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“Moriré en Buenos Aires,como mueren los que saben morir”: O poeta Horacio Ferrer, letrista de Piazzolla, cumpriu seu desejo

arielpalacios

21 de dezembro de 2014 | 21h12

“Para mim, o mais importante é que o tango é um gênero que já é imortal. Mesmo que ninguém compusesse mais uma nota, nunca mais fizesse um passo de dança, nem tocasse um bandoneón, o tango já é para sempre. Uma parte da arte do século XX, como o jazz ou o flamenco”, afirmou Ferrer em entrevista anos atrás. Acima, a partitura da A ‘loca’ composição da dupla Astor Piazzolla e Horacio Ferrer. 

“El Duende” era o apelido que o compositor Astor Piazzolla costumava usar para chamar seu poeta preferido, Horacio Ferrer. Juntos, os dois revolucionaram o tango, “esse sentimento que pode ser dançado”, segundo uma definição, ou ainda “essa forma de caminhar pela vida”, de acordo com o escritor Jorge Luis Borges. A música-símbolo de Buenos Aires nunca mais foi a mesma. Sua fórmula de subversão era simples, e Ferrer me confidenciou em 2008 durante uma longa conversa no café do hotel Alvear (ele morava no oitavo andar desse elegante hotel) para recordar o trabalho de parceria com Piazzolla: “nós dois conhecíamos muito bem os clássicos e por isso sabíamos como transtorná-los, de forma que ainda com as modificações, continuasse sendo tango. E assim surgiu uma nova cepa da música de Buenos Aires, muito diferente às anteriores. Ele me escolheu para perverter o tango”.

Ferrer, nascido em Montevidéu, Uruguai, no dia 2 de junho de 1933, faleceu neste domingo em Buenos Aires, tal como expressou em seu verso “moriré en Buenos Aires, como mueren los que saben morir” do tango “Balada para mi muerte”.

“Nós éramos muito parecidos. Ele era de estirpe noturna, boêmia e trabalhadora do tango. E com um sentimento estético que saía por seus poros, pois gostava muito de artes plásticas e arquitetura. Com Piazzolla trabalhávamos direto das 9:00, às 19:00, quando só então tomávamos o primeiro whisky. Minha parceria com ele foi algo preparado pelo destino”.

O futuro do tango, segundo ele, “é sempre impredizível”. Mas, aberto à todas as possibilidades, Ferrer não descarta que o tango do futuro possa beber na fonte do rock. “É que os rockeiros argentinos estão feitos da mesma substância, da mesma boemia, da mesma linguagem….a longo prazo, o rock deste país irá se tanguificando”.

À clássica pergunta “qual sua obra preferida?”, Ferrer deu a resposta diplomática tradicional: “gosto de todas”. No entanto, não resiste aos elogios daquela que é considerado seu maior sucesso, também em parceria com Piazzolla: “Balada para um louco”. Ferrer admite: “foi um imenso sucesso em 1969, e o é até hoje”.

“Minha poesia é surrealista e cubista. Minha poesia é muito visual, algo que Borges desprezava profundamente. Ele dizia que ‘Federico García Lorca é muito visual’. E tudo o que eu escrevo o vejo antes, e assim, ao elaborar a letra de um tango que escrevi sobre as venusianas, eu via estas extra-terrestres antes…e a forma como os portenhos não as amavam porque não achassem que fossem verdade que mulheres tão belas pedissem seus beijos”, declarou.

Ferrer na ocasião também declarou seu fascínio pela ficção-científica com tom poético: “gosto muito de Ray Bradbury. Fiz um tango onde o cito, chamado “Se rechifló el colectivo” (“O ônibus pirou de verdade”). É a história de uma persongem que levava um cara visitar sua namorada. Mas o ônibus se recusou porque a namorada era uma convencional que o queria com salário relógio e gravata. E ali falo que Bradbury dançava no capô do ônibus com a poetisa Alfonsina Storni. Ele adorou o tango, e pediu que o mandasse manuscrito. Acho que ele nunca imaginou que alguém comporia um tango que o incluísse. Depois de uma pausa, exclamou: “é belíssimo!”. O poeta, sem modéstia, desfrutava de suas próprias criações. “Se eu não escrevo desta forma, não gosto de escrever”, explica.

Ferrer e Piazzolla em pleno trabalho. Astor partiu em 1992. Horacio, neste domingo.

“Moriré en Buenos Aires, como mueren los que saben morir” (Morrerei em Buenos Aires, como morrem aqueles que sabem morrer” é um dos versos de “Balada para mi muerte”, tango com letra de Horario Ferrer e música de Astor Piazzolla.
A longa e frutífera parceria entre o bandonenista argentino Astor Piazzolla e o poeta uruguaio Horacio Ferrer foi uma das mais ‘sinérgicas’ da História do tango do rio da Prata. Um dos mais famosos e saborosos frutos deste trabalho em conjunto foi “Balada para un loco” (Balada para um louco), estreada no dia 15 de novembro de 1969 no Luna Park, em pleno centro portenho, onde transcorria o encerramento do Festival Ibero-americano de Dança e Canção.

