O charme da plácida Montevidéu
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O charme da plácida Montevidéu

arielpalacios

08 de dezembro de 2010 | 17h48

 

Teatro Solís, um marco na Ciudad Vieja de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

San Felipe y Santiago de Montevideo foi fundada em 1726 pelos espanhóis para proteger suas colônias do Rio da Prata dos portugueses. A meados do século XIX expandiu-se além das muralhas que durante longos anos a defendeu sucessivamente dos invasores lusitanos, dos ingleses, argentinos e brasileiros, além de servir de proteção nas inúmeras guerras civis que este país padeceu antes de transformar-se na pacata “Suíça latino-americana”. A cidade conseguiu crescer dentro de uma escala humana, sem perder a orgulhosa identidade.

Fascinada por ela, a Prêmio Nobel de 1945, a poetisa chilena Gabriela Mistral, resumiu o espírito de Montevidéu: “existe nas Américas um pequeno país – o Uruguai – que todos aceitaríamos por pátria, porque tem um quê de mãe perfeita. Os melhores homens das Américas, quando olham para ali, encontram pelo menos alguma das coisa que amam. A liberdade, o sentido da democracia, a cultura. Se, em algum momento, a América Latina se tornasse uma unidade, talvez fosse Montevidéu, a capital escolhida por todo nós, sem ciúmes ou vacilações”.

Meio século após as definição de Mistral, Montevidéu mantém o mesmo charme e clima cálido. O ambiente acolhedor é sentido principalmente na pequena Ciudad Vieja, a Cidade Velha, onde atualmente misturam-se moradores das mais diversas classes sociais – desde remanescentes da aristocracia uruguaia até trabalhadores do porto – junto com ministérios, os principais bancos do setor financeiro uruguaio e edifícios históricos. A área está sendo intensamente reciclada, o que permitiu-lhe que recuperasse o velho charme, após décadas de estancamento.

Das velhas muralhas, que formavam os limites da Ciudad Vieja, só restam a Porta da Cidadela, no ponto no qual a rua Sarandí encontra a Praça Independencia; além de pequenos bastiões na avenida beira-mar. O maior de todos é o que está na rambla Gran Bretaña, na frente do Hotel NH.

Ali também está a peculiar Catedral da Santíssima Trindade (www.uruguay.anglican.org, tel: 5982 – 915 4626), a única igreja anglicana da capital uruguaia, de estilo neo-clássico (com um interior com elementos vitorianos) onde nos domingos pode-se desfrutar de música religiosa (órgão e coro) de alta qualidade.

A poucos metros da porta da Cidadela está o teatro Solís (www.teatrosolis.org.uy, calle Buenos Aires, sem número; tel 5982 – 915 9770), fundado em 1856 com a Ópera Ernani, de Giusseppe Verdi). O teatro foi reformado durante vários anos e reinaugurado em 2005. O resultado foi impecável, e tornou o Solís novamente em uma escala das grandes companhias operísticas, de balé e orquestras sinfônicas, além de cantores populares latino-americanos e europeus.

Voltando para a rua Sarandí está o museu Torres García (www.torresgarcia.org.uy, calle Sarandí 683, tel: 5982 – 916 2663) que reúne parte da obra do pintor mais celebrado pelos uruguaios, Joquín Torres García (1874-1949), fundador do “universalismo construtivo”. Sua obra mais emblemática é um mapa da América invertida, no qual a América do Sul transforma-se na América do Norte.

Obra de Torres García, de 1932.

Caminhando pela Sarandí, na esquina com a rua Juan c. Gómez, está o Cabildo, concluído no começo do século XIX, que foi a sede do poder colonial espanhol em seus últimos anos de domínio.

Cabildo de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

Na frente está a praça da Constituição, onde realiza-se diariamente uma pequena feira de antigüidade e a Catedral.

La Pasiva, point dos chopps em Montevidéu.

