O colchão: peça sine qua non do mobiliário para resguardar as economias argentinas
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O colchão: peça sine qua non do mobiliário para resguardar as economias argentinas

arielpalacios

19 de agosto de 2010 | 11h06

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Argentinos possuem US$ 148 bilhões nos colchões e fora do país. Dinheiro fora do sistema financeiro e investimentos empresariais diretos no exterior equivalem a 60% do PIB. No colchão acima, São Martim de Tours (316-397) dormindo profundamente (embaixo do colchão, umas misteriosas grandes caixas). A obra, que está na capela de São Martim,na igreja de São Francisco, em Assis, Itália, é “O sonho de São Martim”, pintada entre 1312 e 1317 por Simone Martini (1284-1344), um dos grandes pintores do ‘trecento’ italiano (e o mais famoso no domínio da cor). É impressionante o detalhe das dobras da colcha (quem quiser ver mais minúcias da ilustração, clique para ver uma versão ampliada, aqui). São Martim de Tours, coincidentemente, é o patrono da cidade de Buenos Aires (e como ele se transformou no patrono portenho,bom… essa é uma história divertida que vale a pena contar em outra postagem, mais especificamente, no dia 11 de novembro, que é o dia deste santo).

blog1dedo2bOs colchões – este magnífico invento do Neolítico que foi brilhantemente aperfeiçoado pelos árabes antes das cruzadas – são o símbolo do dinheiro em lugar seguro. Eles foram um dos diversos esconderijos que os argentinos utilizaram ao longo das últimas décadas para resguardar suas economias. Desconfiados dos governos de plantão (que volta e meia realizavam confiscos) e dos bancos instalados no país (que volta e meia fechavam suas portas, deixando os correntistas na mão), os argentinos acumularam grande parte do dinheiro não somente nos colchões, mas também em caixas de segurança, latas de conservas, o interior de livros (entre várias outras modalidades de esconderijos caseiros), além de instituições financeiras no exterior.

A Argentina conta com 67 bancos em todo o território nacional. Deste total, 12 bancos são públicos, enquanto que os outros 55 são particulares. O sistema financeiro argentino possui com 4.065 filiais bancárias, com apenas 10.700 caixas eletrônicos.

Segundo estimativas da city financeira portenha, o grau de bancarização dos argentinos é um dos mais baixos do ocidente. O volume de créditos representa somente 14,7% do PIB (enquanto que a média da América Latina é de 33%). A desconfiança no sistema financeiro é evidenciada por este dado: 53% das famílias do país não operam com banco algum.

blog1dedo2x Dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) indicam que em 2009 o total acumulado pelos argentinos fora do sistema bancário nacional alcançou US$ 148 bilhões, volume que constituiu um recorde histórico.

O volume de dinheiro acumulado fora do sistema pelos argentinos equivale a quase três vezes o volume que compõe as reservas do Banco Central do país, de US$ 50 bilhões.

O ex-secretário de Fazenda, Mario Brodersohn, sustenta que o elevado índice de risco do país da Argentina, atualmente em 683 pontos básicos, significativamente superior ao do Brasil (197 pontos) e do México (131), pode ser explicado em grande parte pela fuga de capitais que caracteriza a Argentina.

Além do dinheiro nos colchões ou nos bancos no exterior que os cidadãos argentinos possuem, as empresas deste país contam com um total de US$ 29,44 bilhões em investimentos diretos privados no exterior.

Desta forma, o total dos investimentos de empresas no exterior e o dinheiro que os argentinos possuem fora do sistema alcança a faixa de US$ 177 bilhões. Isso equivale a 60% do PIB argentino.

Embora o ato de colocar o dinheiro fora do país e nos colchões seja um clássico há tempos, essa tendência acentuou-se desde a crise de 2001, ano em que o país afundou no caos social, na disparada da pobreza e no descalabro financeiro. Na época, os argentinos tinham um total de US$ 81,87 bilhões fora do sistema, pouco mais da metade que possuem atualmente.

