas sem lastro emitidas pelas províncias como medida de emergência para pagar as contas – utilizado durante a crise econômica de 2001-2002.

Segundo o governo cordobês, essa será a drástica alternativa a adotar, na hipótese de que não consiga driblar os graves problemas financeiros na qual está mergulhado.

“Caso a União não envie os fundos que nos deve, a província terá que cobrir o ‘buraco’ com uma moeda paralela”, afirmou, sem sutilezas, o secretário de Finanças de Córdoba, Ángel Elletore.
Segundo ele, a União não enviou fundos federais para província ao longo de novembro. “E acho que em dezembro tampouco receberemos dinheiro algum”, lamentou.

O governador Juan Schiaretti autorizaria a emissão de moedas paralelas caso a União não desembolse os US$ 555 milhões que deve à província de Córdoba. Além da dívida deste ano, a província disputa na Corte Suprema o pagamento de US$ 315 milhões, relativos a dívidas previdenciárias da União com Córdoba no período 2002 e 2007.

Uma parte da emissão realizada por Córdoba seria em bônus, enquanto que a outra – para pagar os salários do funcionalismo – teria o formato de “moeda paralela”, que seria utilizado como circulante dentro da província.

Na quinta-feira no final da noite o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou que remeteria ao governo cordobês quase US$ 20 milhões.
O governo de Córdoba paralisou o plano de lançamento da “moeda paralela”.
…Mas apenas por enquanto.
“Vamos esperar que a União faça aquilo que prometeu para que a gente defina este assunto (o assunto das moedas paralelas)”, disse o governador Schiaretti.

facundo
As “moedas paralelas” apareceram há décadas na Argentina. Nos anos 80, Carlos Menem, na época governador da província de La Rioja, emitiu bônus provinciais em sinal em rebeldia com o governo do presidente Raúl Alfonsín (na verdade, mais do que ‘rebeldia’, a emissão de moedas paralelas cobria o festival de gastos públicos de Menem e a péssima administração financeira de La Rioja)
As moedas ostentavam a efígie de Facundo Quiroga, caudilho do século XIX que Menem emulava.
Nos anos 90, diversas províncias pequenas emitiram estes bônus de forma ocasional, para paliar seus déficits fiscais.
Na gravura acima, Facundo. Na foto embaixo, Menem.

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maizinhad No início desta semana a província de Buenos Aires, responsável por um terço do total do PIB argentino, anunciou que emitirá bônus para saldar as dívidas de US$ 210 milhões que possui com os fornecedores do Estado. No entanto, o governo bonaerense descartou que esteja planejando a emissão de moedas paralelas para usar como circulante.

Outras províncias, assoladas por crescentes déficits fiscais, estão em situação similar à de Córdoba. Segundo a consultoria Abeceb, o déficit fiscal primário consolidado das 24 províncias argentinas em 2009 chegaria a US$ 4,31 bilhão. Isso equivale a 1,4% do PIB da Argentina.

Os especialistas afirmam que as emissões de “moedas paralelas” aumentam as incertezas do público e dos mercados sobre o estado das finanças públicas.

Nos últimos meses, secretários da fazenda de várias províncias sugeriram que as circunstâncias poderiam criar um cenário no qual essas emissões seriam novamente necessárias.

Os economistas ressaltam que no primeiro semestre deste ano os governos provinciais realizaram um festival de gasto público por causa das decisivas eleições parlamentares de junho passado. As províncias elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para impedir a derrota nas urnas.

Diversos governadores, que estão atrasados nos pagamentos do funcionalismo público e fornecedores do Estado, avaliam pagar os salários em parcelas.

Segundo a consultoria Economia e Regiões, as províncias e a capital federal concentram 1,3 milhão de funcionários públicos, cujos salários absorvem 51% de suas finanças.

Extraoficialmente, os governos provinciais não descartam a medida drástica de emitir “moedas paralelas”, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002, caso o cenário financeiro fique mais sombrio.

Após a derrota do governo nas eleições parlamentares do dia 28 de junho, os governadores começaram uma romaria pela Casa Rosada para pedir fundos extras à presidente Cristina Kirchner. No entanto, não tiveram muito sucesso.

Segundo o Instituto Argentino para o Desenvolvimento das Economias Regionais (Iader), entre as províncias com maiores problemas estão a de Buenos Aires (que concentra quase 40% da população argentina e é responsável pela produção de mais de um terço do PIB nacional), Río Negro, Mendoza, Tierra del Fuego e Chaco.