Na outra esquina está “La Pasiva”, um tradicional bar e ponto de encontro, ideal para saborear uma cerveja no fim da tarde e os “frankfurters” (uma espécie de cachorro quente) com a mostarda à moda de La Pasiva (feita com um pouquinho de cerveja).

O miolo da Cidadela possui vários marcos arquitetônicos, entre eles o da praça Zabala, com o palácio Taranco, edifício usado pelo governo uruguaio para recepções oficiais.

Praça Zabala. Os vizinhos, todas as semanas, ensaiam o candombe com seus atabaques nessa praça que possui marcos do art-déco de Montevidéu (Foto de Ariel Palacios)

Nos arredores existem vários edifícios art-déco, estilo arquitetônico que em Montevidéu possui um grande número de exemplares. Entre os edifícios interessantes estão a Câmara de Vereadores, em estilo Tudor, nas esquinas das ruas 25 de Mayo e Juan C. Gómez; o Banco de la República; um antigo edifício de escritórios nas esquinas das ruas Cerrito e Bartolomé Mitre; o imponente Clube Uruguaio, na frente da praça Constituição, entre outros.

 

Arquiterura do centro de Montevidéu possui grande variedade de estilos.

Em uma das beiradas da Ciudad Vieja, na rambla 25 de Agosto, está “el Mercado del Puerto” (o Mercado do Porto), que durante mais de um século foi o mercado que vendia peixes, frutas e verduras. Feito em ferro e vidro (foi fabricado na Inglaterra em 1868), o lugar atualmente concentra restaurantes e bares, especializados em pratos de carne bovina. O ambiente é descontraído. Os cozinheiros e garçons fazem o possível para atrair os clientes a seus respectivos estabelecimentos.

Mercado del Puerto. Um lugar emblemático para um repasto carnívoro: morcillas, bifes, chorizos, entre outros produtos. Tudo o que a vaca propicia ao Homo Sapiens (menos o couro e os ossos) ali aparece em cima de um prato.  E do prato rapidamente desaparece para ir à ‘busarda’ (pança) dos clientes.

A higiene – em vários estabelecimentos – não é das melhores, mas comida é saborosa. Nos sábados o mercado é geralmente embalado por música típica, entre eles o “candombe”, um ritmo de origens afro.

As ruas Juncal e Bartolomé Mitre, que atravessam a Sarandí, transformaram-se no ponto de agito dos jovens montevideanos ao longo da última meia década. Os bares ficam entupidos até as 4:00 da madrugada.

Os dias mais agitados são a quinta (uma espécie de “pré-fim de semana”), sexta-feira e sábado. Os bares também são freqüentados por jovens estrangeiros que estudam no Uruguai ou que estão de férias na capital uruguaia. Apesar da multidão que circula na área, são raros os casos de bebedeira misturada com violência. O jovem uruguaio costuma desfrutar a diversão em paz.

O general Artigas, herói da independência uruguaia, está por todos os lados. Aqui, na frente do Banco Central, em pose plácida. Embaixo, na frente do palácio presidencial, na praça Independencia, em pose heróica, a cavalo. Mas, como bom uruguaio, embora a pose seja heróica, é sóbria. Isto é, ao contrário de outros heróis na região, o cavalo não está empinado e o general citado não ostenta o sabre em riste.

MONTEVIDÉU INSPIRA A NOSTALGIA

“Deteve-se no tempo” é uma expressão usada, de forma geral, com tom depreciativo. No entanto, quando os montevideanos ouvem essa expressão, em referência à capital do país, enchem-se de orgulho. “Sim, não é fantástico?”, exclamam a modo de resposta. A cidade manteve o ar dos anos 40, 50 e 60. Até os cartazes das lojas permanecem inalterados pela passagem dos anos. Os portenhos – que passam por ali a caminho do balneário de Punta del Este – costumam dizer que ir à Montevidéu é como entrar em uma máquina do tempo e retroceder quase meio século. As ruas são calmas, os engarrafamentos são uma raridade, embora seja uma cidade de 1,5 milhão de habitantes (metade dos uruguaios reside ali).

