Na Argentina ocorrem anualmente quase tantos femicídios quanto as mortes dos soldados argentinos nas Malvinas
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Na Argentina ocorrem anualmente quase tantos femicídios quanto as mortes dos soldados argentinos nas Malvinas

arielpalacios

06 de dezembro de 2014 | 00h35

BlogOteloeDesdemonaAntonioMunozDegrain

No quadro acima Otelo prepara-se para segurar sua mulher Desdêmona pelo pescoço e estrangulá-la pelo ciúme gerado por um lencinho. O quadro, de Antonio Muñoz Degraín, feito em 1880, inspira-se na peça de William Shakespeare Othello, the Moor of Venice. A pintura está no Museu do Chiado, Lisboa. Um caso clássico de femicídio.

blog1dedo4Uma mulher foi vítima de femicídio a cada 30 horas na Argentina durante 2013. Os dados são da ONG A Casa do Encontro, associação que criou há cinco anos o Observatório de Femicídios da Argentina, que também afirmou que no total, 295 mulheres foram mortas no ano passado por seus maridos, ex-maridos, namorados e ex-namorados, entre outras pessoas. Esse volumes de mulheres assassinadas é quase igual ao número de baixas durante a Guerra das Malvinas entre os soldados argentinos nos combates terrestres no arquipélago (326 mortes).

O número de vítimas indica um aumento de 15% em comparação com 2012, apesar das diversas campanhas feitas nos canais de televisão no país ao longo do ano passado. O femicídio destas mulheres deixou 450 menores de idade sem suas mães. Do total de mulheres assassinadas por questões de gênero, onze estavam grávidas.

Segundo o relatório elaborado pela organização, as modalidades dos assassinatos dessas mulheres foram amplas, desde as mortes por armas de fogo, punhaladas. Outras foram estranguladas, afogadas ou espancadas até a morte. Algumas, esquartejadas.

Em 2012 o parlamento argentino aprovou a lei 26.791, que determina que é agravante do delito de homicídio simples de mulheres os casos cometidos por homens que tenham agido por intermédio de violência de gênero. O castigo para estes casos é a prisão perpétua.

A lei foi aprovada graças ao escândalo gerado pelo caso do roqueiro Eduardo Vázquez, do grupo de rock “Callejeros”, que queimou viva Wanda Tadei, sua mulher. O músico jogou álcool e botou fogo com um fósforo. A jovem agonizou onze dias no hospital antes de morrer. O episódio teve um efeito de imitação por outros dezenas de outros homens que queimaram vivas suas namoradas e mulheres nos anos seguintes.

Paradoxalmente, Vásquez foi liberado por algumas horas para participar  em novembro de 2011, quando estava em prisão preventiva, de um comício kirchnerista. No dia 24 junho de 2012 foi novamente liberado por umas horas para tocar bateria em um ato do “Vatayón Militante” (grupo político kirchnerista) no portenho bairro de San Telmo. Poucos dias antes, no 14 de junho, ele havia sido condenado a 18 anos de prisão. Posteriormente a Justiça o condenou a 35 anos.

Um projeto de lei no Parlamento em Buenos Aires propõe que o pai agressor perca não somente a custódia das crianças, mas também a própria paternidade.

Em 2008, 208 mulheres foram vítimas de femicídio na Argentina. Em 2009, 231. Em 2010, 260. Em 2011, 282, enquanto que em 2012 foram 255.

FEMICÍDIO – Há poucos dias um grupo de gerontes (e alguns sujeitos jovens, mas com mentalidade medieval) me comentaram que irritavam-se quando ouviam o termo “femicídio”. Na ocasião, me disseram algo parecido à esta frase: “ah, se assassinato de mulher é femicídio, então homicídio de homem é ‘homenicídio’?”. Tiver que explicar aos senhores em questão uma série de pontos que relato a seguir.

– Se uma mulher é morta por um ladrão em um assalto a um banco não é “femicídio”. É um assassinato padrão.

“Femicídio” é o misógino assassinato de mulheres cometidos por homens por questões de gênero.

E qual o motivo para a existência de um termo tão específico? Ora, primeiro, porque é algo que ocorre com elevada frequência – ao contrário da morte de homens nas mãos de mulheres – e portanto, merece uma denominação específica.

Em segundo lugar, porque existem termos adequados, denominações técnicas para os diversos casos de homicídios, como – “parricídio” para o assassinato de pais pelos filhos;

“magnicídio” para o caso de presidentes mortos por questões políticas,

“regicídio” para o caso de assassinatos de reis,

“infanticídio” para o caso do assassinato de crianças,

“suicídio”, o assassinato de si próprio. Seria o auto-assassinato. Alguém acha que por existir a palavra “assassinato” deveríamos eliminar a palavra “suicídio”? Não, claro. Da mesma forma é evidente a especificidade do termo “femicídio”.

“Uxoricídio”, palavra que é um mix do grego “uxor” (esposa) e de “cida” (que vinha do latim caedere, isto é, matar). Este termo é usado para designar o homicídio de um cônjuge por parte de outro, seja homem ou mulher. Esse seria também o caso a aplicar na obra de Shakespeare, “Otelo”, que pode ser definido como uxoricídio ou femicídio. Na obra, o protagonista aperta com as mãos o pescoço de sua mulher Desdêmona. Motivo: o gajo em questão fica furioso quando uma série de suspeitas surgem por causa de um lencinho que suscita ciúmes. Otelo, considerando que Desdêmona era sua posse, a estrangula.

Durante séculos, Otelo & afins se desculparam afirmando que haviam sido tomados de “violenta paixão”. Mas, essa excusa não é mais aceita como argumento sério nos países civilizados.

blog1vinheta71bPara encerrar, vamos com o Otelo de Giusseppe Verdi. Mirella Freni como Desdêmona e Plácido Domingo como Otelo. No Teatro alla Scala, dezembro de 1976. Rege Carlos Kleiber:

E Arturo Toscanini ensaiando o Otelo em 1947 com a orquestra da NBC:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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