“Gran Cuñado”: a política com um ‘touch’ de delírio
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“Gran Cuñado”: a política com um ‘touch’ de delírio

arielpalacios

30 de maio de 2009 | 13h41

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Se a política argentina é um delírio, ‘Gran Cuñado’, só exagera um pouco…e às vezes nem tanto. Cristina como diva, emula Madonna

Falta menos de um mês para as decisivas eleições parlamentares do dia 28 de junho, que renovarão um terço do Senado e metade da Câmara de Deputados. Neste período de acirrada campanha eleitoral, o programa de maior sucesso na TV argentina é “Gran Cuñado” (Grande Cunhado), uma paródia do reality show “Gran Hermano” (a denominação na Argentina do reality “Big Brother”).

O programa colocou os políticos argentinos em estado de alerta. E não é para menos, pois – em tom de sátira – reúne as mais ácidas imitações dos mais famosos políticos argentinos atuais. Ali estão os personagens do ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa, a presidente Cristina Kirchner, junto com diversas lideranças da Oposição. “Grande Cunhado” é um pouco mais delirante que a política real argentina. Mas só um pouco mais…pois esta já é altamente delirante por si só.

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Os personagens ficam dentro de uma casa na qual devem conviver durante semanas, tal como no Big Brother. O programa mostra as discussões, manias e chiliques entre os participantes, que na vida real sequer aceitam reunir-se para participar de um breve debate. Os telespectadores, por voto telefônico, definirão quem fica e quem vai embora da casa de “Grande Cunhado”.

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Kirchner entra na casa do G.C. ostentando a faixa presidencial…da esposa

Na semana passada, a sátira intensificou-se quando o programa mostrou Cristina Kirchner dançando, além de um beijo entre a presidente e o ex-presidente Kirchner.

Link de video no Youtube de Cristina dançando: http://www.youtube.com/watch?v=TaJlxGK4kHY

De quebra, um dos sketches mais celebrados foi o de Cristina Kirchner dançando como Madonna em “Material Girl”.

Link Cristina, como “La Chica Material”, The Material Girl:
http://www.youtube.com/watch?v=dfwEonb0XH0

A estreia do programa foi simultânea ao início da campanha para as eleições parlamentares do dia 28 de junho. Estas eleições são consideradas “decisivas” para definir o mapa do poder na Argentina na segunda metade do mandato da presidente Cristina, que enfrenta elevada impopularidade.

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Na casa de G.C. O sempre solícito Chefe do Gabinete de Ministros, Sergio Massa, penteia a presidente e lhe passa laquê

Transmitido pelo Canal Trece, com picos de audiência de até 41% (nível elevado na TV argentina), o programa mostra Cristina como uma mulher vaidosa e autoritária. O ex-presidente Kirchner foi caracterizado com seu olho direito estrábico, nariz aquilino e a voz esganiçada. De quebra, na estreia, entrou na casa com a faixa presidencial, como se ainda fosse presidente.

O governo receia efeitos negativos na população, a poucas semanas antes das decisivas eleições parlamentares.

A Oposição também é satirizada de forma ácida. O vice-presidente Julio Cobos (que é opositor aos Kirchners) é mostrado como um homem de lentas decisões, que sempre está duvidando sobre as atitudes a adotar.

A paródia do casal presidencial levou o próprio ex-presidente Kirchner a telefonar aos diretores de “Ideas del Sur”, a produtora, para pedir, dias antes da estreia, que não colocassem o personagem de sua esposa Cristina no ar.

O Ministro da Justiça da Argentina, Aníbal Fernández, também tentou brecar a sátira sobre a presidente e pediu que o personagem de Cristina Kirchner fosse removido da sátira televisiva. “Acho que estão ocorrendo excessos. Isto deveria ser regulado, pois trata-se da presidente”, disse Fernández, que depois deixou uma sutil ameaça: “ninguém está pensando em um decreto (sobre a remoção do personagem), mas…”.

Os roteiristas, que preparam a fala dos personagens (algumas, ocasionalmente, são improvisos), receberam ameaças telefônicas. Um deles é o cartunista Nik, famoso por suas ácidas caricaturas sobre os políticos argentinos, de todo o leque ideológico.

MELHOR ESTAR DO QUE NÃO ESTAR – Diversos políticos, dias antes do programa estrear, ficaram preocupados por não estarem na lista dos satirizados. Um deles, o líder piqueteiro Luis D’Elia, telefonou à produção e implorou para ser colocado na casa de “Grande Cunhado”.
Os produtores concordaram (e é uma das melhores imitações, pois a máscara, os gestos e a voz do D’Elia falso são impressionantes!) e o personagem de D’Elia foi incorporado à casa.