Não é uma cidade adequada para as pessoas que desfrutam a modernidade e o agito. Tampouco é cidade para o show off. Os vaidosos e ostensivos abstenham-se. Os uruguaios – que apreciam cores creme e cinzentas tanto na arquitetura como na vestimenta – costumam abominar a ostentação.

A sobriedade é um orgulho nacional. Por esse motivo, costumam olhar com desprezo as hordas de novos ricos e socialites brasileiras e argentinas que entopem Punta del Este no verão.

Montevidéu é para os calmos, que gostam de caminhar e da vida sem estresse. Os montevideanos, ao contrário dos portenhos, desfrutam o rio da Prata como se essa larga via fluvial fosse o próprio mar. Durante todo o dia, milhares de pessoas fazem footing, correm ou tomam sol nas avenidas beira-mar, chamadas “ramblas”. A própria arquitetura de Montevidéu inclui amplos janelões, tal como uma cidade à beira-mar.

Os bairros que mais desfrutam da condição praieira são o de Pocitos, Buceo e Carrasco. Pocitos, no século XIX era o bairro onde as empregadas lavavam as roupas. No século XX já era conhecido como a “Biarritz uruguaia”. Ainda hoje tem um clima de dolce vita que o torna incomparável. Os cafés sobre a orla fluvial embalam os happy hours.

Palácio Salvo, o irmão do portenho Pasaje Barolo. Para ver detalhes sobre o peculiar parente que está em B.Aires, clique aqui.

Longe do rio, no interior da cidade, todos os domingos, os montevideanos e turistas passeiam pela feira de Tristán Narvaja, onde encontram-se desde alimentos artesanais, quinquilharias, livros, antigüidades e até os atabaques utilizados no “candombe” uruguaio. O carnaval uruguaio, com características próprias, que o diferenciam parcialmente do brasileiro, é geralmente festejado no bairro de Palermo, quase ao lado do edifício da Secretaria do Mercosul, um antigo hotel transformado na sede burocrática do Cone Sul, sobre a rambla República Argentina. Ao lado está o parque Rodó, que entre suas peculiaridades, conta com a única estátua do filósofo chinês Confúcio na América Latina.

Entre os edifícios públicos de interesse para o turista está o Parlamento, no final da avenida Libertador Lavalleja; o antigo palácio presidencial, na praça Independencia, e, para os fanáticos do futebol, o estádio Centenário, cenário da primeira Copa do Mundo (1930). No extremo oeste da cidade, sob o morro de Montevidéu, está a fortaleza da cidade. No trajeto, desde o centro, até o sopé do morro, ao passar pelo bairro de La Teja, o turista se deparará com as instalações da estatal ANCAP, que além de produzir cimento, cuidar da distribuição de combustíveis, elabora o único uísque estatal da América do Sul, o Mac Pay.

Café Brasileiro: ponto de reunião de intelectuais. Eduardo Galeano é habitué.

BARES SURGIRAM JUNTO COM FUNDAÇÃO DE MONTEVIDÉU

No interior do Brasil um ditado popular indicava anos atrás que toda cidade, quando era fundada, logo no início tinha que ter, como condição sine qua non uma igreja, a Casa Pernambucanas e a zona de meretrício. Montevidéu, quando foi fundada, foi sui generis, pois contou imediatamente com uma fortaleza e um bar. O boteco, que não era da esquina, pois a cidade não contava com ruas formais, teve primeiro a denominação formal de “armazém de produtos gerais”.

O primeiro bar já desapareceu. Mas um bar quase contemporâneo dele, também do século XVIII é o “Almacén del Hacha” (Armazém do Machado), está na rua Buenos Aires 202.

