“Não queria morrer sem abraçá-lo” (líder das Avós da Praça de Mayo encontra seu neto desaparecido)
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“Não queria morrer sem abraçá-lo” (líder das Avós da Praça de Mayo encontra seu neto desaparecido)

A líder das Avós da Praça de Mayo encontrou seu neto desaparecido, o n.114 identificado pela organização de defesa dos direitos humanos. Nesta postagem, uma detalhada explicação sobre o modus operandi da ditadura para sequestrar os filhos das desaparecidas, além de um 'fatos e números' do regime militar.

arielpalacios

07 de agosto de 2014 | 14h29

Bebês roubados pelo Poder: o sequestro de Ganímedes, de 1635, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn, que está desde 1751 na Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, ilustra como a tenebrosa águia (o deus Zeus, manda-chuva do Olimpo, usando a forma dessa ave) rouba a criança. Nesta versão, pintada para um mecanas calvinista holandês, Rembrandt dá outro enfoque à lenda de Ganímedes, como crítica aos pederastas que abusam dos menores. Na lenda grega Zeus havia sequestrado a criança para seu prepotente uso próprio.

Na terça-feira de manhã, Estela de Carlotto, líder das Avós da Praça de Mayo, recebeu um telefonema da juíza federal Maria Servini de Cubría:

“Estela, pode vir aqui no tribunal?”, perguntou a magistrada.

A líder das Avós foi até lá. Quando chegou, a juíza contou que tinham os resultados de um exame de DNA que confirmavam a identidade de um adulto que havia sido um bebê seqüestrado pela ditadura.

“Recuperamos outro neto!”, exclamou a juíza.

“Que alegria, outro neto!”, respondeu emocionada De Carlotto.

Nesse momento, Servini de Cubría terminou de explicar: “Estela, este chama-se Guido…é teu neto!”. De Carlotto abraçou a juíza. Ria e chorava ao mesmo tempo.

Poucas horas depois, com um sorriso de orelha à orelha, a líder das Avós da Praça de Mayo anunciou publicamente a descoberta de seu próprio neto desaparecido. “Não podia acreditar!”, explicou emocionada ao relatar que a organização que lidera há mais de três décadas, criada para localizar os bebês sequestrados pela ditadura militar (1976-83) havia identificadoo neto número 114. As Avós calculam que o regime sequestrou um total de 500 bebês, filhos das prisioneiras políticas.

“Ele é um bom garoto que trabalha como músico (pianista)”, afirmou De Carlotto sobre seu neto, cujo nome atual é Ignacio Hurban. “Eu digo ‘obrigado à vida’, pois não queria morrer sem abraçá-lo, e muito!”, sustentou De Carlotto, de 83 anos, que buscava Guido desde seus 47 anos. Segundo ela, a presidente Cristina Kirchner lhe telefonou para dar os parabéns pela descoberta de seu neto.

A descoberta só foi possível, segundo explicou, porque o jovem pianista de 36 anos suspeitou sobre suas origens e fez voluntariamente o exame de DNA no Banco de Dados Genéticos, laboratório oficial onde são realizados os testes para cotejar os gens com as amostras ali depositadas pelas famílias dos bebês desaparecidos.

Segundo De Carlotto, as crianças recuperadas pelas famílias biológicas, hoje adultos “são livres, pois recuperaram sua identidade”. A líder das Avós, cuja organização foi candidata várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz, afirmou que espera com seu trabalho evitar tragédias similiares no futuro: “não queremos que esta História se repita com futuras gerações”.

O jogador da seleção argentina, Javier Mascherano, que participou dois meses atrás de uma campanha na TV para recuperar os netos desaparecidos, celebrou ontem a descoberta de Guido. Mas, destacou: “continuemos trabalhando pelos que faltam”.

Na quarta-feira à tarde Estela e Guido finalmente se encontraram. Conversaram durante seis horas e meia sem parar. Ao despedir-se, para voltar à cidade de Olavarría, onde mora, ele disse “Tchau, vó!”. De Carlotto quase desmaiou de emoção.

