Morreu o general que queimou arquivos da ditadura argentina e admirava Hitler
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Morreu o general que queimou arquivos da ditadura argentina e admirava Hitler

arielpalacios

25 de janeiro de 2011 | 19h34

 

Nicolaides, general que ordenou a queima dos comprometedores arquivos da ditadura militar argentina

Declarado admirador de Adolf Hitler, o general Cristino Nicolaides morreu neste fim de semana por problemas pulmonares na cidade de Córdoba, onde estava em prisão domiciliar. O general, de 86 anos, foi o autor da ordem direta de queimar os arquivos da ditadura militar argentina (1976-83) que continham informações sobre o paradeiro dos corpos dos desaparecidos, os bebês sequestrados e a estrutura e funcionamento dos centros clandestinos de tortura. A ordem foi emitida em novembro de 1983, um mês antes da volta da democracia, quando Nicolaides era o chefe do Exército durante o governo do general Reynaldo Bignone, o último ditador.

Nos anos anteriores Nicolaides havia sido um dos articuladores do Plano Cóndor, o esquema de intercâmbio de prisioneiros e colaboração de inteligência das ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Um mês antes do fim do regime militar Nicolaides preparou um relatório sobre os mortos da Ditadura, que denominou “Documento Final sobre a Luta contra a Subversão e o Terrorismo”, onde declarava a morte de todos os desaparecidos.

O documento destacava que todas as crianças nascidas em cativeiro estavam mortas.

Em 2007 Nicolaides foi condenado a 25 anos de prisão pelo sequestro e morte – sem julgamento prévio – de integrantes do grupo Montoneros que haviam retornado ao país em plena ditadura para realizar uma “contraofensiva” contra o regime militar.

Em dezembro do ano passado a Justiça comunicou ao militar que teria que voltar ao banco dos réus em fevereiro para ser julgado ao lado de seus ex-colegas de ditadura, os generais e presidentes Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, sobre o plano sistemático de sequestro de crianças, filhos dos desaparecidos.

No entanto, há poucas semanas seus advogados convenceram os juízes de que Nicolaides não estava em condições “mentais” de comparecer ao tribunal. Desta forma, poucos dias antes de morrer, o general conseguiu uma dispensa.

Seus parentes mantiveram sigilo sobre sua morte no sábado e somente comunicaram o óbito à Justiça Federal quando o corpo do militar já havia sido cremado no domingo.

Nicolaides era declarado admirador declarado do Führer Adolf Hitler. Acima, o vegetariano e austríaco líder do Terceiro Reich – antes de ser Führer – treina em 1930 sua sui generis gestualidade no estúdio do fotógrafo Heinrich Hoffmann.

MARX E CRISTO – Anticomunista ferrenho, Nicolaides era famoso por frases peculiares sobre o marxismo. “Há uma ação marxista-comunista na esfera internacional, que tem vigência há muito tempo. O marxismo persegue a Humanidade desde 500 anos antes de Cristo”, disse em 1981 durante uma conferência sobre políticos e sindicalistas.

 

Teoria do general argentino indicava que marxismo já existia uns 500 anos antes de Cristo

QUEIMA DE DOCUMENTOS – Pouco antes da volta à democracia, em 1983, no governo do ditador Reynaldo Bignone, o general Cristino Nicolaides ordenou a queima de todos os documentos relativos à repressão implementada pelo regime militar nos sete anos anteriores.

Na ausência de documentos, nos últimos 28 anos a Justiça teve que recorrer a um verdadeiro quebra-cabeça de informações dos sobreviventes dos campos de detenção e tortura, depoimentos de policiais e militares arrependidos, além de vestígios dos ossos das pessoas assassinadas pelo regime que foram identificados por antropólogos.

Entre os poucos papéis encontrados desde 1983 estão uma pequena parte dos arquivos secretos de “La Bonaerense”, a temida polícia da província de Buenos Aires, além de documentos do “Plano Condor” encontrados em Assunção, Paraguai, nos anos 90. 

 

General e ditador Reynaldo Bignone (à direita), acompanhado por seu chefe do Exército, o general Nicolaides (à esquerda).

QUEM É QUEM – O general Bignone foi o presidente da última Junta Militar da Ditadura. Ele governou o país após ter derrubado o general Leopoldo Fortunato Galtieri, cujo fracasso na Guerra das Malvinas (março-junho 1982) provocou sua queda.

Bignone, a contragosto, foi o encarregado de administrar a retirada dos militares do cenário político argentino e preparar as eleições de dezembro de 1983.

Antes de deixar o poder, no entanto, eliminou todos os documentos sobre a repressão e os 30 mil desaparecidos. Nessa destruição no último mês da Ditadura, quando era evidente que venceria o candidato da União Cívica Radical, Raúl Alfonsín, que havia prometido averiguar o paradeiro dos desaparecidos, foram queimadas as listas dos nomes dos mortos e onde haviam sido enterrados.

Além da destruição das evidências documentais, nas últimas semanas Bignone também tentou criar um aparato jurídico que protegesse os repressores dos processos da Justiça que poderiam vir na volta da Democracia. Para isso, decretou a Lei de Pacificação Nacional, onde anistiava todos aqueles que haviam cometido graves violações aos Direitos Humanos. A revogação dessa lei foi a primeira medida que Alfonsín tomou ao chegar ao poder.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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