O “não-câncer” de Cristina Kirchner
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O “não-câncer” de Cristina Kirchner

arielpalacios

08 de janeiro de 2012 | 16h08

“Milagre divino”, segundo alguns militantes kirchneristas, teria eliminado o câncer que a presidente tinha no pescoço. “Primeiro milagre de São Néstor”, ironizaram colunistas políticos pelo twitter. “Uma alta hospitalar”, dizia o governo, esquivando explicações constrangedoras. “Estou muito feliz”, disse o presidente venezuelano Hugo Chávez, que uma semana antes afirmou que depois do anúncio do câncer de Cristina estava suspeitando que os EUA tinham uma arma para provocar câncer nos presidentes sul-americanos. Da arma yankee não voltou a falar.

   porta-voz presidencial, Alfredo Scoccimarro, anunciou neste sábado pouco após o meio-dia a alta médica de Cristina E.F. de Kirchner. A presidente, de 58 anos, foi levada à mesa de cirurgias na quarta-feira no hospital Austral, na cidade de Pilar, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, para a extração de um carcinoma – um tumor cancerígeno – que os médicos haviam diagnosticado no lóbulo direito da tireoide.

Scoccimarro soltou um pigarro e enfatizou a alta da presidente argentina. Além disso, disse que Cristina estava com a saúde “ótima”.

Na seqüência – e rapidamente – explicou que os médicos não haviam detectado células cancerígenas, ao contrário do que haviam indicado os diagnósticos originais. Portanto, a presidente não terá que ser tratada com iodo radioativo, tal como era inicialmente previsto.

Cristina tinha somente uns nódulos na tireóide. Nunca havia tido – nem tem – o câncer que havia sido anunciado oficialmente pelo governo.

No comunicado oficial, ao sair do Hospital Austral – administrado pela Opus Dei – agradeceu a “Deus” e à “bênção dos argentinos”.

Nas portas do hospital Austral várias centenas de militantes kirchneristas – que realizavam uma vigília pela saúde de Cristina nas portas do hospital desde a segunda-feira, mesmo antes que ela fosse internada – estavam esperando que a presidente saísse de carro para vê-la de perto. No entanto, Cristina partiu do hospital no helicóptero presidencial, que estava pousado nos jardins do hospital, rumo à residência presidencial de Olivos.

Os argentinos, estupefatos com a notícia, começaram a referir-se ao assunto como o “não-câncer de Cristina”.

ÉDICOS E GOVERNO– Os especialistas que haviam diagnosticado o câncer – e todos aqueles que participaram das interconsultas, inclusive ao médico presidencial – não foram alvo de críticas do governo, que costuma ser implacável com qualquer desliz.

Ao contrário, receberam elogios da presidente Cristina que neste sábado, em um comunicado, ao sair do hospital, agradeceu à equipe médica que havia diagnosticado o tumor. Analistas afirmam que esse silêncio talvez deve-se à hipótese de que o governo foi apressado em anunciar – de forma categórica – dias atrás, que a presidente tinha câncer.

A própria Cristina fez questão de referir-se a si própria como uma doente do câncer ao comentar há uma semana e meia a proposta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de criar um “clube para os presidentes que haviam vencido o câncer”, entre eles Fernando Lugo do Paraguai e a presidente Dilma Rousseff, além dele próprio. Nesse dia, Cristina disse que disputaria com Chávez a presidência desse clube.

Depois, Cristina ressaltou que não tem condições de fazer “tudo sozinha ao mesmo tempo” e, indicando que estava fazendo um sacrifício pessoal, disse que estava “colocando a saúde a serviço do país”.

Seu ex-chefe de gabinete, o atual senador Aníbal Fernández, declarou semana passada que o câncer de Cristina era fruto do intenso “estresse” que sofria.