Quadro do pintor sueco John Bauer (1882-1918) que mostra dois trolls com uma criança humana que eles roubaram e criaram.

SEQUESTRO E PARTO – Laura De Carlotto foi sequestrada pelos militares em novembro de 1977, quando estava grávida de dois meses e meio. Seu namorado e pai da criança foi torturado e assassinado um mês mais tarde, na frente de seus olhos. Diversos sobreviventes da ditadura relataram que Laura – algemada – deu à luz no dia 26 de junho de 1978 na maternidade clandestina do Hospital Militar na cidade de Buenos Aires. Guido foi arrancado de seus braços pelos militares cinco horas após seu nascimento.

Laura, que tinha 23 anos na época, foi assassinada por fuzilamento dois meses após o parto no dia 25 de agosto em uma área rural, perto de uma rodovia. Seu rosto havia sido desfigurado por golpes feitos com a culatra de um fuzil. Seu ventre estava perfurado por um disparo. Anos depois a Justiça da Itália condenou à revelia o ex-general Guillermo Suárez Mason por seu assassinato.

Enquanto isso Guido, com poucas semanas de idade, foi entregue a uma família de agricultores na região de Olavarría, no sul da província de Buenos Aires, onde cresceu. Segundo as informações das Avós, a família que o adotou não sabia sobre sua origem de bebê seqüestrado pelos militares. “Não conhecemos ainda a História completa, mas agiram de boa fé”, explicaram as Avós.

Dentro das Forças Armadas, diversos generais consideravam que a devolução das crianças às famílias biológicas era um potencial perigo, já que quando adultas, poderiam tentar uma vendetta contra os ex–repressores. Um dos generais, Ramón Camps, afirmava que a “subversão” era hereditária, e portanto, as crianças – filhas de opositores do regime – deveriam ser criadas por famílias com “forte moral cristã”.

Quadro de 1631 de Peter Paul Rubens que mostra como o deus Saturno devora um de seus filhos. O Estado argentino, durante a ditadura, apropriou-se de vastos setores da população, sequestrando, torturando e assassinando milhares de pessoas.

500 CRIANÇAS SEQUESTRADAS PELOS MILITARES

As Avós calculam que no total, 500 crianças teriam sido sequestradas ou nascido em cativeiro. Os militares possuíam maternidades nas quais os partos eram realizados de forma clandestina. Posteriormente, elas eram adotadas por famílias de ex–repressores, muitos dos quais haviam torturado os pais das próprias crianças. No entanto, diversas crianças foram adotadas por famílias de civis, que desconheciam sua tenebrosa origem.

As Avós registram 27 casos de crianças que já haviam nascido e foram sequestradas, como o de Horacio Pietragalla, roubado quando tinha quatro meses de idade. Nestes casos as idades variam de uma semana de vida até três anos. Outras oito crianças foram assassinadas pelos militares.

Desde o final dos anos 90 as avós da Praça de Mayo contam com um banco de dados genético para cotejar as amostras de DNA das famílias dos desaparecidos e dos adultos (atualmente na faixa dos 34 aos 38 anos) suspeitos de terem sido sequestrados quando eram recém-nascidos. Estas amostras ficarão guardadas até o ano 2050 para que qualquer pessoa possa checar se existem laços de parentesco.

Em abril do ano passado, durante uma breve reunião em Roma, o papa Francisco afirmou à líder das Avós que a Igreja Católica colaboraria nas investigações sobre o paradeiro dos bebês sequestrados.

Demônio rouba um bebê e deixa um mini-demônio em seu lugar como substituto. Este é um detalhe do quadro “A lenda de São Estevão”, de Martino di Bartolomeo, do começo do século XV. No caso do Estado argentino, protagonista de terrorismo de Estado durante a ditadura, os bebês eram roubados e nada era deixado em seu lugar, exceto a angústia sobre seu paradeiro.