Diversos economistas sustentam que a crise só não foi mais dantesca graças ao dinheiro que os argentinos tinham fora do alcance do governo nos esconderijos caseiros e no exterior. O dinheiro de vastos setores da classe média, resguardados em bancos uruguaios, retornou gradualmente ao país, permitindo a injeção de cash na colapsada economia argentina da época.

blogpoderosochefao

Don Vito Corleone, isto é, Marlon Brando, protagonista de “O Poderoso Chefão”. “To go to the mattresses” era a modalidade preferida de Don Corleone e seu filho Sonny.

blog1dedo4baixo

ROMANOS, ÁRABES E O MARIO PUZO – Em diversas partes do planeta também usa-se a figura do colchão como uma quantia de dinheiro que serve de resguardo para imprevistos ou como base para um investimento.

A palavra em português e em espanhol vem do latim “culcita”, que significa colcha ou lugar para deitar. Dali vem o verbo francês “coucher” (deitar ou ter sexo).

Em outros idiomas, como o inglês (mattress), o francês (matelas), o alemão (matratze), o italiano (materasso) e o russo (??????) a origem da palavra provém do árabe má?ra? (???? ), que significa lugar onde se joga alguma coisa (que deriva do verbo ??? (pronuncia-se ?ara?a, isto é, “jogar”).

No romance “O Poderoso Chefão” (The Godfather, de 1969) o escritor Mario Puzo cita a expressão mafiosa “to go to the mattresses” (ir aos colchões), como equivalente a ir para a guerra, usar táticas rudes, agira sem limites.

– I want Sollozzo. If not, it’s all-out war. We’ll go to the mattresses.

(Quero o Sollozzo. Se não for assim, será guerra total. Nós iremos aos colchões)

blogisabelita-longa

Isabelita Perón, ex-dançarina de cabaré no Panamá transformada em vice-presidente e posteriormente em presidente da Argentina, levou o país ao primeiro grande descalabro econômico de sua História. O primeiro de uma série de descalabros. Isabelita atualmente reside confortavelmente nas redondezas de Madri.

blog1vinheta55b COLCHÕES REQUISITADOS! “EL RODRIGAZO”, O DÉBUT DOS AJUSTES E DESCALABROS ECONÔMICOS –  Há 35 anos, no dia 4 de junho de 1975, o então ministro da Economia, Celestino Rodrigo, anunciou um pacote de medidas que causou o primeiro grande colapso econômico e financeiro que o país sofria desde a crise mundial de 1929. O pacote – “El Rodrigazo” – implicou em uma desvalorização de 160% da moeda, aumentos de 100% das tarifas de serviços públicos, entre outras controvertidas medidas.

Em seis meses, a inflação escalou 183%, enquanto protestos sociais, sindicais e políticos alastravam-se. A presidente Isabelita Perón perdeu respaldo e foi derrubada por um golpe militar oito meses depois.

Coincidentemente, de 1975 para cá o país teve uma grave crise econômica a cada sete anos. Em 1982, a Guerra das Malvinas gerou um descalabro financeiro que levou à uma nova crise que afundou o país em uma inflação de mais de 300%.

A seguinte grande crise ocorreu em 1989, com a hiper-inflação do final do governo do presidente Raúl Alfonsín, que passou de 5.000%. A pobreza disparou, junto com saques em massa a comércios.

Quase sete anos mais tarde, em 1995, o país foi duramente afetado pela crise mexicana, enquanto tentava de todas formas manter a conversbilidade econômica. Esta acabou com a seguinte crise, a de 2001-2002, quando o governo do presidente Fernando De la Rúa caiu no meio do caos social e financeiro. A pobreza, que estava na faixa dos 28%, disparou a 57%. O desemprego, de 17%, subiu para 28%. O PIB em 2002 despencou 11%.

O país entrou novamente em problemas em 2008, meses antes da crise mundial. O estopim, desta vez, foi o confronto do governo com o setor ruralista, o crescimento do gasto público, a escalada inflacionária e a retomada do crescimento da pobreza, que passou de 20% em 2006 para 30% (segundo a Central dos Trabalhadores Argentinos e diversas consultorias econômmicas) ou 40% (segundo a Igreja Católica).

blogcolcaoHenri_de_Toulouse-Lautrec

Em meio às turbulências das políticas econômicas dos governos de plantão nem sempre é possível dormir placidamente como neste quadro do batutésimo Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). É o “Dans le lit” (Na cama), de 1893. Exposto no Musée D’Orsay, Paris.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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