O despertar da criada: um nu cujo pecado era não ser mitológico (e de bonus track, um nu kirchnerista)
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O despertar da criada: um nu cujo pecado era não ser mitológico (e de bonus track, um nu kirchnerista)

arielpalacios

12 de março de 2012 | 15h20

 

“O despertar da criada”, obra que gerou grande ziquezira em terras portenhas

“O despertar da criada”, ou, como foi conhecido por seu nome em francês, “Le lever de la bonne”, quadro de 1887, foi pintado pelo argentino Eduardo Sívori (1847-1918). A obra foi enviada o Salão de Paris daquele ano. Ali, na França da Belle Époque, onde a sensualidade começava a aflorar, deixando de lado os tempos vitorianos que imperavam na Europa, o quadro de Sívori – que mostrava uma criada nua acordando em sua prosaica cama no quarto de doméstica – não teve repercussão significativa.

Mas, ao voltar à Buenos Aires, o Despertar da criada provocou um ciclópeo escândalo. O motivo da polêmica não era o nu em si, já que a imagem de mulheres e homens nus era comum nos quadros da época.

O fato que incomodava de verdade a sociedade local era a imagem de uma mulher pobre, nua, morena. E não o nu de mulheres loiras, com as formas dos cânones de beleza da época, ambientado em um cenário de mitologia greco-romana ou alegorias. A outra alternativa para os pintores do século XIX era o de ambientar seus nus em um lugar exótico, por exemplo, o Império Otomano. Desta forma, Jean Auguste Dominique Ingres (1780-1867) fez “Le bain turc”, que mostra uma miríade de jovens totalmente nuas (bom, algumas tem uns colares) em uma sauna de um harém na distante Constantinopla.

Ingres exibe suas moças turcas

No caso de Sívori e sua criada, o nu ocupa quase todo o quadro. Ela está sentada em uma cama, em um quarto simples, sem decoração. É apenas o relato pictórico de uma mulher – uma doméstica – que, dona de fartos seios, está a ponto de levantar da cama, mas antes disso, coloca suas meias nos pés com calos.

Sívori, ao voltar de Paris, mostrou seu quadro na Sociedade de Estímulo das Belas Artes. “Pornografia” foi o adjetivo mais disparado contra a obra.

O quadro causou tal celeuma que os organizadores da exibição tiveram que mostrar o Despertar da criada a portas fechadas. Sequer seu nome em francês – língua da moda na época – ajudou a amainar o impacto causado.

A obra – um dos principais quadros do Museu Nacional de Belas Artes em Buenos Aires – é atualmente vista com freqüência pelos estudantes das escolas primárias.

Por qual motivo falar sobre o “Despertar da criada” hoje? Há tempos queria contar a história deste quadro. Mas, aproveitei a ocasião de que esta segunda-feira é o Dia da Livre Expressão do Nu, movimento que surgiu no Facebook ( http://www.facebook.com/events/353069764724065 ). O movimento protesta contra a censura peculiar existente contra alguns nus, inclusive o de “Origem do mundo”, de Gustave Coubert (mais detalhes sobre esta obra, aqui ).

Um nu kirchnerista

E, aproveitando os tempos kirchneristas, mostramos aqui um nu pintado por Kirchner. Não Nestor Carlos Kirchner (defunto ex-presidente argentino), obviamente, mas sim o alemão Erns Ludwig Kirchner (1880-1938). Kirchner, que fundou o grupo “Die Brücke”, morreu na Suíça (suicidou-se), terra de onde vieram os antepassados de Néstor, o presidente.

Voltando à criada portenha: o quadro de Sívori pode ser visto no primeiro andar do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no bairro da Recoleta (a uma quadra do cemitério da Recoleta).

Medidas da obra: 1,98 metro por 1,31 metro.

Técnica: Óleo sobre tela.

 

Eduardo Sívori, o autor do polêmico – e não greco-romano – nu da criada. No ano em que ele fez o Despertar da criada nasceu na França Marcel Duchamp, artista plástico que revolucionaria a arte no século XX. Em 1918, ano em que Sívori morreu, Duchamp muda-se para Buenos Aires, onde passa nove meses jogando xadrez sem cessar.

Duchamp morou na rua Alsina, na altura do número 1700 e tinha seu atelier na esquina das ruas Sarmiento e Paraná, onde atualmente está a pracinha de cimento do Centro Cultural General San Martín.

       

E nada a ver com o assunto acima, aqui coloco um video de Jessie Norman, impressionante, cantando a ária Liebestod (Morte de amor), de Tristão e Isolda, de Ricky Wagner. Bom início de semana a todos.

E nada a ver com Wagner e Norman, um pouco de Francesco Sinatra, em Ring-a-ding ding

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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