“A VERDADE NÃO MATA, ELA AJUDA”

A ex-líder de organizações dos Direitos Humanos e ex-ministra do governo do ex-presidente Fernando Dela Rúa (1999-2001), Graciela Fernández Meijide, celebrou a descoberta do neto de Estela de Carlotto como “uma vitória da vida sobre a morte que os militares espalharam pelo país”. Meijide – cujo filho Pablo foi sequestrado, torturado e assassinado pelo regime militar em 1976 – sustentou em entrevista ao Estado que “não há pior castigo do que perder a identidade”. Autora do livro “A história íntima dos Direitos Humanos na Argentina”, ela sustenta que “a verdade não mata…ela ajuda”.

Estado – Alguns setores da sociedade são contrários à revelação da identidade das crianças seqüestradas, alegando que isso poderia gerar um trauma….

Meijide – Algumas pessoas, às vezes até bem intencionadas, tinham essa ideia antes. Elas diziam que revelar a real identidade seria provocar sofrimento duas vezes. Mas não é assim. E uma das provas disso está que este jovem (Guido De Carlotto) buscou a verdade por conta própria. A verdade não machuca nem mata. A metira, sim, machuca e mata. A verdade ajuda a entender. E, a partir dali, cada um tem os recursos para encará-la. Neste momento Guido deve estar com sentimentos contraditórios sobre a realidade. É preciso protegê-lo, preservá-lo, da insistência dos meios de comunicação. Já haverá tempo, daqui para a frente, para falar em público. Esta descoberta é um fato feliz que provém de uma desgraça. Não houve pior crime durante a ditadura que o seqüestro e ocultamento destes bebês, que foram proibidos de conhecer sua própria identidade, sua família biológica. Uma perversidade. Não há pior castigo não saber quem a gente é. E os militares encarregaram-se de esconder esta verdade a muitas pessoas. Mas a descoberta dos netos roubados constituem um passinho a mais que a vida dá para vencer a morte.

Estado – A descoberta do neto número 114 tem um simbolismo especial?

Meijide – A descoberta do neto número 100 não é menos especial do que do neto 114 ou 120. Mas, neste caso, é o neto de uma pessoa que simboliza essa procura pela verdade, Estela de Carlotto. E talvez este fator estimule as investigações mais do que nos casos anteriores. Acredito que isso levará muitos jovens que suspeitam de seu passado, mas que ainda duvidam sobre fazer o exame de DN, tomem a decisão. E talvez leve pessoas que possuem informação sobre os seqüestros, que viveram naquela época, mas que tem receio em falar, nos contem dados úteis para desvendar o paredeiro dos bebês seqüestrados. E, quem sabe, algum militar sinta o peso de sua consciência e finalmente confesse estes delitos terríveis. Não sei se este último ponto acontecerá algum dia. Mas é meu desejo.

“O DIREITO À VERDADE NÃO É SÓ DA PESSOA SEQUESTRADA, MAS TAMBÉM DA FAMÍLIA”

César Sebastián Castillo acreditou até 2003 que era filho de um casal de porteiros de um prédio em Buenos Aires e que naquele ano completaria 27 anos de idade. Desconfiado sobre as circunstâncias de seu nascimento, assunto que sua família esquivava, procurou as Avós da Praça de Mayo. Após os exames de DNA descobriu que seu verdadeiro nome era Horacio Pietragalla Corti, que era filho de militantes montoneros e que tinha 28 anos. Ele havia sido sequestrado pelos militares quando tinha cinco meses, em 1976. É o neto número 75 recuperado pelas Avós da Praça de Mayo. Ontem (quinta-feira), em entrevista ao Estado, Pietragalla, atualmente deputado federal, afirmou que “a verdade nunca é negativa”.

Estado – O que acontece quando uma pessoa descobre que não é quem havia imaginado ser durante mais de três décadas?