SEM EXPLICAÇÕES – Nestas horas transcorridas desde a alta de Cristina Kirchner, nem os médicos presidenciais, nem o time do Hospital Austral e outros profissionais da área envolvidos no diagnóstico e atendimento da presidente deram qualquer tipo de explicações públicas sobre o assunto.

 NÃO-CÂNCER, NÃO-FILHOS E NÃO-INFLAÇÃO. E A NÃO-ARMA – Vários colunistas políticos acusam o governo de ter usado o suposto câncer para desviar a atenção do público de uma série de escândalos, entre eles – poucas horas antes anúncio do câncer – da compra de um milionário mega-apartamento por parte da presidente Cristina no elitista bairro de Puerto Madero.

Eles também afirmaram que o anúncio do câncer coincidiu com a incômoda revelação dos exames de ADN que mostravam que os herdeiros do Grupo Clarín não eram filhos de desaparecidos da ditadura militar (1976-83). Nos dois anos anteriores o governo Kirchner havia denunciado que os irmãos Noble, adotados pela dona do Clarín, Ernestina Herrera de Noble, haviam sido bebês sequestrados. Além da presidente, seus ministros embarcaram nessa campanha para acusar a dona do jornal e seus executivos. Mas, naquele dia, de manhã (o anúncio do câncer foi à noite) uns poucos jornais publicaram as declarações da líder das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, que havia admitido cabisbaixa e com voz grave que Marcela e Felipe Noble não haviam sido bebês seqüestrados, segundo indicavam todos os exames genéticos. No entanto, o assunto passou em brancas nuvens na agência estatal Télam e em jornais de empresários amigos do governo. Vários jornais governistas não deram a notícia até hoje.

De quebra, a semana e meia do não-câncer da presidente coincidiu com os primeiros passos de um plano gradual de ajuste econômico.

Os colunistas destacavam que existiam motivos de sobra para desconfiança, já que o governo também manipula os índices de inflação e pobreza (estatísticas que até aliados do governo criticam).

Alguns analistas sustentam que existem duas chances para esta tragicomédia de erros: ou a presidente Cristina teve um errado diagnóstico inicial…ou tudo não passou de uma jogada política. Isto é: as duas opções são preocupantes.

No Twitter predominou o silêncio por parte dos aliados e simpatizantes do governo, enquanto que os críticos e independentes dispararam uma saraivada de ironias, indicando que este era o “primeiro milagre” de “São Néstor”, ou seja, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido há quase um ano e meio, cuja imagem foi intensamente mitificada nos últimos tempos.

Outras ironias referiam-se a “São La Cámpora” (em referência à organização que reúne a juventude kirchnerista), a Escrivá Balaguer (fundador da organização Opus Dei, que administra o Hospital Austral). De quebra, alguns jornalistas recordavam quando, nos anos 90, o então presidente Carlos Menem apareceu com a cara inchada. “Foi uma vespa que me picou”, afirmou durante semanas. Depois, ele admitiu a realidade: “fiz um lifting”.

Entre as centenas de militantes kirchneristas que hoje estavam nas portas do hospital Austral, celebrando a alta hospitalar da presidente Cristina, vários falavam em “milagre divino”.

A oposição, com muito tato – mas também um toque de ironia – deu os parabéns à presidente Cristina. O ex-candidato presidencial Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical, filho do falecido ex-presidente Raúl Alfonsín, declarou que está “feliz” e “tranquilo” por saber que “a presidente não padece a doença que supunha que tinha”.

 

ARMA CANCERÍGENA – O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, aliado da presidente argentina, que disse que após o anúncio da doença em Cristina estava suspeitando que os Estados Unidos haviam criado uma arma especial que havia provocado câncer em vários líderes sul-americanos. Mas, neste sábado, depois do anúncio do não-câncer de Cristina Kirchner, Chávez ficou quieto durante várias horas. Depois, declarou, em uma coletiva ao lado do presidente peruano Ollanta Humala: “Estamos muito contentes pela notícia! Bravo, Cristina!”. No entanto, sobre a suposta falha técnica da suposta cancerígena arma yankee não pronunciou palavra alguma.