Piazzolla havia iniciado a parceria com Ferrer pouco tempo antes deste festival, quando o poeta havia renunciado a um posto que tinha na Universidade da República, em Montevidéu, Uruguai.

Pizzolla, ao ler seus poemas, lhe disse: “isso que você faz na poesia, eu faço com a música. Larga tudo e vem trabalhar comigo”.

A nova dupla começou a preparar a ópera-tango “María de Buenos Aires”. Mas, entre uma pausa e outra, foram assistir no cinema “Rey por inconveniência” (cujo título no original era o Le Roi de Coeur, o Rei de Coração), de 1966, do diretor Phillippe de Broca, que trata de um soldado britânico (interpretado pelo genial Alan Bates) que chega em um vilarejo francês após o final da Primeira Guerra Mundial. Ali só estão os loucos que ficaram soltos do manicômio local.

Ferrer, ao ver o filme, ficou fascinado: “o soldado viu que os loucos tinham um enfoque da vida melhor que aqueles que viviam fora do manicômio”. Isso o inspirou para a figura do louco, protagonista da Balada.

Os dois amigos atarefaram-se na composição da obra, concluída no apartamento que Piazzolla tinha na avenida Libertador 1088, andar 14, apartamento C.

No dia “D” Ferrer levou a letra de Balada para un loco. Piazzolla, fascinado, tocou uma melodia. Parecia que estava em transe.

Mas Ferrer não gostou. “Não tinha o lado romântico e boêmio que a letra requeria”, explicou anos depois.

Piazzolla tentou uma segunda melodia.

Mas, desta vez, foi o próprio Piazzolla que não gostou daquilo que ele próprio havia composto. “Não, não…parece um tango plagiado de Mariano Mores (um tangueiro de fama nos an0os 40 e 50, na ativa até hoje em dia)”.

Depois, na terceira tentativa, começou colocando alguns acordes de “Adiós Nonino”, e finalmente, com essa base, construiu “Balada para un loco”.

Ferrer começou a recitar seu poema.

Emocionado, quando Ferrer terminou de ler o poema e a melodia foi encerrada, Piazzolla disse com os olhos marejados: “Horácio, temos um míssil em nossas mãos!”

O professor Neurus, o cientista maluco de Trulalá, cidade criada pelo desenhista García Ferré. E ao lado, cantando a canção de Piazzolla-Ferré, Pucho, seu fiel, desastrado cúmplice, amante dos tangos (Pucho sempre canta pelo menos um tango nas tirinhas e especialmente no desenho animado)

Na noite do festival, Amelita Baltar, uma jovem cantora, preparava-se para entoar a canção. Mas, o público estava impaciente. “Vai lavar pratos!”, gritavam alguns espectadores, enquanto Amelita Baltar tremia nervosa, segundo confessou anos depois.

O impaciente público sequer ficou em silêncio quando a jovem cantora – que se tornaria em uma das várias esposas de Piozzolla – começou a pronunciar os primeiros versos do recitativo.

“Las tardecitas de Buenos Aires tienen esse que sé yo, viste? Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mí, cuando de repente…”.

Quando terminou, foi ovacionada longamente. Mas, os fãs dos grupos musicais rivais jogaram moedas sobre o palco.

Naquela noite, Amelita estava tão nervosa enquanto cantava, com tal dificuldade para respirar, que, em um momento, respirou fundo (muito fundo)…e o vestido rasgou por trás.

Quando terminou, enquanto era aplaudida, teve que caminhar para trás, até sair do palco.

O festival premiaria naquele dia três categorias; música internacional, música tradicional e tango.

O júri composto por eminências internacionais da música da época. Vinícius de Moraes, a poetisa e cantora peruana Chabuca Granda e o argentino e tangueiro Armando Garrido eram alguns integrantes do tribunal que votou a favor de Piazzolla-Baltar-Ferrer.

Mas, o júri popular convocado pelos organizadores do festival optou pelo tango tradicional “Até o último trem”, de Julio Ahumada e Julio Camillioni.

A obra era interpretada pelo tangueiro com um impressionante registro de barítono, Jorge Sobral.

O “Balada para un loco” não venceu o festival. Mas, na seguinte semana o disco com a canção foi lançado e vendeu 200 mil cópias. Imediatamente o cantor Roberto Goyeneche, encantado com a obra, também a gravou. E a partir dali, ficou famosa em todo o mundo.

Piazzolla morreu há 22 anos, em 1992.