Pietragalla – Pode ser uma coisa forte, impactante, e até duro de processar. Mas saber nossa história, a verdade, sempre é positivo. É um erro gigantesco ocultar a verdade, que jamais é traumática. A coisa traumática mesmo ocorreu há mais de 30 anos, quando nos separaram de nossas famílias e assassinaram nossos pais. E o direito à verdade não é só da pessoa que fica sabendo que foi um bebê sequestrado…é também um direito dos avós e da família da criança que foi roubada. Pois, antes de uma apropriação da criança houve um sequestro. Saber a verdade não te estraga a vida. A vida já foi estragada por outros…

Estado – Qual é a importância da descoberta de Guido De Carlotto?

Pietragalla – O fato de que o neto de Estela tenha sido descoberto é um fato que transcende as fronteiras da Argentina, já que ela é uma figura de peso mundial nos direitos humanos. A difusão desta notícia aumenta a possibilidade de que jovens se aproximem às Avós para consultar sobre sua identidade.

Estado – Como foi teu sequestro?

Pietragalla: Um dia, enquanto minha mãe estava em uma casa de outras militantes, o exército entrou metralhando tudo. Mataram todos, menos a mim, que fui levado para uma clínica. Meus avós maternos ficam sabendo, e meu avó foi correndo me pegar. Mas quando ele chegou na clínica, um militar já me havia levado. Me perdeu por duas horas. Meu avô paterno foi torturado psicologicamente pelos militares, que lhe telefonavam para dizer que haviam encontrado pedaços do corpo de seu filho. Ele não resistiu e morreu dois anos depois. Minha avó materna se suicidou, jogando-se debaixo de um trem, em 1998.

Gravura de uma caveira feita em 1521 pelo artista Albrecht Dürer

MODUS OPERANDI DO TERROR

A ditadura argentina aplicou uma série de formas de eliminar pessoas que considerava “subversivas”, fosse elas vinculadas a grupos guerrilheiros, civis sem militância política alguma, estudandes secundaristas, universitários, empresários, aposentados, entre outros.

As principais formas eram:

– Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

– Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.

– Fuzilamento.

– Morte por terríveis torturas

O destino dos corpos:

– Enterrados em cemitérios clandestinos. Ou, em cemitérios oficiais, embora em fossas coletivas como indigentes.

– Jogados no Rio da Prata ou no mar

Em 2009, um relatório entregue à ONU pela secretaria dos direitos humanos da Argentina indicou que do total de desaparecidos da Ditadura, 30,2% eram composto de operarios; 21% por estudantes (inclusive colegiais), 28,6% de funcionários públicos e profissionais liberais. Outros 20,2% pertenciam à outras categorias sociais.

MODALIDADES DE TORTURAS

As torturas aplicadas pela ditadura argentina acumulavam diversas modalidades que – ao longo de dois séculos de História – as forças armadas locais (e as forças policiais) haviam desenvolvido e aplicado.

– Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor nacionalista Leopoldo Lugones. A picana era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos nos currais, e assim, direcioná-lo para o abate ou embarque. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

– Submarino molhado: consistia em afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

– Submarino seco: consistia em colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

– O rato no cólon: a colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

– Estupros: Mulheres e homens foram estuprados sistematicamente pelos militares e policiais argentinos. As mulheres, ocasionalmente recebiam a opção de serem estupradas ou de serem eletrocutadas na parte interna da vagina e ânus.

– Esfolamento: Os torturadores amarravam um prisioneiro em uma mesa e começavam a esfolar a pele da sola dos pés com uma gilette ou bisturi

– Empalamento: Alguns homens foram empalados pelas forças de segurança com cabos de vassoura.

Um dos casos mais sinistros de torturas foi o do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril de 1976. Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal, que tinha 14 anos quando foi sequestrado, sofreu torturas nas mãos e genitais. Depois, foi empalado vivo.

No dia 22 de abril de 1976 a polícia uruguaia encontrou em uma praia perto de Montevidéu o cadáver de um jovem violentamente torturado com a marca de uma tatuagem com as letras “FA”. Posteriormente, com a volta da democracia, a mãe de Floreal pode confirmar que tratava-se de seu filho. Ele havia sido arremessado de um dos aviões que realizavam os “vôos da morte” sobre o rio da Prata.

