Na gíria portenha milanesa tem ‘verdade’
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Na gíria portenha milanesa tem ‘verdade’

arielpalacios

13 de maio de 2009 | 12h13

milanesa
Milanesa – supimpa conjunção de carne, ovos e farinha de rosca – reafirma verdades na Argentina

O lunfardo portenho – a gíria de Buenos Aires (1) – possui uma longa série de palavras para referir-se à comida e à bebida. Os portenhos também usam nomes de alimentos ou pratos para fazer alusão sobre outros assuntos.
Além disso, o lunfardo usa o nome de alimentos pra designar características de pessoas.
Um “papa frita” (batata frita), por exemplo, é um “otário” ou “bobo”. A palavra “salame” tem idêntica utilização. E inclusive “zapallo” (abóbora) designa alguém tonto e cabeça-dura.
Enquanto que no Brasil alguém que empresta ingenuamente seu nome para outra pessoa que o usa em uma negociata é um “laranja”, na Argentina é um “perejil” (salsinha).
Aqui segue uma pequena lista deste lunfardo alimentício:

LA VERDAD DE LA MILANESA: A expressão popular “la verdad de la milanesa” (a verdade da milanesa) refere-se a uma verdade precisa. É uma expressão enfática que reafirma a verdade de algum comentário. Exemplo: “a verdade da milanesa é que o deputado Neanderthal Bezerra roubou US$ 12 milhões naquela negociata com o senador Bombordo Peçanha”. Expressão para indicar que não há dúvida alguma.

Pochita
Pochita Morfoni, personagem do desenhista Guillermo Divito (1914-1969). Pochita comia sempre, vorazmente.
“Morfoni” era uma forma de dissimular o adjetivo de “morfón” com a aparência de um sobrenome italiano.

MORFAR: Comer. Comer para valer, com voracidade pantagruélica. Exemplo: “me morfé tres platos de ñoquis!” (comi – para valer – tres pratos de nhoques). A palavra origina-se do termo “morfellier” que no ‘argot’ (a gíria francesa) do final do século XIX e começo do XX significava “comer”. Séculos antes disso, François Rabelais, o autor de “Pantagruel”, o anti-anoréxico personagem, usava o verbo “morfiailler” em suas obras.

MORFÓN: glutão.

ZAPÁN: “Pança”, mas ao contrário. É um exemplo do “vesre”, a forma do lunfardo de falar ao contrário. Os parisienses possuem uma forma equivalente, o “verlan” (o contrário fonético de ‘l’envers’, ‘o contrário’ em francês)

rabelais
O escritor francês François Rabelais (1494-1553), autor de Pantagruel e de Gargântua, personagens que se tivessem nascido em Buenos Aires teriam sido chamados de “Los Morfones”.

gargantua
Gargântua, pai de Pantagruel, ‘morfando como siempre’, em ilustração de Gustave Doré, 1873

CHUPAR: Beber abundantemente. Álcool, evidentemente (acho que em lugar algum no mundo há gírias para referir-se ao ato de beber água mineral com gás). Entornar. Quem “chupa” muito fica “mamado” (bêbado) ou “curda” (bêbado). O mesmo verbo no espanhol da Argentina – tal como no idioma de Eça de Queirós e Sidney Magal – também pode ser usado para a prática do fellatio.

isidoro
Isidoro Cañones, personagem do desenhista Dante Quinterno (1909-2003). Isidoro, protótipo do playboy portenho, entorna uma taça – literalmente – carregada de destilado escocês.

ESCABIO: Bebida alcoólica. Vem de uma antiga palavra italiana, ‘scabi’, usada para referir-se ao vinho.

ESCABIAR: Ingerir generosas quantias de destilados e fermentados.

MORFI Y CHUPI: Forma ligeiramente abreviada para referir-se ao conjunto de “comida” e “bebida”. Exemplo: “Vamos a la fiesta de Cacho! Hay morfi y chupi!” (Vamos na festa do Cacho! Há comes e bebes)

ÑOQUIS: Do italiano gnocchi, nhoques. Os argentinos comem – como quase todo o amplo leque de pastas – os nhoques ao longo de todo o ano. Mas, existe um dia especial para comer os nhoques: o dia 29 de cada mês. Deve-se à superstição que indica que comer essa pasta nesse dia traz sorte. Mas, para ter sorte, além de comer os nhoques, deve-se colocar uma nota embaixo do prato. E, como toda superstição tem seus detalhes, esta não podia deixar de ter os seus: a nota deve estar dobrada. Mas, além do prato típico da culinária italiana, no lunfardo a palavra é usada para referir-se ao “marajá”, isto é, o funcionário público que não trabalha, e que só aparece na repartição para receber seu salário uma vez por mês. Neste caso, a expressão ficou comum a partir dos anos 80 para designar o funcionário “fantasma”, “marajá”, que só aparece no fim do mês. Ou seja, tal como os nhoques…

Nhoque
Este é o ‘ñoqui’ alimentício, ao qual aplica-se o brilhante conselho italiano ‘mangia che te fa bene’.
O outro ‘ñoqui’ equivale a nosso “marajá”

E aqui embaixo, um marajá-marajá, um marajá de verdade, seja dita ‘la verdad de la milanesa’: Jagatjit Singh Bahadur (1872 – 1949), Marajá de Kapurthala
maraj2

(1) Também existe um “lunfardo” de Montevidéu, similar ao portenho.

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