Mulher de Videla tornou-se amiga de Isabelita Perón para preparar golpe militar
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Mulher de Videla tornou-se amiga de Isabelita Perón para preparar golpe militar

arielpalacios

28 de maio de 2013 | 22h22

Mulher de Videla tomava chá com a presidente Isabelita Perón, fingindo ser sua amiga. Por seu lado, a esposa de Pinochet o pressionou para não ficar de fora do golpe contra Allende. Acima, os dois ditadores com suas respectivas primeiras-damas. Augusto Ramón com María Lucía à esquerda. À direita, Alicia Raquel e Jorge Rafael.

“Por trás de um filho da p…existe sempre uma filha da p…?” Esta foi a peculiar pergunta que Juan Gasparini fez quando pensou em escrever “Mulheres de Ditadores”, obra na qual relata e analisa a vida das esposas de alguns dos homens fortes da política internacional das últimas décadas. Mas a resposta que encontrou foi outra: “não. Por trás de um ditador existe um pouco de tudo”.

Gasparini, um argentino que reside na Suíça há quase quatro décadas – quando teve que partir de seu país por causa da ditadura – me disse que muitas destas mulheres de ditadores às vezes “são mais malvadas que seus maridos, em outras ocasiões vivem um conflito permanente, outras se arrependem e rompem com eles, mas todas, sem exceção, os apóiam, pelo menos no início”.

O livro, que depois do lançamento na Argentina em 2002 foi apresentado em Madri pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, retrata a vida – e influências – de Lucía Hiriart na ditadura de seu marido, o general chileno Augusto Pinochet; de Alicia Raquel Hartridge, esposa de Videla; Susana Higuchi, mulher do presidente peruano Alberto Fujimori, bem como as diversas mulheres do líder cubano, Fidel Castro, entre outras.

ALICIA E O CHÁ

Alicia Raquel Hartridge, nascida em 1927, mulher do general Videla, esteve sempre na penumbra, em um lugar secundário. Mas também colaborou com o golpe ao aproximar-se da presidente María Estela “Isabelita” Martínez de Perón como “amiga” no final de 1975, para impedir que tivesse qualquer tipo de suspeitas de que seu marido e colegas estavam preparando um golpe militar.

Alicia ia à residência de Olivos, onde tomava o chá com a presidente argentina, embalando o momento com conversas light.

Pouco meses depois, em março de 1976, “Isabelita” seria derrubada pelo cônjuge de sua “amiga”.

Ao chegar na residência oficial de Olivos, Alicia – uma feroz anti-peronista – impôs uma condição ao marido que debutava no cargo de ditador: a remoção do corpo de Evita Perón, que jazia em um dos salões.

Alicia Hartridge era filha de um diplomata de antepassados ingleses, que durante a Segunda Guerra Mundial teria tido atividades pró-nazistas. Depois do conflito, o pai de Alicia ajudou refugiados nazistas a esconderem-se na Argentina.

Gasparini sugere que Alicia teria sido uma das pessoas que teriam apoiado Videla na estratégia de seqüestrar as crianças dos desaparecidos políticos para “colocá-las em um rumo cristão na vida”.

Durante e depois da Ditadura, Videla foi conhecido como um asceta religioso, que todos os dias ia à missa. Sobre sua vida sexual nunca houve comentários de qualquer tipo, ao contrário do “Don Juan” que era seu colega de Junta Militar, o almirante Emilio Massera.

No entanto, Gasparini descobriu que Videla teve uma amante ao longo de vários anos, Lyda Lombardi. Nascida em 1917, era uma filha de grandes fazendeiros, que começou a ter encontros amorosos com Videla possivelmente a partir de 1968. Ela continuou com seu affaire ao longo da Ditadura, quando reunia-se com ele na própria Casa Rosada, a sede do governo. O romance teria terminado em 1990.

 

A dura Lucía Hiriart em um moment de relax estético

LUCÍA, BATOM E CANHÕES

A foto da capa do livro é ilustrativa do paradoxo que inquieta Gasparini: “como é possível manter a feminilidade ao lado destes senhores brutais?”. A imagem mostra Lucía Hiriart passando batom, enquanto seu marido, o general Pinochet, a seu lado, assiste uma parada militar. “Lucía é uma mulher crucial na ditadura pinochetista”, afirma Gasparini.

No decorrer de seu casamento, ela sempre o empurrou para conseguir mais poder. Nascida em 1924,  era filha de um senador. Antes do golpe Lucía jogava na cara do marido que poderia estar melhor de vida e com mais poder se não tivesse casado com ele. Pinochet retrucava dizendo que poderia ser ministro da Defesa. E ela lhe respondia: “ministro, não. Você tem que ser presidente!”.

O golpe de setembro de 1973, contra o presidente Salvador Allende, um socialista, foi um fenômeno gerado na Marinha. No entanto, Pinochet, chefe do Exército, duvidava sobre entrar na conspiração. Mas, em uma noite pouco antes do levante militar, enquanto seus filhos dormiam, Lucía pegou seu marido pelo braço e disparou: “você é um covarde. Nosso filhos vão acabar vivendo sob o comunismo. Você não tem coragem de assumir tuas responsabilidades”. Segundo Gasparini, Pinochet disse-lhe nesse momento que não a iria decepcionar.

“Ela, por isso, é crucial no golpe. E anos depois, quando a Ditadura está no fim, o regime planeja realizar um referendum em 1988, no qual os chilenos tinham que dar “não” a Pinochet, ou aceitá-lo até 1997. A idéia do referendum havia sido elaborada por Lucía dois anos antes. E nas eleições de 1990, ela até analisa a possibilidade de candidatar-se à presidência da República”, explica.

Esta é a ilustrativa foto que mostra Lucía Hiriart passando batom enquanto seu marido, o general Pinochet, a seu lado, assiste uma parada militar. “Como é possível manter a feminilidade ao lado destes homens brutais?”, comenta Gasparini, perplexo. E em seguida, responde sua própria pergunta: “é que às vezes são mais malvadas que seus maridos…”.

P/embalar esta noite de 3afeira, “I want to be evil”, com a supimpa Eartha Kitt:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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