GALERIA DOS PRINCIPAIS TORTURADORES

O “Tigre” Acosta – Um dos criadores dos “voos da morte” foi o capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, uma das “estrelas” da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). O oficial, que falava sozinho à noite, em delírio místico explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões. Famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos, Acosta também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA.

O “Anjo Loiro” Astiz – “É o mais sinistro paradigma do terrorismo de Estado”. Com esta frase, o escritor e jornalista Jorge Camarasa, define a personalidade do ex-capitão Alfredo Astiz apelidado de “O anjo loiro da morte”. Garoto mimado da ditadura, entre seus assassinatos mais famosos estão os das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet, além de três fundadoras das Mães da Praça de Mayo, entre elas, Azucena Villaflor. Astiz foi recompensado por seus serviços com o cargo de comando nas ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 1982. No entanto, essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito. Após um único tiro de bazuca disparado pelos britânicos, Astiz desistiu de resistir “até a morte”, como havia prometido. Com com um copo cheio de whisky em uma das mãos, assinou a rendição incondicional.

Donda Tigel – Alfredo Donda Tigel tornou-se famoso por sequestrar seu próprio irmão e a cunhada – militantes da esquerda. Depois de assassiná-los, ficou com suas filhas, que eram bebês.

Ernesto Weber – Oficial da Polícia Federal, era apelidado de “220” pelos colegas militares pelo prazer que sentia em aplicar essa voltagem nas torturas. Foi professor de torturas dos oficiais de Marinha.

Febres – O ex-Chefe da Guarda Costeira Héctor Febres ficou notório por seu extremo sadismo, que o levou a torturar bebês e crianças para arrancar confissões dos pais, presos políticos. A primeira surpresa ocorreu poucos dias após sua morte, no dia 10 de dezembro – o Dia internacional dos Direitos Humanos, que também coincidiu com a posse da nova presidente, Cristina Fernández de Kirchner – quando a Justiça anunciou que o ex-torturador havia falecido por uma dose cavalar de cianureto. A segunda surpresa surgiu dias depois, quando as autoridades indicaram que a autópsia também registrou a presença de sêmen no reto do ex-torturador. Ele era famoso por seu desenfrado sadismo. Sobreviventes relatam que, quando aplicava choques elétricos nos prisioneiros, ficava “alucinado” e gargalhava enquanto ouvia os gritos dos torturados. Um dos sobreviventes relatou como Febres lhe pediu gentilmente que consertasse o aparelho de choques elétricos, que logo depois utilizaria no próprio prisioneiro. Na ESMA os torturadores costumavam ter apelidos referentes a animais. Esse era o caso do capitão Jorge “Tigre” Acosta e do tenente Alfredo “Corvo” Astiz. Mas, Febres era chamado de “Selva”, já que “era o conjunto de todos os animais”

Enfardador – Luis Porcio, chefe de segurança da Side, conhecido pelo apelido de “Enfardador”, já que apreciava amarrar os prisioneiros com arames, como se fossem fardos, para posteriormente queimá-los. Ele operava no Automotores Orletti, um centro clandestino de detenção e tortura localizado no bairro portenho de Floresta

El Turco Julián – Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam. Esse era o caso Julio Simón, chefe dos interrogadores do centro de detenção “El Olimpo”, cujo nome de guerra era “O Turco Julián”. Ele divertia-se jogando água fervendo em cima de seus prisioneiros políticos. Deleitava-se em torturar os deficientes físicos, jogando-os do alto de uma escada. Além disso, saboreava cada minuto no qual estuprava a esposa de um prisioneiro na sua frente.