Estes pedidos indicaram que os políticos preferem estar dentro da casa de que não estar. Ficar de fora equivale a não estar na lista dos políticos ‘Top’ do momento.

Isto é, o raciocínio, para vários políticos é: melhor ser satirizado do que não ser…
Aliás, eles preferem estar na casa de “Grande Cunhado”, por intermédio de seus imitadores do que participar de um debate político na TV.

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Cristina e Néstor beijam-se com ternura na casa de ‘Gran Cuñado’

Link de Cristina e Néstor, beijando-se:
http://www.youtube.com/watch?v=oQmu2R7t0bM

INSÓLITA VISITA – Mas, um dos pontos culminantes foi quando o ex-presidente Carlos Menem (1989-99), o verdadeiro, participou do programa.
O Menem real – que está em plena decadência política e aproveita qualquer convite para aparecer – conviveu durante 15 minutos com as imitações dos principais políticos argentinos.
Com a malícia que o caracterizou ao longo de sua vida política, o verdadeiro Menem aproveitou a ocasião para disparar farpas contra o verdadeiro casal Kirchner, que está no meio de uma acirrada campanha para as decisivas eleições parlamentares do dia 28 de junho.

Menem, inimigo mortal dos Kirchners na vida real, ironizou: “nunca vou esquecer que durante a inauguração de uma obra na província de Santa Cruz nos anos 90 ele me disse que eu era o melhor presidente de todos os tempos”.

Link que mostra Menem na casa de “Grande Cunhado”:
http://www.youtube.com/watch?v=SdG6fQYjuPk

Neste link, Menem fala sobre Kirchner ao redor dos 3:19 minutos. E no minuto 4:00 fala sobre Cristina.
Néstor Kirchner (o de mentirinha) aparece aos 4:22 minutos
E a Cristina Kirchner aparece no minuto 6:25.

LANÇAMENTO DE CANDIDATURA – A personagem de Cristina Kirchner propôs a Menem que este fosse o vice de Kirchner nas eleições de 2011. Menem declinou o convite, e disse que preferia que a chapa fosse ao contrário, isto é Menem-Kirchner.

Mas, ao despedir-se da casa do “Grande Cunhado”, Menem anunciou que em 2011 será candidato presidencial: “competirei contra muito destes que estão aqui!”.

Nunca antes na História da Argentina havia ocorrido o lançamento de uma candidatura presidencial no meio de um programa satírico. Sinal de que os políticos podem ser mais surreais do que a própria sátira.

Os comentaristas de TV ressaltaram que Menem, que costuma maquiar-se há anos (o Menem real, hein!) para camuflar a inexorável passagem do tempo e os efeitos em sua epiderme, parecia mais maquiado que os atores que usam máscaras para simular os políticos.

Os analistas políticos – e os comentaristas de TV – ressaltam que o sucesso de “Grande Cunhado” – que possui em média 35% de audiência (nível que na Argentina é considerado elevado, pois a audiência está muito atomizada) evidencia o elevado grau de desprestígio dos políticos entre os argentinos.

“Grande Cunhado” possui mais audiência – e comentários no dia seguinte às suas emissões – que os principais programas sobre política na TV argentina.

SONOLENTO NO MEIO DA CRISE – A primeira edição do “Grande Cunhado” ocorreu em 2001. O nome do programa é uma alusão a Emir Yoma, o problemático ex-cunhado do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), envolvido em uma miríade de escândalos de corrupção.

Na época a Argentina estava no meio de uma crescente crise política e econômica que levou o país ao colapso no final daquele ano. Na ocasião, “Grande Cunhado”, apresentado pelo locutor Marcelo Tinelli, superava em audiência o próprio programa do “Big Brother”.

O presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) era mostrado como um homem sonolento, distraído, que estava sempre de pijama enquanto o país desmoronava.
De la Rúa acusou o programa – assistido por milhões de argentinos – de estar “desestabilizando” seu governo,

De la Rúa ficou tão obcecado com o programa que chegou a indicar que estava ocorrendo uma “tinelização” da sociedade, em alusão ao sobrenome do apresentador.

Os analistas políticos indicaram que a paródia feita em “Grande Cunhado” colaborou na queda de De la Rúa em dezembro de 2001. “Deu um bom empurrãozinho” em De la Rúa, afirmam.

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