O criador do ‘deme dos’ iria ao banco dos réus por sequestro de empresários
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O criador do ‘deme dos’ iria ao banco dos réus por sequestro de empresários

arielpalacios

28 de abril de 2010 | 23h00

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José ‘Joe’ Alfredo Martínez de Hoz, o ex-ministro da Economia que gerou o fenômeno do ‘deme dos’

 blog1hand-prawo2A Corte Suprema de Justiça anunciou na terça-feira a inconstitucionalidade do indulto concedido em 1990 pelo então presidente Carlos Menem ao ‘mentor’ da política econômica da ditadura (1976-83), o empresário e economista José Alfredo  Martínez de Hoz, popularmente chamado de “Joe”. O indulto de Menem salvou Martínez de Hoz – o mais famoso civil que integrou o regime militar – do processo no qual era acusado do sequestro, detenção ilegal, extorsão e torturas dos empresários Federico e Miguel Gutheim em 1976. A Corte Suprema considerou que crimes contra a Humanidade não podem ser indultados ou anistiados.

Com a declaração de inconstitucionalidade do indulto anunciado pela Corte Suprema, Martínez de Hoz, de 84 anos, voltaria ao banco dos réus. Nesta quinta-feira à tarde o juiz Norberto Oyarbide determinou que Martínez de Hoz não poderá sair do país. A expectativa é que a ordem de prisão seria iminente.

A  presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner, em diversas ocasiões ao longo dos últimos anos indicaram que esperam com ansiedade o julgamento do ex-ministro da Economia, o qual consideram responsável da disparada do crescimento da dívida externa argentina e do início da decadência industrial do país nos anos 70.

Os Gutheim eram os donos do cotonifício Sadeco SA, aos quais a Ditadura obrigou a fechar um acordo comercial com Hong Kong, no qual Martínez de Hoz tinha especial interesse.

Os Gutheim, que recusavam-se a fazer o negócio no formato desejado pela ditadura (pois prejudicava a empresa), foram retirados das celas em quatro ocasiões para renegociar o contrato com os representantes de Hong Kong de forma favorável às intenções de Martínez de Hoz.

Nas quatro ocasiões foram novamente levados para as celas. Estas idas e vindas foram acompanhadas por um representante da Secretaria de Comércio Exterior e um tabelião.

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Martínez de Hoz e o general e ditador Jorge Rafael Videla (este, atualmente na prisão pela acusação de sequestro de bebês durante a Ditadura)

Na época da detenção dos irmãos Gutheim a ditadura alegou que a prisão dos empresários havia sido realizada “em nome do interesse de assegurar a calma e a ordem pública”. Durante o regime militar ocorreram casos de empresários que foram detidos e torturados para que integrantes do governo confiscassem seus bens e empresas.

O ministro também é suspeito do sequestro e desaparecimento de diretores do Banco de Hurlingham, do Grupo Gravier, além de funcionários do ministério da Economia que tinham acesso a informações confidenciais sobre as negociatas e que discordavam do modus operandi de Martínez de Hoz.

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Martínez de Hoz foi a delícia dos cartunistas argentinos graças a suas amplas orelhas de abano

‘ME DÊ DOIS’

blog1hand-prawo2Martínez de Hoz foi ministro entre 1976 e 1981. Durante sua administração a política econômica foi caótica. O ministro abriu e fechou a economia várias vezes e criou uma ciranda financeira que elevou o valor do peso, que se chamou na Argentina de “la plata dulce” (o dinheiro doce), irônica forma como os argentinos chamaram a ciranda financeira).

Durante parte de sua administração, com uma cotação de US$ 1,00 a 0,63 centavos de peso argentino, os habitantes do país viveram durante vários anos um período de falsa prosperidade econômica, ao longo da qual puderam viajar ao exterior e consumir em grande escala. Nessa época ficou famosa a frase “deme dos” (me dê dois), pronunciada pelos argentinos ao comprar produtos fora do país.

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Cartaz do filme “Plata Dulce”, uma tragicomédia sobre a ciranda financeira criada por Martínez de Hoz

O NEOLIBERAL QUE ESTATIZAVA

blog1vinhetasmarca1 Ao mesmo tempo que aplicou receitas neo-liberais, solidificou a estrutura burocrática das estatais argentinas, usando-as como cabide de empregos para os militares.

Martínez de Hoz, embora fosse formalmente um seguidor enfático da neoliberal Escola de Chicago, paradoxalmente ordenou a estatização da Companhia Italo-Argentina de Eletricidade (CIAE), de capitais suíços.

As peculiaridades desta operação foram várias: por um lado, Martínez de Hoz havia sido diretor dessa empresa privada até o 24 de março de 1976, o dia do golpe de Estado.

Por outro, embora o valor da companhia fosse calculado pelo mercado no máximo em US$ 60 milhões, o Martínez de Hoz fez que o Estado argentino pagasse à diretoria da Ítalo-Argentina na Suíça um total de US$ 394 milhões em troca da estatização.

No meio das negociações de compra por parte da ditadura, um alto funcionário do ministério da Economia, Juan Carlos Casariego de Bel, diretor do Registro de Investimentos Estrangeiros, fez intensas objeções à iminente aquisição da deficitária Ítalo-Argentina e  – segudo seus parentes – negou-se a eliminar evidências da negociata em andamento. Casariego de Bel foi sequestrado pelos militares no dia 15 de junho de 1977. Foi assassinado Seu corpo ainda hoje permanece em paradeiro desconhecido.

Nos anos 80, após o fim da ditadura, um relatório de técnicos da Segba (a estatal de eletricidade) determinou que grande parte das turbinas e dos cabos da Italo-Argentina eram obsoletos. Perante este quadro de equipamento sucateado comprado por Martínez de Hoz, o país teve que recorrer a créditos do BID e Banco Mundial para comprar novo material para substituição.

De quebra, durante a administração de Martínez de Hoz, o déficit fiscal disparou e a dívida externa registrou o maior aumento da História, passando de US$ 7,8 bilhões para US$ 45 bilhões. Além disso, o PIB despencou e a inflação entrou em acelerada escalada.

E, já que estamos perto do período de Copa do Mundo, vale a pena recordar que a Copa do Mundo de 1978, realizada na administração de Martínez de Hoz, tinha um orçamento original de US$ 70 milhões. No entanto, misteriosamente, o custo final foi de US$ 700 milhões.

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Logotipo do evento esportivo no qual a ditadura gastou 10 vezes mais do que aquilo inicialmente planejado.

ESCRAVOS

blogvinhetas19 Martínez de Hoz nasceu anos no seio de uma família de latifundiários, membros do Jockey Club e da Sociedade Rural. Entre seus antepassados estavam alguns dos mais famosos contrabandistas do Rio da Prata e os principais importadores de escravos do Vice-Reinado.

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Martínez de Hoz com o general Albano Harguindeguy, durante uma pausa em uma parada militar (foto do falecido e genial fotógrafo Guillermo Loiacono)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/

Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 

Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/

Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/

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