O dia em que o papa abençoou o tango
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O dia em que o papa abençoou o tango

arielpalacios

22 de março de 2009 | 10h58

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Pio X quis ver o tango de perto para avaliar se era apto para a cristandade

O DIABO DANÇA TANGO – “Demasiado sensual!”. “Obsceno!”. “Satânico!”. Estas eram algumas das duras expressões emitidas pelos bispos franceses ao referir-se ao ritmo sul-americano em 1913, quando arrasava nos salões da burguesia parisiense. Os arcebispos de Paris, Cambray e Sens, junto como o bispo de Poitiers atacaram ferozmente esse ritmo “pecaminoso” desde seus púlpitos, pedindo que a Santa Congregação da Disciplina dos Sacramentos analisasse o caso e considerasse sua proibição.

Diante da polêmica que ameaçava tornar o tango alvo de uma proibição da Igreja Católica, a embaixada argentina em Roma decidiu demonstrar ao papa Pio X (1903-1914) que a dança de forma alguma ameaçava os bons costumes cristãos. Os diplomatas argentinos estavam respaldados por diversos jovens da aristocracia italiana, ansiosos por dançar o tango no carnaval de 1914. Tudo indicava que se a Igreja o proibisse, as Forças Armadas da Itália impediriam que seus oficiais o dançassem nos elegantes bailes que estavam sendo preparados para essa festividade.

TANGO PASTEURIZADO – Poucas semanas antes do carnaval, em fevereiro desse ano, o Sumo Pontífice encarregou-se de julgar, pessoalmente, os eventuais “perigos” do tango. Quem ficou encarregado de defender o ritmo perante o supremo chefe da cristandade foi um casal de irmãos da aristocracia italiana. Os jovens “enganaram” o papa Pio X, dançando uma versão “light”, que fosse o suficientemente “inofensiva” para os padrões morais do Santo Padre.

O cuidado dos dançarinos em evitar qualquer tipo de “obscenidade” obteve resultados exagerados. Pio X, após a exibição do tango no Vaticano, ironizou sobre essa moda proveniente da Argentina: “ela obriga seus escravos (os dançarinos) a dançar um baile tão pouco divertido”. O papa deu o OK pontifício para o tango, mas aproveitou a ocasião para recomendar a “furlana”, dança camponesa do século XIX, que considerava “mais animada”.

Com o prestígio obtido nos salões da aristocracia europeia e certa neutralidade papal, o caminho estava aberto para que o tango voltasse à Buenos Aires. Não sendo mais visto como um ritmo do lumpen, conquistou a classe média e expandiu-se, permitindo, dessa forma, o sucesso de cantores como Carlos Gardel. O tango começava a conquistar os corações e mentes dos argentinos.

NOVO CRIVO – Mas, a má fama do tango ainda permaneceu pairando sobre a Europa em certos setores da sociedade. Uma década depois, no dia 1 de fevereiro de 1924, outro papa, neste caso, Pio XI (1922-39), quis analisar pessoalmente aquilo que Pio X havia autorizado.

Nesta ocasião, o tango foi dançado – novamente em versão “diet” – pelo bailarino argentino Casimiro Aín. A melodia escolhida foi um raro tango com nome religioso, o “Ave Maria”, do compositor Francisco Canaro. Para conquistar o coração do papa, Aín fez um malabarismo no fim do tango que o deixou em posição de genuflexão diante do Sumo Pontífice. Pio XI retirou-se do salão em silêncio. A reação papal foi interpretada como um sinal de aprovação. Nunca mais o tango teve que passar pelo crivo da Santa Sé.

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Pio XI – os tangueiros interpretaram que, quem cala, consente

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