O cineasta da “esquerda real” que deseja ser presidente: Fernando ‘Pino’ Solanas (perfis dos presidenciáveis da oposição argentina, parte 5)
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O cineasta da “esquerda real” que deseja ser presidente: Fernando ‘Pino’ Solanas (perfis dos presidenciáveis da oposição argentina, parte 5)

arielpalacios

16 de janeiro de 2011 | 12h42

 

O diretor de cinema e deputado federal Fernando “Pino” Solanas apresentou em dezembro sua candidatura presidencial para as eleições de outubro de 2011. O lançamento foi realizado no estádio de Ferrocarril Oeste, palco tradicional para lançamentos políticos de todo o leque partidário. Solanas, que define-se como o “real” representante da esquerda argentina, acusa a presidente Cristina Kirchner de ser uma “falsa” esquerdista e de ser aliada dos capitais estrangeiros, entre os quais companhias telefônicas e de minérios.

Aos 75 anos (que completará no dia 16 de fevereiro) o parlamentar e diretor de filmes cult como “Tangos, o exílio de Gardel” é o líder do Projeto Sul, partido que reúne representantes da esquerda, de setores do sindicalismo e de organizações de defesa dos Direitos Humanos.

Solanas, casado com a atriz brasileira Ângela Correa, conseguiu 25% dos votos na cidade de Buenos Aires nas eleições parlamentares do ano passado.

O líder do Projeto Sul propôs “desterrar a pobreza” e “instalar a ética pública no Estado argentino”.

O candidato da esquerda pretende ser uma das alternativas da oposição argentina contra o governo da presidente Cristina.

Esta é a terceira vez que Solanas apresenta-se candidato à presidência da Argentina (as anteriores foram em 1995 e 2007). Mas, a hipótese de uma nova derrota nas urnas não intimida o diretor e político: “se não der em 2011, tentarei em 2015…”.

Menem, na época em que era presidente e Kirchner o governador de Santa Cruz.

MENEM, O ESTOPIM – Desde os anos 60 foi um ativo militante do cinema engajado. Em 1968 fez o filme “La hora de los hornos” (A hora dos fornos), uma trilogia em forma de documentário sobre os problemas sociais argentinos. Em 1971 fez uma histórica entrevista com o general Juan Domingo Perón, que estava no exílio em Madri. Em 1975, depois de ser ameaçado pela organização “Tríplice A” e de sofrer uma tentativa de sequestro por parte de um comanda da Marinha, decide exilar-se na França.

Com a queda da ditadura, em 1983, volta ao país. Em 1985 filma “Tangos, o exílio de Gardel”, premiado no festival de Veneza. Em 1988 realiza “Sur” (Sul), que recebe prêmios em Cannes.

Sua entrada na política partidária ocorreu há duas décadas. “Em 1991 tive um confronto com o presidente Carlos Menem (Solanas, em uma entrevista, afirmou que Menem comandava “uma quadrilha de delinquentes que está saqueando o patrimônio público”) que me processou diversas vezes. Reiterei minhas denúncias e por isso sofri um atentado à bala. Nessa época a oposição estava muito desunida. Várias organizações e pessoas comuns pediram que eu fosse candidato a deputado. Assim foi, mas não porque queria ser deputado. Fundei a “Frente Sul” e tive 8% dos votos em Buenos Aires. Como não estava na carreira política tradicional, e sim para criar uma oposição, renunciei à vaga e passei a trabalhar no interior do país fundando a Frente Grande (em 1993). Impulsei o nascimento de uma grande força de oposição ao modelo neoliberal. Mas depois tivemos uma luta interna dentro da próprio Frente”.

Foi eleito deputado em 1994. Mas, pouco antes das eleições presidenciais de 1995, entra em choque com as alianças que os outros líderes da Frente Grande estavam realizando com setores de centro.

Os setores da esquerda partem da organização. Dois anos depois, em 1997, seu mandato de deputado conclui. Na ocasião, Solanas decide dedicar-se novamente ao cinema engajado.

Na época, em 1996, entrevistei Solanas. Decepcionado com a vida partidária clássica, disse:  “não me retirarei da política. Tenho mais de 40 anos dedicados a um compromisso político com os grandes temas do país. Seria um erro reduzir isso à atuação na política eleitoral formal. Estaríamos desvalorizando o compromisso político que têm dirigentes sociais, sindicais, culturais que trabalham todos os dias comprometidos com suas comunidades. A esses compromissos não renuncio, são toda minha vida. Cheguei à política sem fazer carreira política tradicional. Não abandonarei a política, mas volto à política que fiz toda minha vida, através do cinema. Não perderei tempo em disputas eleitorais inúteis”. 