A província de Buenos Aires é a que está em pior estado financeiro. Governada por Daniel Scioli, fiel aliado dos Kirchners, o território bonaerense possui atualmente um déficit fiscal de US$ 1,43 bilhão.

Vinte províncias argentinas estão com problemas graves para fechar o ano. O cenário é intensamente diferente do ocorrido em 2008, quando 15 das 24 províncias argentinas encerraram o ano com superávit fiscal.

Os economistas alegam que de lá para cá, as províncias – que neste ano passaram por eleições cruciais – elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para tentar impedir a derrota nas urnas.

Esse festival de gasto público foi agravado pelo aumento de 15,5% no salário do funcionalismo dias antes das eleições e a queda abrupta na arrecadação tributária provocada pelo conflito ocorrido em 2008 entre a presidente e o setor agropecuário, que protagonizou cinco locautes.

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O governador A. Schwarzenegger, nesta foto como Terminator após uns sopapos da srta. Sarah Connors (ou de seu filho), foi duramente afetado pela crise econômica e precisou recorrer a uma modalidade de californianos patacones. Link para matéria do jornal portenho “El Cronista”:
http://www.cronista.com/notas/194906-schwarzenegger-lanza-patacones-californianos-evitar-la-quiebra

No início deste ano, Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, EUA, decidiu emitir promissórias para o pagamento de dívidas desse estado americano. Essa medida, por tabela, intensificou os rumores que correm nos últimos meses em Buenos Aires sobre uma eventual cenário no qual as “moedas paralelas” ressuscitariam, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002.

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Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas “quase-moedas” – criticadas intensamente pelo FMI – passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para 38%.

Na época, além das “pseudo-moedas”, a Argentina contava com o peso, a moeda nacional (e, de quebra, o dólar, cujo intenso uso transformou a Argentina no país com maior número de dólares nas mãos da população depois dos EUA e a Rússia).

Córdoba emitiu os “Lecor” em dezembro de 2001. A moeda circulou até 2003, quando foi resgatada pelo governo provincial. Ao longo de dois anos, circularam Lecors com valor equivalente a US$ 300 milhões. Mas, os Lecor foram apenas uma parte das moedas paralelas que circulavam pelo país na época.

A emissão de “Patacones”, da província de Buenos Aires, chegou a um valor equivalente a US$ 900 milhões. A própria União, falida, teve que emitir os Lecops. O total desta moeda paralela equivaleu a US$ 1,06 bilhão.

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Nota de dois lecops. Esta foi a moeda paralela que o próprio governo federal teve que emitir na época

BASTARDAS APRECIADAS
maizinhad Desprezadas, ou pelo menos encaradas como párias ou bastardas ao longo de 2001, as “moedas paralelas” tornaram-se rapidamente – no meio da crise argentina de dezembro daquele ano – as novas divas do circulante monetário argentino.

O motivo para esta mudança de status quo foi o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários imposto pelo governo do presidente Fernando De la Rúa em dezembro de 2001.

O “corralito” deixou fora do páreo do cotidiano uma ampla circulação de pesos e dólares, até esse momento, as moedas fortes do país.

Na categoria de “pseudo-moedas”, os bônus não entraram dentro do confisco, já que somente podiam ser “custodiados” nos bancos, e não “depositados”.

Desta forma, quem recebia em patacones estava com seu dinheiro livre do confisco.

Várias das moedas paralelas eram aceitas fora de suas próprias províncias, como o “patacón” e o “lecor”, que tinham valores iguais ao do peso.

Mas, nem todas as moedas paralelas tinham “boa saúde” como os patacones.
No caso dos “cecacors”, da província de Corrientes, as notas não chegavam a 45% de seu valor numérico nominal. Na prática, eram vistas como notas do jogo “Banco Imobiliário”.

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Patoruzú, um dos emblemáticos personagens dos comics argentinos, criado pelo desenhista Dante Quinterno.
Patoruzú possuía milhões em patacones. No entanto, não era em referência à recente moeda paralela, mas sim, alusão ao dinheiro usado nos tempos coloniais, feito de prata e ouro. Patacón e Pataca (esta, usada mais em Portugal) provém do árabe “batakká”.
Na Argentina, os patacones também foram usados no período 1881-83. Eram moedas de prata.

RETROSPECTIVA

Estadão faz retrospectiva da década: gol mais emblemático, o mulherão, conflito internacional, líder político,etc: http://blogs.estadao.com.br/retrospectiva/categorias-e-moderadores/

A meu cargo está a moderação do debate sobre a/o líder política/o da década. Estão todos convidados:
http://blogs.estadao.com.br/retrospectiva/ao-lider-politicao-da-decada/

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