Nas nuvens: Aerolíneas Argentinas perdeu quase US$ 1 bilhão em um ano e meio
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Nas nuvens: Aerolíneas Argentinas perdeu quase US$ 1 bilhão em um ano e meio

arielpalacios

11 de novembro de 2014 | 20h25

A companhia aérea estatal Aerolíneas Argentinas e sua subsidiária Austral exibem perdas milionárias, descontrole administrativo, excesso de pilotos que não voam e um plantel inflado de 11 mil funcionários. Isso é o que indicou um relatório elaborado pela Auditoria Geral da Nação (AGN), que sustenta que entre o primeiro semestre de 2011 e o segundo semestre de 2012 – o período analisado – a estatal teve um déficit de US$ 984 milhões. Segundo a AGN as duas empresas aéreas – meninas dos olhos da presidente Cristina Kirchner, que ordenou suas estatizações em 2008 – tiveram ingressos pelo valor de US$ 2,054 bilhões, custos operacionais de US$ 2,476 bilhões, além de custos de estrutura de US$ 562 milhões.

Além disso, segundo a AGN, o governo Kirchner transferiu à Aerolíneas US$ 20,3 bilhões à empresa desde que esta foi estatizada em junho de 2008 até junho de 2014. A Auditoria também descobriu que o custo das empresas em funcionários é 75% superior à concorrência. A companhia possui 33,4 pilotos por cada avião que possui, enquanto que a média das outras empresas aéreas elaborada pela International Air Transport Association (IATA) é de 13,2 de pilotos por aparelho.

O relatório indica que a Aerolíneas paga pelo combustível que utiliza 24% a mais do que a média das outras companhias.

De quebra, a AGN descobriu que entre 2011 e 2012 a única rota aérea lucrativa para a Aerolíneas Argentinas foi a realizada entre Buenos Aires e Florianópolis, tradicional ponto de turismo dos argentinos há quase quatro décadas. No entanto, essa rota somente propicia lucros no verão.

A Aerolíneas é comandada por Mariano Recalde, integrante de “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista, cujos membros estão sendo colocados em cargos nas mais variadas esferas da administração estatal.

Em 2010 Recalde havia prometido que a partir de 2011 a empresa passaria a ser lucrativa. Segundo Alejandro Nieva, um dos auditores, “em qualquer empresa onde se perde US$ 1 bilhão em um ano e meio os acionistas não perderiam um segundo em remover o gerente”.

A Aerolíneas e sua subsidiária Austral são as responsáveis por 66% dos voos internos e mais de 50% das viagens internacionais da Argentina. Mas, apesar da presença ostensiva, conseguida graças ao governo Kirchner, que complicou as operações de outras companhias no país, a Aerolíneas possui má imagem, já que tem fama de atrasos constantes, cancelamento de voos, além de frequentes greves por parte dos diversos – e rivais – sindicatos existentes dentro da empresa.

Nas nuvens: “Os triunfos”, gravura de 1539 do germânico Georg Pencz sobre os poemas de Petrarca.

HISTÓRIA – Em 1950 o presidente Juan Domingo Perón criou a estatal Aerolíneas Argentinas. Em seu apogeu, nos anos 70 e início dos 80, a empresa possuía o único simulador de voos da região e foi a primeira em contar com um avião jumbo na América Latina. Além disso, foi a primeira companhia aérea com uma linha que passava semanalmente sobre o Pólo Sul para unir Buenos Aires com Sidney. Durante longo tempo foi uma empresa lucrativa e constantemente modernizada por seus técnicos.

Em 1990 o presidente Carlos Menem privatizou a Aerolíneas, que passou às mãos da estatal espanhola Iberia. Mas, a empresa espanhola só pagou 25% do preço da companhia e deu o calote no resto do desembolso. Com graves problemas econômicos, a Iberia repassou a Aerolíneas à empresa privada espanhola Marsans, que a partir de 2001 assumiu a administração da Aerolíneas.

No entanto, nas mãos da Marsans, a crise que assolava a Aerolíneas aprofundou-se. A companhia foi atingida por prolongadas greves de funcionários, equipamento em péssimo estado e problemas financeiros, além da falta de pagamentos aos 9 mil empregados que possuía na época.

Em 2008 foi reestatizada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, que alegava que o país precisava uma companhia “nacional”. Ao contrário de sua primeira lucrativa fase como estatal, nesta etapa a empresa transformou-se em um cabide de empregos e em um “buraco negro” de fundos governamentais.

QUATRO ESTATAIS – Com a reestatização da Aerolíneas e sua subsidiária Austral (dedicada aos vôos domésticos), o Estado argentino se tornará proprietário de quatro empresas aéreas, um caso inédito no continente.

O Estado já administra a Linhas Aéreas do Estado (Lade), uma companhia com uma velha frota (seus aparelhos são principalmente Twin Otters, F27, F28 e Boeings 707) cujos vôos concentram-se no sul do país, especialmente a pequenas cidades. A Lade foi criada em 1940 e está vinculada à Força Aérea.

A Lafsa foi criada em 2003, quando o país estava recuperando-se da crise de 2001-2002. O motivo de sua fundação foi o de absorver os trabalhadores das empresas aéreas Lapa e Dinar, que haviam falido. No entanto, embora contasse com uma estrutura de funcionários (100 aeromoças e 10 pilotos, além de gerentes, empregados administrativos, entre outros) e verbas federais, nunca teve um único avião, nem jamais operou.

Em 2009 o governo anunciou o “iminente” processo de fechamento da Lafsa. A liquidação da empresa levou quatro anos para ser concretizada, já que somente ocorreu no ano passado.

Para embalar esta jornada, vamos com “Blue Skies”, composição de Irving Berlin. Brent Spinner interpreta a canção no deck da Enterprise do capitão Picard:

E na temática aérea, “Come fly with me”. Com Frank Sinatra:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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