Segundo o depoimento da ex-prisioneira (uma das poucas pessoas detidas que sobreviveram nesse centro onde imperava Julián) Susana Caride o lugar era uma espécie de “circo romano” no qual os policiais “se divertiam”. Caride relatou que os prisioneiros eram obrigados a lutar boxe um contra o outro, sob ameaças de torturas. Ela também relembrou como, no dia de Natal, os prisioneiros foram convidados para um banquete, no qual puderam comer peru, maionese e panettone. Mas, à meia-noite, na hora do brinde, Simón interrompeu a festa que ele próprio havia organizado para iniciar uma sessão de violentas torturas com os presentes. Juan Agustín Guillén, outro dos sobreviventes, contou como Simón – que ostentava uma suástica no uniforme, tinha especial sanha com José Poblete, um jovem militante peronista que havia perdido ambas pernas em um acidente. Simón lhe havia retirado a cadeira de rodas e as pernas ortopédicas, e divertia-se – às gargalhadas – jogando-o para cima ou obrigando-o a desfilar na frente dos outros policiais arrastando-se sobre os tocos de seus membros.

O ex-policial foi condenado pelo seqüestro e torturas infligidas ao casal Gertrudis Hlaczik e José Poblete Roa em 1978. Ele também foi considerado culpado do seqüestro de Claudia, o bebê de apenas oito meses do casal, e do ocultamento de sua identidade. Ele fazia Gertrudis andar nua pelos corredores, enquanto que José, sem as pernas, devia se arrastar com as mãos pelo chão. Simón e os outros guardas o chamavam de “cortito” (curtinho), por causa da ausência dos membros inferiores. O torturador também costumava jogar Poblete desde o alto de uma escada. Em um vídeo, o ex-policial admitiu que torturou com choques elétricos, com o objetivo de “acelerar” os interrogatórios. No vídeo, confessa que “o critério geral era o de matar todo mundo”.

Rebaneyra – Outro notório torturador era o carcereiro Raúl Rebaynera, uma dos principais figuras da prisão de La Plata, onde estiveram vários prisioneiros políticos, entre eles, o Adolfo Pérez Esquivel, que em 1980 tornou-se Prêmio Nobel da Paz. Segundo o ex-prisioneiro Julio Modorgoy, cada vez que chovia Rebaynera colocava música clássica, de preferência Beethoven ou Bach – e saía “de caça”, isto é, passava pelas celas espancando os prisioneiros. “Se te dou 15 socos e você não gritar, te levo de novo para a cela. Se gritar, fica aqui na sala de torturas 15 dias”, ameaçava.

A morte, uma constante na ditadura argentina de 1976-83.

OS VOOS DA MORTE – Tal como os funcionários do Terceiro Reich que recorreram aos fornos crematórios para eliminar os prisioneiros dos campos de concentração – como forma rápida de eliminar os vestígios dos corpos dos judeus massacrados – a ditadura argentina optou pelos “voos da morte” como uma de suas modalidades preferidas para “desaparecer” as pessoas sequestradas.

Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos “voos da morte”, revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no rio da Prata e no mar desde os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a Humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas sim, parte de um plano de grande escala de eliminação dos corpos dos desaparecidos.

Além da Armada argentina, a Aeronáutica e o Exército também realizaram “voos da morte”, embora em menor escala, já que estas duas forças preferiam o enterro dos cadáveres em fossas comuns clandestinas.

Na época do surgimento dos primeiros cadáveres nas praias, a ditadura militar uruguaia acreditou que tratavam-se de pessoas afogadas em um naufrágio de um navio asiático. Os militares confundiram no início que eram de etnias orientais, pois os corpos estavam “amarelos”. Mas, posteriormente perceberam que tratavam-se de ocidentais.

Nos anos seguintes os militares em Montevidéu reclamaram aos colegas argentinos em Buenos Aires que o surgimentos de corpos em suas praias estavam causando constrangimentos ao regime, além de pânico nos turistas, que deparavam-se com os cadáveres trazidos pela maré. A partir dali, os pilotos argentinos deixaram de arremessar os prisioneiros na área do rio da Prata começaram a fazer voos até o mar. No entanto, as correntes marítimas continuaram levando os corpos às costas uruguaias.

