Necromania & Política: Há 39 anos “O Bruxo” tentava ressuscitar “O Faraó”
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Necromania & Política: Há 39 anos “O Bruxo” tentava ressuscitar “O Faraó”

arielpalacios

01 de julho de 2013 | 12h54

O casal Perón com seu mordomo, ministro e astrólogo José “El Brujo” López Rega. Perón discursa na sacada da Casa Rosada. A seu lado, sua mulher e vice-presidente Maria Estela “Isabelita” Martínez de Perón. À esquerda da foto, El Brujo (O Bruxo). Perón voltou do exílio e governo de 19873 a 1974. Isabelita, que era a vice, assumiu e governou até 1976, ano em que foi deposta por um golpe militar. López Rega foi o Rasputin argentino na maior parte desse período, um sinistro “halloween” que marcou a História argentina.

 Há exatamente 39 anos, às 10:00 da manhã do dia 1 de julho de 1974, Juan Domingo Perón, presidente da Argentina – e o líder político mais polêmico e influente do século XX em seu país – começou a perder o ar. Sentado em uma poltrona, com dificuldade para respirar, abria a boca, desesperado. Uma enfermeira o abanava com um leque. Perón teve uma série de rápidas convulsões. Murmurou “estou indo, estou indo embora”. E caiu no chão.

O velho general, de 78 anos, com o peso de várias revoluções, três presidências turbulentas, 18 anos de exílio, somado a seu polêmico retorno ao país e a tarefa de governar um país dividido, estava com o organismo alquebrado. Naquele dia estava tendo um ataque cardíaco.

Os médicos entraram no quarto da residência presidencial de Olivos apressadamente, acotovelando-se para tentar impedir sua morte.

O deitaram o no leito, ao lado dos equipamentos médicos e tentaram reanimá-lo. No entanto, já era tarde. O monitor cardíaco indicava que a vida de Perón havia se transformado em uma linha reta.

No canto do quarto, a vice de Perón observava em silêncio. Ela também era sua esposa, a ex-dançarina de cabaré (no Panamá) Maria Estela Martínez de Perón, conhecida como “Isabelita”.

Nesse instante entrou no quarto o “El Brujo” (O Bruxo), como era chamado o esotérico José López Rega, ex-policial, ex-mordomo do casal Perón, astrólogo, ministro de Estado, líder da Triple A (organização para-militar que assassinou mais de quatro centenas de civis) e eminência parda do governo. “O general já morreu uma vez e eu o ressuscitei!”, gritou, empurrando os médicos.

Segurando o corpo o general pelas canelas, o esdrúxulo “El Brujo” fechou os olhos e começou a gritar“Meu faraó, não vá embora!”, enquanto sacudia o cadáver de Perón, diante dos olhares estupefatos das pessoas presentes. “Acorda, meu faraó!”, insistia.

Depois de vários minutos aos gritos, fazendo passes ‘mágicos’, tentando ressuscitar o homem mais poderoso da Argentina, López Rega desistiu. Perón não ressuscitou.

López Rega culpou os médicos que estavam na sala de terem complicado sua concentração.

Duas horas depois, “El Brujo” comunicava aos argentinos que o presidente havia falecido.

Eles usam black-tie. O casal Perón e seu sempre presente “El Brujo”.

Nos três dias seguintes, ao longo dos quais milhões de argentinos ostentaram uma braçadeira negra, o país ficou virtualmente “isolado” do resto do mundo, já que foram proibidas todas as notícias na mídia que não fossem relativas ao defunto líder, seus funerais e repercussões.

A viúva de Perón assumia como presidente. ‘El Brujo’ transformava-se no verdadeiro poder. O país começava um dos períodos mais turbulentos e sombrios de sua História.

As picaretagens de López Rega inspiraram Janete Clair para criar o personagem Herculano Quintanilha, figura central da novela “O Astro”, de 1978. Acima, fotograma que mostra Quintanilha vestido ad hoc para interpretar o “bruxo” da novela das oito.

CURIOSIDADE – Poucos anos depois de sua fuga a figura de López Rega inspirou Janete Clair parcialmente para o personagem Herculano Quintanilha, da novela “O Astro”, que era um picareta que dizia que era astrólogo, e que no último capítulo foge do Brasil e vai para uma república bananeira na América Central. Ali transforma-se no astrólogo de um ditador de cabelo tingido de preto como as asas da graúna (tal como Perón fazia na velhice).

E para embalar esta tarde de conotações egípcias, o “Gloria all’Egitto”, da ópera Aida de Giuseppe Verdi. É a montagem do Metropolitan: 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadãoo Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres.
E, de bonus track, veja o Facebook  da editoria de Internacional do Portal do Estadão,aqui.
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.