Em 1998 conclui seu filme “A Nuvem”, premiada em Veneza.

Mas, a crise de 2001-2002 – a maior da História argentina – o empurrou de volta para a política. Enquanto concluía seu filme “Memórias do saque” (sobre a crise econômica e os fatores que a causaram) Solanas reorganizou seus militantes em um núcleo menor e procurou a aliança de setores do sindicalismo de esquerda, não-vinculado com o peronismo tradicional. E assim, fundou o “Projeto Sul”.

Solanas defende a estatização da produção de petróleo e gás, além das jazidas minerais do país.

Nos últimos três anos oscilou entre respaldar algumas medidas do governo Kirchner, como a Lei de Mídia, a estatização do sistema previdenciário e da Aerolíneas Argentinas, e criticá-lo em outras, como a reabertura da reestruturação da dívida com os credores privados que estava em estado de calote, na intervenção do Banco Central e na suspensão da licença da Fibertel, a empresa de internet do Grupo Clarín e a forma como o governo aplicou substanciais impostos sobre as exportações agrícolas, incluindo pequenos e médios produtores, salvando das cargas tributárias os bancos, as empresas de minérios (entre outras que possuem boa sintonia com a presidente Cristina). “A política de Kirchner é de super-direita”, dispara Solanas.

Solanas no comício em que lançou sua candidatura presidencial de 2011

 Fragmento do filme “Tangos…”. A cena na qual os exilados discutem sobre a obra que apresentarão, interrompida inesperadamente pela chegada do ‘fantasma’ de Carlos Gardel. Aqui.

Cartaz do filme “Tangos, o exílio de Gardel”

Em 1995 entrevistei Solanas sobre o cinema e a política. A seguir, um breve trecho da longa conversa:

“A IDEIA DE SER COMPRADO POR HOLLYWOOD É PATÉTICA” (1995)

O cinema argentino nos últimos dez anos possui a  presença constante de Fernando ‘Pino’ Solanas. Ultimamente este cineasta é um ativo participante da política: em maio (de 1995) foi candidato à presidência de seu país. Mas não chegou aos 2% dos votos. Casado com a brasileira Ângela Correa (“Ela é meu amor, minha secretária, minha companheira. Não nos separamos nunca”), Solanas é um autodidata que estudou teatro e composição musical. Seu primeiro curta-metragem foi em 1962. Seis anos depois já realizava seu primeiro longa: “La Hora de los Hornos”. Dali para cá dirigiu mais seis, entre eles “A Viagem”, “Sur”, e “Tangos, o Exílio de Gardel”. Exilou-se na Europa enquanto durou a ditadura militar, a maior parte do tempo, na França, onde exerceu a docência cinematográfica. “Tangos” ganhou o Festival de Veneza. Em Cannes foi a vez de “Sur” receber prêmios, que também ganhou o prêmio da crítica no Festival do Rio de Janeiro.

Atualmente participa na política argentina no papel de deputado federal. Eleito pelo “Frente Grande”, coalizão de partidos de esquerda com dissidentes peronistas e radicais, mais tarde decidiu fundar seu próprio partido. O nome que escolheu não poderia ser outro: “Sur”.

Estado – Quais são os seus projetos? Como a atividade política interfere na atividade cinematográfica?

Solanas – Apesar de minhas atividades públicas, políticas, integro quatro comissões do Congresso Nacional, não abandonei minhas oficinas de cinema. E não deixo de escrever. Sempre se tende a polarizar as coisas, como se fossem excludentes. Fiz cinema, fiz política. e continuarei em ambas. sempre lutando pela pluralidade da cultura e da identidade. Meu projeto cinematográfico, onde ponho o melhor de mim está sofrendo de falta de tempo. Antes tinha tempo e não tinha produtores. Agora me falta tempo e tenho produtores por todo o lado me procurando…Meu filme “A Viagem” foi feita com onze produtores.

Estado – Muitos diretores da América Latina sucumbiram à tentação de filmar nos EUA. Ouvirá esse canto de sereia?

Solanas – Não. A ideia de ser comprado por Hollywood me parece uma coisa patética. Nunca quis trabalhar para outra concepção cultural que não seja a minha. Sou o autor de meus próprios roteiros, e portanto tenho me nutrido de meu caldo cultural, que não é melhor nem pior que outros. É como a minha mãe ou a sua.

Estado- Mas recebeu convites?

