Nacional e popular…e dolarizado
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Nacional e popular…e dolarizado

arielpalacios

03 de fevereiro de 2010 | 15h00

nestor
Faça o que digo, mas não faça o que eu faço: Néstor C. Kirchner defende verbalmente a moeda nacional, o peso, já que ressalta que o governo da esposa é ‘Nacional y Popular’. Mas, na prática, compra dólares – a moeda do “Império” – como investimento.

handddc“Para reduzir os preços é preciso acabar com esses sem-vergonhas dos especuladores!”. A frase, pronunciada no final de agosto de 2008, é da autoria do ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina Kirchner e atual deputado. No entanto, um mês e meio depois, em outubro, poucas semanas após a falência do banco Lehman Brothers, que deu início à maior crise financeira mundial desde o crack da Bolsa de Nova York em 1929, Kirchner ia na contra-mão de suas afirmações e investia na moeda americana ao adquirir US$ 2 milhões em divisas.

Deputados da Coalizão Cívica, o segundo maior partido da oposição, de centro-esquerda, solicitaram nesta quarta-feira à Justiça que investigue o ex-presidente pela suspeita de ter usado “informação privilegiada” e de “enriquecimento ilícito”.

A compra de divisas, até o montante adquirido por Kirchner, não é ilegal (sempre que for declarada). No entanto, foi considerada “imoral” e “brutalmente antiética” pelos líderes da oposição.

Os aliados de Kirchner estavam desorientados, pois não encontravam argumentos para defender a decisão do ex-presidente – que apresenta-se como um defensor da causa “Nacional e Popular” – de preferir investir na moeda americana e não nos pesos, a moeda nacional.

A divulgação da compra de US$ 2 milhões, feita no fim de semana pelos jornais “Perfil” e “Clarín” gerou novas turbulências políticas em Buenos Aires. O casal Kirchner, afetado pela constante queda de popularidade, não teve outro remédio do que admitir a aquisição das cinzento-esverdeadas cédulas provenientes daquilo que seus eles próprios e seus aliados chamam de “O Império” (os EUA). Na segunda-feira, o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, e o ministro da Economia, Amado Boudou, alegaram que a compra de dólares havia sido “totalmente dentro da lei”.

HOTELEIRO
handddc em meio à polêmica, Kirchner na terça-feira defendeu-se sobre a compra de US$ 2 milhões.
O formato do argumento de Kirchner foi sui generis, já que tratou-se de um e-mail que enviou a um dos mais famosos jornalistas em Buenos Aires, o uruguaio Victor Hugo Morales, no qual explicava que adquiriu essa quantia em moeda americana para comprar o pacote acionário da companhia Hotesur S.A., proprietária do Hotel Altos Calafate.

Segundo o ex-presidente transformado em hoteleiro, todo o dinheiro foi usado para a compra das ações. Kirchner argumentou que não teve “benefícios cambiais”.

Mas esta não foi a única vez que Kirchner optou pela moeda americana. Segundo a declaração de bens do casal, divulgada no ano passado pelo Departamento Anticorrupção, em 2008 o casal fez diversas aplicações financeiras. Destas, 62% estavam em dólares.

De forma geral, a declaração de bens do casal indica que desde 1999 a maior parte dos depósitos bancários do casal Kirchner estiveram em dólares.

Pouco antes da implantação do “corralito”, o mega-confisco bancário do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa, os Kirchners retiraram a totalidade de suas economias em cash – no total de US$ 1,8 milhão (que por causa da conversibilidade econômica equivaliam a 1,8 milhão de pesos) – e a colocaram em uma conta corrente do Deutsche Bank, nos EUA. Em 2002, após a desvalorização do peso, os Kirchners trouxeram suas economias de volta ao país. Nessa ocasião, o dinheiro que haviam colocado a salvo da crise no exterior valia, ao retornar 6,2 milhões de pesos.

news4O jornal portenho “Perfil” fez uma lista de cinco pontos obscuros no argumento de Kirchner para defender sua compra de US$ 2 milhões. Clique aqui.

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Ao investir em dólares, Kirchner, ex-presidente, atual deputado, primeiro cavalheiro e hoteleiro, indica que não confia na administração do governo da própria esposa, Cristina E. F. de Kirchner. Uma raríssima nota de 500 dólares, emitida em 1943, com a efígie do presidente William McKinley

O ensaísta e ex-ministro da Cultura, Marcos Aguinis, autor de “O atroz encanto de ser argentino”, criticou o comportamento especulativo do ex-presidente: “comprar US$ 2 milhões em um momento de crise e incertezas, aproveitando a informação que possui constitui um insulto para aquelas pessoa que ele diz proteger e defender”. Além disso, sustenta Aguinis, “é uma confissão da minúscula confiança que o ex-presidente tem em nosso país, nossa moeda e nossa própria administração”.

Na ocasião da compra dos US$ 2 milhões, em outubro de 2008, o dólar era cotado a 3,15 pesos em Buenos Aires. No final daquele mês, atingia 3,40. No Réveillon daquele ano chegou a 3,47. Ontem (terça-feira) estava em 3,86 pesos e continuava subindo.

O lucrativo investimento de Kirchner, no entanto, poderia ter sido superior. Segundo o ex-presidente do Banco Central, Martín Redrado, em 2008 ele sofreu intensas pressões do governo da presidente Cristina Kirchner para desvalorizar a moeda em grande escala.

A compra de dólares por parte de Kirchner colocaria o ex-presidente em situação equivalente à média dos argentinos, que na hora de cuidar do bolso, acredita mais na moeda americana do que nos pesos.

Depois dos Estados Unidos, a Argentina ocupa o segundo lugar no ranking mundial de dólares nas mãos da população, seguida pela Rússia. Em média, os argentinos possuem US$ 1.300 per capita, volume muito superior aos US$ 550 em média que os russos possuem.

ENRIQUECIMENTO
handddc Segundo dados do Departamento Anticorrupção, a declaração de bens dos Kirchners do ano passado indicava que o patrimônio do casal presidencial havia crescido 158% em 2008, e superava os US$ 12 milhões. Desde a posse de Kirchner em 2003, ocasião na qual declarou que “optava pelos pobres”, o patrimônio do casal aumentou em 572%.

Segundo os dados oficiais, a maior parte da receita do casal presidencial provém dos elevados aluguéis que cobram de casas e apartamentos que possuem na Patagônia, além das aplicações financeiras.

PERÓN, DÓLARES E VÍSCERAS
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Fundador do peronismo criticava especulação em dólares. Mas admitia que havia uma ‘víscera’ forte.

handddc“Alguém já viu um dólar?”. Com estas palavras, em 1953, o então presidente Juan Domingo Perón desafiava os integrantes da multidão na Praça de Mayo a confessar se algum deles haviam visto de perto alguma vez a moeda americana, que no pós-guerra começava a despertar o interesse dos argentinos que desconfiavam dos pesos.

O populista caudilho, fundador do Partido Justicialista (Peronista), o partido do casal Kirchner – a quem o consideram seu ídolo e mentor – criticava o “capitalismo ianque” e apresentava-se como defensor de uma “terceira via” equidistante ao capitalismo e ao marxismo.

No entanto, Perón, no início dos anos 70, começou a perceber que a procura desesperada dos argentinos pela moeda americana superava qualquer discurso populista. Em seu exílio em Madri, afirmou com ceticismo: “o bolso é a víscera mais sensível do corpo humano…”.

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Nota de um terço de dólar ‘continental’, de 1776

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