O nome do estabelecimento recorda que naquele bar, em 1794 (tempos em que as discussões sobre mulheres ou um jogo de cartas eram argumentadas de forma drástica) um dos clientes, Domingo Gambini, enviou para o além um dos empregados, Bernardo Paniagua, utilizando um afiado machado.

Hoje em dia, o ambiente do bar é muito mais saudável.

Perto dali está o Café Bacacay (www.bacacay.com.uy, tel: 5982 – 916 6074) , na frente do Teatro Solís. O lugar é point de pessoas da área teatral e musical. Jornalistas e escritores também costumam reunir-se ali.

Outro ponto de reunião de intelectuais, especialmente da velha guarda, é o Café Brasilero (Ituzaingó, 1447), fundado em 1877 e redecorado em 1920. É o lugar ideal para estar sentado nas tradicionais cadeiras Thonet, bebericar um café, saborear a torta de ricota com passas, enquanto olha pela vidraça o tempo passar.

Perto dali, na esquina das ruas Misiones e 25 de Mayo está o “Las Misiones”. O bar vale mais a pena pelo lado de fora do que de dentro. Seu revestimento externo é ímpar, similar ao dos pubs da cidade inglesa de Manchester.

Outro bar de impreterível visita é o clássico “Fun Fun”, na rua Ciudadela 1229 (tel 5982 – 915 80 05). É moda há décadas ir nos fins de semana ali para beber grapa com limão. Ou, também provar a emblemática “uvita”, um adocicada bebida de composição misteriosa (sua fórmula é um segredo centenário), mas que os montevideanos bebem há gerações sem perguntar a estrutura do milagre. 

Oro del Rhin, emblemática confeitaria de Montevidéu. Uma das especialidade é a torta-árbol (bolo-árvore). Um festival de wagnerianas calorias.

WAGNERIANAS CALORIAS –  E entre as confeitarias está minha preferida, a “Oro del Rhin” (Ouro do Reno), o mesmo nome da ópera de Richard Wagner, teutônico compositor. Esta agradável confeitaria, cuja clientela é de todas as idades, embora predomine a terceira, está na rua Convención, 1413. Telefone: 902 2832.

Ideal para um chá no fim da tarde. E um chá ao meio-dia. E também o café da manhã…bom, confesso, é ideal para qualquer momento. Um paraíso de sanduíches, doces… um perigo para dilatar o ventre e outras partes adiposas do corpo. Uma verdadeira ópera wagneriana calórica. Ao sair dali vai parecer um integrante da ópera Der Fliegende Holländer (“O holandês voador”). Não o capitão Daland, protagonista desta emblemática obra lírica, mas sim o próprio bojudo navio…

E para encerrar, o cantor uruguaio Rubén Rada, cantando “Muriendo de plena”. Aqui. 

E nada a ver com o Uruguai, “La Folia”, de Arcangelo Corelli (1653-1713), aqui.

E, diria, melhor ainda, esta outra de Corelli, o “Concerto Grosso”. Aqui.

E outra coisa, já que falamos no Holandês Voador, a abertura, aqui.

 E, como hoje – 8 de dezembro – é o aniversário de Lucien Freud (nascido em 1922), um de meus pintores preferidos (e neto de Sigmund Freud), aqui seguem dois quadros deste genial artista germano-britânico.

Primeiro, seu auto-retrato.

 

E aqui, um detalhe da face.

 

E este outro ilustra um assunto frequente na obra de Lucien Freud: os cachorros. Um quadro que retrata uma estupenda modorra canino-humana.

 

MOMENTO SENTIMENTAL –  Nada a ver com Montevidéu, Freud e o rio da Prata, é o momento de parabenizar Londrina, minha cidade, por seu aniversário, hoje, dia 10 de dezembro. A cidade, desde sua fundação sempre aberta a pessoas de todo o Brasil e de todo o planeta, completa 76 anos.

O hino da cidade, uma apologia ao recebimento dos imigrantes, aqui.

Bom fim de semana a todos!

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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