Solanas – Em 1990 me propuseram fazer um filme em Hollywood. Era o produtor italiano Grimaldi com a Warner. “O Amor no Tempo do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez. Disse-lhes que era perda de tempo, que não me interessava em absoluto. Tinha lido a novela e poderia filmá-la com muito prazer, mas como tenho pouco tempo e muitas ideias, o pouco tempo que tive o aproveitei para filmar meus roteiros. Nunca quis ser dependente de outros, e quando quis rodar com produções alheias e não a própria, foram ocasiões muito frustrantes. Não tenho tempo a perder. Como quase todos os diretores autores do mundo terminam sendo produtores, sou o produtor de meus filmes. Não perco tempo e faço o que quero. É como escrever um livro. Um escritor não escreve o livro como o editor deseja. No cinema se está amarrado ao produtor. Não digo que não haja bons produtores. Sempre que produzi com outros eu era o sócio majoritário. Quando me ofereceram rodar a obra de Garcia Márquez disse que já sabia como isso terminaria: filmada em inglês, com duas ou três estrelas norte-americanas importantes para  chamar o público. Disse-lhe que montaria este filme com atores colombianos e latino-americanos. Outro ponto: o filme custaria uns U$ 30 milhões. Tampouco estava de acordo, pois quanto mais custa um filme, o diretor menos manda no filme, e mais mandam as companhias de seguro, e o produtor quer direito ao corte. O filme não me pertenceria. Seria um assalariado deles. Ganho bem a vida com os filmes que gosto de fazer. Tenho vários projetos. Se a situação política ficasse um pouco mais tranqüila poderia tomar uns 60 dias de férias e filmar. Um dos projetos é sobre o teatro. Um grande canto à criação.

Estado – O sr. tem um grande cuidado com a imagem, uma área em que muitos diretores da América-Latina ou do Terceiro Mundo preocuparam-se pouco nos anos 70 e 80.

Solanas – No meus filmes a imagem tem um peso enorme. Como também faço o roteiro, faço um todo. Todo artista tem um desafio ao qual não pode renunciar: a invenção de formas e linguagens. Um escritor tem o desafio de criar seus personagens e defini-los com palavras. O pintor expressa a imagem artística com cores e linhas. O diretor de cinema de ficção com as cenas. O diretor de cinema é uma mistura de um diretor de teatro com a de um artista plástico em movimento.

Estado – O público cansou do cinema engajado?

Solanas – Pelo contrário. O que o público quer ver é um filme que o segure. Que vá ao fundo e reflita bem a realidade. Quanto mais comprometida com a vida, com a problemática, o público a festeja. Mas a primeira coisa que se pede é que seja um bom filme.

Estado – “Tangos, O Exílio de Gardel” era um filme engajado, misturado com musical. É uma boa receita para o público despolitizado de hoje?

Solanas – Toda minha vida procurei fazer um filme ‘total’, que recuperasse a linguagem de outras artes. O cinema é uma arte temporal, e portanto muito ligado à mãe das artes temporais, que é a música. Fui músico. Em “Tangos” tenho três canções. Fiz letras para músicas de Piazzolla, como “Volto ao Sul”, recentemente gravada por Caetano Veloso no seu disco “Fina Estampa”.

Estado – O cinema argentino tem um humor muito sarcástico…

Solanas – Somos muito marcados pela influência italiana…Para dizer que uma mulher é muito bonita dizemos “que  mulher horrível, que bomba!” ou dizer que um dia ensolarado é um “dia de merda”. Inverter as coisas, misturar o humor negro. E o grotesco. O menemismo é “grotético”, mistura de grotesco e patético. Isso alimentou “A Viagem”, onde os habitantes de Buenos Aires vivem imersos em águas cloacais…a corrupção.

Estado – “Mortos ilustres” apareceram em seus filmes. Em “Tangos…” aparecem Gardel e San Martin…

Solanas – Os mortos são os vivos, que continuam vivendo conosco. O conceito da morte é muito restritivo. O homem sempre lutou pela imortalidade. Mas envolver-se com grande mitos é sempre um risco.

Estado – Existe uma moda em filmar a vida de personagens históricos como Evita e o “Che” Guevara. O sr. faria algo nesse gênero?

Solanas – É lamentável que Evita esteja na moda porque Alan Parker deu início ao fenômeno. Antes do filme dele não existia nenhum projeto sobre ela. Nunca tive projetos em relação ao “Che”. Em uma época pensei em filmar uma “Evita”, mas me pareceu um projeto inalcançável, muito complexo.

Estado – Seu casamento com Ângela Correa transmitiu cultura brasileira à sua obra?

Solanas – Sim! Com certeza há influências, porque o Brasil me fascina como país e adoro sua cultura. Por isso casei com uma brasileira e tenho tantos amigos brasileiros. Era muito amigo de Darcy Ribeiro, adoro a arquitetura do país, seu cinema, sua música. O Brasil exerce forte sedução sobre mim. Parte de meu filme “A Viagem” foi filmado no Brasil. Não descarto a possibilidade de trabalhar ali.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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