Um doente, neste caso imaginário. Ou melhor, “Le malade imaginaire”, do pintor francês Honoré Daumier, baseado no livro de Molière, “O doente imaginário”. O quadro é de 1878.

HIPÓTESES DE TODO TIPO

Ao longo deste fim de semana surgiram no âmbito político (aliados e opositores), na mídia e na população as mais diversas hipóteses sobre o que teria acontecido com o suposto câncer que a presidente Cristina, finalmente, não tinha.

1 – ERRO MÉDICO (DOS VÁRIOS MÉDICOS) – Cristina recusou-se a utilizar a unidade de atendimento presidencial do hospital público Argerich, inaugurada por ela própria e seu marido Nestor Kirchner em 2003. Ela optou pelo privado hospital Austral. No diagnóstico do câncer de Cristina participou um batalhão de médicos (que o governo afirmava que era de primeiro nível). Além deles, o médico presidencial. Mas, por algum motivo, falharam no diagnóstico (as chances de erro nesse caso, são de 2,5%). No entanto, apesar do erro, o governo não colocou a culpa nos médicos. O silêncio e a falta de explicações oficiais sobre a doença (ou não-doença) da chefe do Poder Executivo de um país de 40 milhçoes de habitantes desperta a atenção.

2 – NÃO HAVIA CÂNCER E NÃO HÁ CÂNCER – A outra teoria indica que a presidente Cristina Kirchner não tinha câncer e o governo sabia disso. Neste caso, não houve erro médico e tudo não teria passado de uma operação política. Esta teoria afirma que o câncer da presidente foi “inventado” para ter dividendos políticos. A esta teoria acopla-se uma saída à francesa: o governo, dando ênfase à alta, nada explicou sobre o erro médico.

3 – HAVIA CÂNCER…E AINDA HÁ CÂNCER – Esta outra teoria indica que Cristina foi operada de um câncer na tireóide. Mas, teria ocorrido metástase. Neste cenário, o governo preferiu dizer que não havia câncer para esconder um grande câncer real. Perguntei: “mas, e se o governo tivesse dito que era outra doença qualquer, por exemplo, uma úlcera?”. Me responderam: “aí todo mundo teria ficado desconfiado e as pessoas achariam que tinham inventado uma úlcera para cobrir a existência de um câncer”. Bom, no país das conspirações, tudo é possível de ocorrer ou de imaginar.

4 – MILAGRE DIVINO – Para os crentes, esta é a hipótese preferida, já que indicaria que a presidente Cristina realmente tinha câncer. Mas, este desapareceu graças à intervenção do Deus Supremo (ou, de alguma outra entidade da hierarquia divina). Ou, afirmavam algumas militantes no sábado nas portas do hospital Austral, “foi Ele quem a salvou”. “Ele”, neste caso, seria Néstor Kirchner, que morreu na Santa Cruz em outubro de 2010 (Santa Cruz, neste caso, é a província onde ele faleceu).

Nesta fotomontagem feita pela revista Notícias tempos atrás, San Néstor Kirchner aparece acompanhado de outras figuras do apostolado kirchnerista.

  

SEÇÃO “GOLD” DAS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Em setembro de 2009 um médico conseguiu aproximar-se da presidente Cristina Kirchner na Casa Rosada para afirmar que ela estava sendo alvo de um ataque químico para provocar câncer. O médico sustentava que inimigos estavam dedetizando – a propósito – terrenos próximos à residência presidencial. Isto é: com a intenção de assassinar Cristina. Na época, militantes kirchneristas difundiram os alertas do médico. Aqui, o vídeo com o alerta sobre o “magnicídio-cancerígeno” de dois anos e meio atrás, anterior mesmo à arma-cancerígena yankee denunciada pelo presidente Chávez.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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