O ditador, o lobisomem e o filho do desaparecido
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O ditador, o lobisomem e o filho do desaparecido

arielpalacios

08 de outubro de 2010 | 10h34

Um lobisomem mastiga uma senhorita, segundo ilustra uma gravura de Johann Geiler, 1516.

Tradicionalmente, desde 1907, na Argentina uma mãe que dê à luz a seu sétimo filho homem possui o direito de solicitar ao presidente da República que seja o padrinho da criança. O motivo desse costume foi a superstição de que o sétimo filho masculino – tal como no Brasil – tornaria-se “lobisomem”, isto é, o homem-lobo (“lobizón” na Argentina). Ou, como diziam os gregos, lykánthropos (???????????).

O costume de pedir o apadrinhamento presidencial começou quando um casal de imigrantes alemães que havia residido na Rússia – Enrique Brost e Apolonia Holmann – teve seu sétimo filho homem, José Brost, na cidade bonaerense de Coronel Pringles. Os Brost pediram ao presidente José Figueroa Alcorta que fosse o padrinho. Eles argumentaram que na Rússia, país onde haviam morado, era tradição o czar apadrinhar a criança para quebrar o “feitiço” do sétimo filho. E, já que estavam na Argentina, pretendiam conseguir essa “garantia” por parte do presidente Figueroa Alcorta. O aristocrático presidente concordou.

Essa tradição, obviamente, acabou na Rússia com a Revolução de 1917, liderada por V.I.Lenin. Mas, sobreviveu na Argentina.

O rei Licaon, transformado por Zeus em homem-lobo. Licaon, diz a lenda, teria sido o primeiro lobisomem. Ilustração para a “Metamorfose” de Ovídio.

 A esperança dos pais de um sétimo filho homem, há mais de 100 anos, era que um apadrinhamento presidencial poderia suavizar os problemas decorrentes da suposta condição “licântropa” da criança e da discriminação social. Ser afilhado do presidente incluía o benefício de bolsas de estudos para toda a vida escolar e uma medalha de ouro. Os anos passaram e a lenda do lobisomem perdeu apelo popular. Mas, o costume do batizado presidencial permaneceu. E, em 1973 foi reforçado ao ser transformado em lei (número 20.843), pelo presidente Juan Domingo Perón, em seu derradeiro governo.

General Videla, ex-padrinho de batizado de Gastón Castillo. Longe de referências aos lobos, ostentava o felino apelido de “A pantera cor de rosa” (por sua magreza, jeito de caminhar e a sorte de salvar-se, tal como o desenho animado, de diversos atentados).

 Em 1977, em plena ditadura, Josefa Castillo estava no quinto mês de gravidez quando seu marido, Roberto Castillo – que trabalhava em uma fábrica de frangos, sem militância política alguma – foi sequestrado pelos militares. Desesperada, tentou liberar seu marido.

Sem conseguir, meses depois, quando deu a luz a Gastón, seu sétimo filho homem, recorreu ao apadrinhamento presidencial com a expectativa de que isso salvaria a vida de seu marido. Ela pediu e obteve – com sucesso – que o poderoso ditador argentino, o general Jorge Rafael Videla, fosse o padrinho de seu filho, seguindo a tradição presidencial.

No entanto, apesar do batizado do filho, nada conseguiu sobre seu marido. Os ossos de Roberto – com sinais de ter sofrido torturas extremas – foram descobertos em 2009. Havia sido enterrado pelos militares de forma clandestina como um indigente no município de Avellaneda.

 

Gravura de Lucas Cranach, o velho, que mostra um homem-lobo que usa uma criança como ‘snack’. A ilustração é de 1512. Está na cidade de Gotha, no Herzogliches Museum.

  Desde que os restos mortais de seu pai foram encontrados, seu filho Gastón tentou convencer os padres de sua paróquia a remover o general Videla de seu status de padrinho de batizado. No entanto, o jovem não teve sucesso. Um dos clérigos, indicando que remover o padrinho indigesto era mais complicado, propôs que recorresse a apostasia, isto é, que ele abjurasse do cristianismo. Mas, o jovem, muito religioso, negou-se.

Na semana passada, Gastón pediu ao cardeal Bergoglio que o ex-ditador fosse removido de seu status de padrinho, já que o vínculo religioso com Videla “fere, mortifica e infama o ato sagrado do batizado”.

Na quarta-feira à noite o primaz da Argentina, cardeal Jorge Bergoglio, aceitou o pedido e determinou que o ex-ditador, autor do massacre de milhares de pessoas, não será mais o padrinho de Gastón. O jovem, que é praticante, poderá escolher um novo padrinho.

O escrivão do arcebispado de Buenos Aires, César Sturba, explicou que o código de Direito Canônico determina que entre as condições para ser padrinho de batizado está a de “levar uma vida coerente com a fé e com a missão que receberá”. O ex–ditador, acusado de sequestros, torturas e assassinatos, não cumpre os requisitos de “amor cristão”.

