O dia em que o papa “autorizou” o tango (e quase um século depois, um papa tangueiro)
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O dia em que o papa “autorizou” o tango (e quase um século depois, um papa tangueiro)

arielpalacios

22 de julho de 2013 | 22h41

Pio X quis ver o tango de perto para avaliar se era apto para a cristandade

“Demasiado sensual!”. “Obsceno!”. “Satânico!”. Estas eram algumas das duras expressões emitidas pelos bispos franceses ao referir-se ao ritmo sul-americano em 1913, quando arrasava nos salões da burguesia parisiense. Os arcebispos de Paris, Cambray e Sens, junto como o bispo de Poitiers atacaram ferozmente esse ritmo “pecaminoso” desde seus púlpitos, pedindo que a Santa Congregação da Disciplina dos Sacramentos analisasse o caso e considerasse sua proibição.

Diante da polêmica que ameaçava tornar o tango alvo de uma proibição da Igreja Católica, a embaixada argentina em Roma decidiu demonstrar ao papa Pio X (1903-1914) que a dança de forma alguma ameaçava os bons costumes cristãos. Os diplomatas argentinos estavam respaldados por diversos jovens da aristocracia italiana, ansiosos por dançar o tango no carnaval de 1914. Tudo indicava que se a Igreja o proibisse, as Forças Armadas da Itália impediriam que seus oficiais o dançassem nos elegantes bailes que estavam sendo preparados para essa festividade.

Poucas semanas antes do carnaval, em fevereiro desse ano, o Sumo Pontífice encarregou-se de julgar, pessoalmente, os eventuais “perigos” do tango. Os encarregados de defender o ritmo perante o supremo chefe da cristandade foi um casal de irmãos da aristocracia italiana. Os jovens “enganaram” o papa Pio X, dançando uma versão “light”, que fosse o suficientemente “inofensiva” para os padrões morais do Santo Padre.

O cuidado dos dançarinos em evitar qualquer tipo de “obscenidade” obteve resultados exagerados. Pio X, após a exibição do tango no Vaticano, ironizou sobre essa moda proveniente da Argentina: “ela obriga seus escravos (os dançarinos) a dançar um baile tão pouco divertido”. O papa aproveitou a ocasião para recomendar a “furlana”, dança camponesa do século XIX, que considerava mais “animada”.

Com o prestígio obtido nos salões da aristocracia européia e certa neutralidade papal, o caminho estava aberto para que o tango voltasse à Buenos Aires. Não sendo mais visto como um ritmo do lumpen, conquistou a classe média e expandiu-se, permitindo, dessa forma, o sucesso de cantores como Carlos Gardel. O tango começava a conquistar os corações e mentes dos argentinos.

Mas, a má fama do tango ainda permaneceu pairando sobre a Europa em certos setores da sociedade. Uma década depois, no dia 1 de fevereiro de 1924, outro papa, neste caso, Pio XI (1922-39), quis analisar pessoalmente aquilo que Pio X havia autorizado.

Nesta ocasião, o tango foi dançado – novamente em versão “diet” – pelo bailarino argentino Casimiro Aín. A melodia escolhida foi um raro tango com nome religioso, o “Ave María”, do compositor Francisco Canaro.

Para conquistar o coração do papa, Aín fez um malabarismo no fim do tango que o deixou em posição de genuflexão diante do Sumo Pontífice. Pio XI retirou-se do salão em silêncio. A reação papal foi interpretada como um sinal de aprovação. Nunca mais o tango teve que passar pelo crivo da Santa Sé.

Pio XI – os tangueiros interpretaram que, quem cala, consente

PAPA TANGUEIRO – Quase um século depois da autorização de Pio X para o tango um argentino de Buenos Aires tornou-se sumo pontífice. O portenho em questão, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, entronizado como papa Francisco, afirma que o tango é seu ritmo musical preferido (além de gostar de ópera e música folclórica argentina). Bergoglio também declara-se fã da “milonga”, que é uma espécie mais acelerada do tango.

Durante sua juventude Bergoglio foi um bom dançarino de tango, segundo os amigos. Ele dançava com sua namorada nos bailes em Flores – seu bairro natal – e outros lugares da cidade.

Mas, o romance concluiu quando descobriu sua vocação religiosa. Bergoglio não dançou mais o tango. Mas, continua ouvindo o gênero musical.

E falando em paqueras, tango e religiosidade, há um tango imortalizado por Gardel que é o “Missa das onze”, no qual o intérprete indica que vai à missa para paquerar uma moça que freqüenta o culto nesse horário:

Os cantores preferidos do papa Francisco: Carlos Gardel, Julio Sosa, Ada Falcón e Azucena Maizani (a quem administrou a extrema-unção em 1970).

Bergoglio também gosta de óperas, gênero musical que sua mãe, Regina Sívori, costumava ouvir quando ele e seus irmãos eram pequenos.

Em sua biografia “O Jesuíta”, de 2010, que após sua eleição como papa foi rebatizada de “Papa Francisco – conversas com Jorge Bergoglio” – ele diz que gosta muitíssimo do tango. Segundo afirma, esse ritmo musical sai de “dentro da alma”.

Sua orquestra preferida era a de Juan D’Arienzo, a.k.a., “El rei del compás” (O rei do compasso) famoso pelo compasso marcado. E também aprecia Astor Piazzolla.

Bergoglio, no portenhíssimo “subte” (metrô) da linha A em 2008. Meia década antes de ser Francisco.

E o Ave Maria (Tanti anni prima), de Astor Piazzolla:

Mais detalhes sobre o tango (suas origens, gírias e o dia em que fui tradutor de Astor Piazzola) em meu livro “Os Argentinos”, da Editora Contexto.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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