Horacio Ferrer morava no hotel Alvear e era presidente da Academia Nacional do Tango.

A ex-esposa de Piazzolla, Amelita Baltar, apresenta-se com frequência na livraria Clásica y Moderna, na avenida Callao.

Horacio Ferrer entoa os versos da balada.

LETRA DE BALADA PARA UN LOCO

(Recitativo)

Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese qué sé yo, ¿viste? Salís de tu casa, por Arenales. Lo de siempre: en la calle y en vos. . . Cuando, de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo. Mezcla rara de penúltimo linyera y de primer polizonte en el viaje a Venus: medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel, dos medias suelas clavadas en los pies, y una banderita de taxi libre levantada en cada mano. ¡Te reís!… Pero sólo vos me ves: porque los maniquíes me guiñan; los semáforos me dan tres luces celestes, y las naranjas del frutero de la esquina me tiran azahares. ¡Vení!, que así, medio bailando y medio volando, me saco el melón para saludarte, te regalo una banderita, y te digo…

(Cantado)

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao… No ves que va la luna rodando por Callao; que un corso de astronautas y niños, con un vals, me baila alrededor… ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao…Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión; y a vos te vi tan triste… ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!…el loco berretín que tengo para vos:

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco! Cuando anochezca en tu porteña soledad, por la ribera de tu sábana vendré con un poema y un trombón a desvelarte el corazón.

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco! Como un acróbata demente saltaré, sobre el abismo de tu escote hasta sentir que enloquecí tu corazón de libertad…

¡Ya vas a ver!

(Recitativo)

Salgamos a volar, querida mía; subite a mi ilusión super-sport, y vamos a correr por las cornisas ¡con una golondrina en el motor!

De Vieytes nos aplauden: “¡Viva! ¡Viva!”, los locos que inventaron el Amor; y un ángel y un soldado y una niña nos dan un valsecito bailador.

Nos sale a saludar la gente linda…

Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!: provoco campanarios con la risa, y al fin, te miro, y canto a media voz:

(Cantado)

Quereme así, piantao, piantao, piantao…

Trepate a esta ternura de locos que hay en mí, ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!

¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!

Quereme así, piantao, piantao, piantao…

Abrite los amores que vamos a intentar la mágica locura total de revivir…

¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!

(Gritado)

¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!

Loca ella y loco yo…

¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!

¡Loca ella y loco yo

‘NÃO TEM OS PATINHOS EM FILA”: BREVE GLOSSÁRIO SOBRE OS ‘PIANTAOS’

– Chapita: Pinel. Doidinho. Lelé da cuca. Excêntrico. Usa-se com o verbo “estar”. Alguém “está chapita” Também usa.-se o “re-chapita”. Bem doido.

– Colifato: Louco. Também usa-se a versão abreviada, “colifa”.

– “De la gorra”: Literalmente, “Do boné”. Exemplo, “estás de la gorra si te imaginás que podés usar essa ropa”

– “Del tomate”: Literalmente, “Do tomate”. Exemplo: “vos estás del tomate si crees que el diputado Mutatis de Anchorena va devolver el dinero que robó”

– Fisura, fisurado: Doido. Exemplo: “el fisura de Atilio se fue a Mongolia, a abrir un pet-shop”

– Limado: A palabra provém da prática no automobilismo, de limar a tampa dos cilindros, para propiciar mais potência aos motores. Isto é, o motor fica mais nervoso..mas também mais frágil.

– Pirado: tal como em português.

– Pirucho: variante de pirado.

– Rayado: Literalmente, ‘riscado’, tal como um disco de vinil. “Están rayados???”

– Piantado: louco. “Piantao” é uma forma de falar portenha a mesma gíria portenha de “piantado”. É a palavra usada em um dos mais famosos versos de “Balada para un loco”, música de Astor Piazzolla e letra de Horacio Ferrer (poeta uruguaio que reside há anos em Buenos Aires e é o presidente da Academia Nacional do Tango da Argentina).

EXPRESSÕES SOBRE OS ‘PIANTAOS’

– No tiene los patitos en fila: Não tem os patinhos em fila. Usado para denominar alguém que está pinel. Biruta.

– No tiene todos los caramelos en el frasco: Não tem todos as balas no pote. Também usado para indicar que alguém está um tanto quanto lelé.

– Te faltan un par de jugadores en la cancha? : Faltam em você um par de jogadores no campo? Idem, idem

– Tenés todas las lamparitas encendidas?: Tem todas as lampadinhas acessas? Idem…

– Te llega agua al tanque?: A água chega em teu tanque? Idem, neste caso, em uma pergunta direta à pessoa suspeita de ter alguns parafusos a menos.

Balada para un loco,  com Amelita Baltar, na gravação original de 1969:

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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