SIMBOLISMO – A medida determinada pelo cardeal Bergoglio possui grande valor simbólico, pois trata-se de uma rejeição da cúpula Igreja Católica a Videla, embora por vias não convencionais.

Durante a ditadura a Igreja esteve intensamente alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos centros clandestinos de detenção e pressionaram os prisioneiros a delatar, com o encobrimento da confissão, o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar.

Um dos clérigos envolvidos nas ações do regime militar, o capelão Christian Von Wernich, além de presenciar, protagonizou torturas nos centros clandestinos na província de Buenos Aires. Em 2007 Von Wernich foi condenado à prisão perpétua por 34 sequestros, 31 casos de torturas e sete homicídios.

MENINAS-LOBA – Embora a lenda do lobisomem não se aplique às filhas, em 2008 a presidente Cristina Kirchner assinou um decreto que determina que o privilégio do apadrinhamento do sétimo filho não se aplicará somente aos homens, mas também às mulheres.

No entanto, diversas parlamentares, entre elas, a deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, destacam que a lei, “atualizada” com a inclusão de mulheres (a sétima filha mulher), é anacrônica. “É um privilégio que, longe de ter fundamento em um mérito, nasce da superstição da licantropia”, sustenta. 

E falando em lobisomens, durante uma viagem noturna em caminhão, em 2005, enquanto ia de Urugaiana a Porto Alegre (era uma ampla reportagem sobre o estado da estrada entre B.Aires e São Paulo), tive uma peculiar conversa com o caminhoneiro. Este rapaz (que eu sabia que era supersticioso), depois de falar sobre a qualidade da estrada (asfalto, buracos, péssima iluminação), lançou uma pergunta inesperada:

Caminhoneiro – Mm…qual será a velocidade de um lobisomem?

Eu – Eeehhh.. a velocidade de um lobisomem?

Caminhoneiro – Sim. Será que ele faz 100 kms por hora? Ou 120? Talvez 130! Semana passada o Ratinho ia mostrar um lobisomem no programa. Fiquei esperando, esperando, mas o lobisomem não foi. Aí o Ratinho falou que ele viria na semana que vem.

Eu – Äêh… (um “äêh” em minha família não quer dizer nada, mas é um elíptico e providencial monossílabo com o qual evitamos qualquer comprometimento quando nos perguntam ou comentam algo esdrúxulo; o “äêh” tem a vantagem de ser interpretado, por nosso interlocutores, como uma espécie de deixa para continuar com aquilo que estavam falando)

Caminhoneiro – Então…qual será a velocidade dele? Quanto tempo será que ele leva para ir daqui até Porto Alegre?

Eu (mantendo um tom neutro sobre o caso, mas seguindo o assunto) – Bom, depende, não é? Na estrada ou no campo?

Caminhoneiro – Como assim?

Eu – Claro, na estrada, tal como um veículo, um lobisomem deveria ir mais rápido. Mas, ao atravessar o campo, deve demorar mais, pois teria que passar por banhados, riachos, cercas de arame farpado…é um terreno no qual ele deve demorar mais, não é? E olha que é o Rio Grande do Sul, com planícies… imagina se ele tiver que atravessar o sul de Minas Gerais com as serras.

Caminhoneiro – Pois é…ia demorar mais, né?

Eu – E pela estrada não deve ir, pois senão todo mundo o veria.

Caminhoneiro – Claro!

Eu – Talvez na estrada ele poderia fazer uns 100 kms por hora… mas atravessando o campo, aqui, até Porto Alegre, talvez faria uma média de uns 60 kms, não?

Caminhoneiro – Pois é. De todas formas, ele ia ter que parar no caminho antes do amanhecer.

Eu – Por?

Caminhoneiro – É que com o raiar do sol ele deixa de ser lobisomem!

Eu – Concordo. Ser lobisomem é um atrapalho nos planos de viagem. Só pode fazer os trajetos de noite.

Caminhoneiro – Pois é, coitado. Será que vão repetir o programa do Ratinho?

Lua cheia, segundo a lenda européia, é o prime-time para os lobisomens. Na Argentina (e em vários países da América do Sul) dia (ou melhor, noite) de Lobisomem é toda sexta-feira.

E já que falamos em lua, aqui vai “Luna”, do colombiano Juanes. Aqui.

E Frank Sinatra, “Blue Moon”. O link, aqui.

E “Fly me to the moon”, com a sedutora voz de Julie London. Aqui.

E, aha! O “Clair de Lune” de Claude Debussy, com o brilhante David Oistrakh. Uma gravação de 1962 feita em Paris. Aqui.

E não podia deixar de citar a carismática soprano russa Anna Netrebko interpretando a “Canção da lua” da ópera Russalka, do tcheco Antonín Leopold Dvo?ák. Aqui. 

Desculpem a demora em colocar uma nova postagem, mas estava em Quito, Equador, cobrindo o revertério político (que será assunto possivelmente da próxima postagem, isto é, um panorama do cenário político do país). E, quando voltei, na 2afeira, estava com uma gripe titânica e febre idem que me impediram atualizar qualquer assunto até ontem.

Bom fim de semana a todos!

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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