ESTUPROS – Em 2011 a Justiça argentina começou a investigar os delitos sexuais cometidos por militares e policiais durante a ditadura contra mulheres e homens detidos nos centros clandestinos. Até esse ano, a Justiça havia considerado os delitos sexuais dentro da categoria ampla de “abusos”. Desta forma, com a mudança de enfoque, diversos ex-integrantes da Ditadura puderam ser processados por estupros e violações.

Os casos de delitos sexuais transcorreram nos campos de detenção de “Club Atlético”, “El Olimpo” e “Banco”.

Os envolvidos estupraram – segundo as denúncias – dezenas de mulheres detidas nos centros de tortura. Geralmente elas eram amarradas, nuas, a camas nas celas. Primeiro eram torturadas com choques elétricos nos mamilos e nos órgãos genitais. Posteriormente eram violadas por um ou mais policiais e militares. Ocasionalmente, um dos repressores reclamava exclusividade sobre a mulher estuprada. Os militares e policiais costumavam preferir as estudantes universitárias jovens. Freqüentemente, quando um casal era detido, os seqüestradores violavam a esposa na frente do marido.

Os militares também costumavam introduzir ratos vivos – e famintos – nas vaginas das mulheres.

“Fim de tarde na planície de  Wijtschaete, 1917”, gravura da série “A Guerra”, do pintor alemão Otto Dix. A gravura foi feita em 1924.

FATOS E NÚMEROS:

– Entre 1976 e 1983 os militares assassinaram ao redor de 30 mil civis, entre eles, crianças e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos.

– Os militares afirmam que mataram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa na virada do século, outros colegas seus dizem que não mataram pessoa alguma)

– O Estado argentino, com a volta da Democracia, recebeu pedidos para indenizações da parte de parentes de 10 mil desaparecidos.

– A Ditadura teria sido responsável pelo sequestro de 500 bebês, filhos das desaparecidas. Desde o final dos anos 70 as avós da Praça de Mayo localizaram e recuperaram a identidade de 95 dessas crianças, atualmente adultos.

– Em 1983 nos últimos meses da Ditadura, um relatório das próprias forças armadas argentinas indicou que a guerrilha e grupos terroristas de esquerda e cristãos nacionalistas teriam assassinado 900 pessoas. Diversos historiadores afirmaram ao longo dos anos que esse número está ligeiramente inflacionado, já que diversos dos mortos da lista militar teriam sido assassinados pelos próprios militares, na miríade de brigas internas (e, convenientemente, teriam colocado a culpa nos terroristas).

GUERRA CIVIL OU GUERRILHA LOCALIZADA?

Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país.

Delírio. A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

“Dança da morte 1917 – Colina do Morto” de Otto Dix

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES – Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

– Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares.

– Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

– Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

– Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

– A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

– A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

– A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

– Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

– Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

– Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

– No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

– A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

POLÍTICA EXTERNA ESQUIZOFRÊNICA

Na política externa a Ditadura também mostrou um comportamento peculiar:

– Acreditou que os EUA ficariam de seu lado na Guerra das Malvinas, já que a Ditadura havia sido um bastião anticomunista na América do Sul e até havia colaborado na guerrilha dos ‘contras’ na América Central.

Os militares argentinos não levaram em conta que pesaria mais a velha aliança EUA-Grã Bretanha por motivos históricos e pela participação na OTAN.

– A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.

MILITARES HOJE – Segundo analista político Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, as Forças Armadas atualmente possuem um terço do número de homens com os quais contava há um quarto de século. O Orçamento destinado aos militares encolheu a um quarto daquele que tinham em 1983.

“Se bem a Argentina foi o país da região onde os militares tiveram maior influência política durante o século XX, as Forças Armadas argentinas hoje são os que menos influência possuem”, disse Fraga ao Estado. “São as Forças Armadas que mais encolheram nas últimas décadas. E as únicas que eliminaram o serviço militar obrigatório, exceto o Uruguai, que nunca teve”.

O paranóico e perverso Saturno, ilustrado por Goya, devora outra criança.

E depois de tanta barbárie, vamos com um pouco de civilização: a 3a sinfonia de Ludwig van Beethoven. Na batuta, o argentino Daniel Barenboim:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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