O ditador que virou neologismo
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O ditador que virou neologismo

arielpalacios

18 de julho de 2011 | 21h53

 

Juan María Bordaberry, ex-presidente/ditador uruguaio, morreu neste domingo de madrugada em Montevidéu. Foi enterrado no mesmo dia, sem honras de Estado, já que apesar de ser um ex-presidente, havia violado a Constituição do Uruguai. Sua principal contribuição ao país e ao mundo foi o neologismo de ciência política “bordaberrização”. Por coincidência, no dia seguinte, segunda-feira, os uruguaios celebravam o aniversário da Constituição Nacional. A foto acima mostra o ditador em seu apogeu. A foto abaixo mostra o ex-ditador em seu momento de prisão.

Juan Maria Bordaberry, um civil integrante do partido conservador Colorado, foi eleito presidente em 1971 nas urnas, no meio da  crise econômica e da intensificação da guerrilha dos Tupamaros. Em 1972 tomou posse. Em 1973, apesar da guerrilha já estar praticamente derrotada, decidiu dar um auto-golpe que inaugurou uma ditadura que duraria 12 anos.

Ele dissolveu o Congresso, eliminou as liberdades civis e colocou militares nos principais postos do gabinete. No entanto, seu governo ditatorial foi caótico, pois a crise econômica agravou-se e as tensões políticas dentro de seu governo aumentaram. Em 1975 propôs aos militares a substituição total dos partidos políticos por corporações. Bordaberry, fã do ditador espanhol Francisco Franco, queria criar um Estado inspirado no falangismo e no fascismo.

A idéia extrema deixou os próprios militares golpistas preocupados, pois eles pretendiam fazer uma transição ordenada para uma democracia tutelada no futuro, mas com a existência de partidos. Os militares consideravam que tentar acabar com todos os partidos era uma jogada muito arriscada para a permanência do poder militar.

 

Bordaberry era fã de Franco, que autodenominava-se de “generalíssimo da Espanha, pela graça de Deus”. Acima, Franco em uma pintura um tanto quanto apologética.

BORDABERRIZAÇÃO E BORDABERRIZADOS – A ditadura criada por Bordaberry duraria uma dúzia de anos. No entanto, ele durou menos no poder, já que em 1976 foi deposto pelos próprios militares. Bordaberry e seu modelo de poder inspiraram a criação de um termo ocasionalmente utilizado na política internacional, a “bordaberrização”.

O neologismo designava um presidente civil que é títere de militares – que seriam os verdadeiros donos do poder – e que transformam um regime democrático em uma ditadura encoberta, com rosto civil.

Segundo o Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o presidente peruano Alberto Fujimori, “bordaberrizou” seu governo em 1992 quando deu um autogolpe. Mais detalhes sobre o golpe de “El Chino”, aqui.

Bordaberry foi substituído por outro civil, o “bordaberrizado” Alberto Demicheli, que ocupava na época a presidência do Conselho de Estado. Demicheli durou dois meses e meio. Outro civil bordaberrizado, Aparício Méndez, o sucedeu, durando até 1981. Nesse ano, os militares que decidiram continuar o regime de fato sem intermediários ou figuras decorativas. Na ocasião, foi designado presidenteo general Gregório Alvarez.

Bordaberry junto com seu colega chileno, Augusto Ramón Pinochet

PRESO E CONDENADO – Bordaberry estava detido desde novembro de 2006, quando foi colocado na prisão por acusações de graves violações aos Direitos Humanos. Na época, o juiz Roberto Timbal o acusou de coautoria de homicídio agravado dos senadores Zelmar Michelini (na época, um dos principais líderes da oposição) e Héctor Gutiérrez Ruiz, além dos tupamaros Rosario Barredo e William Whitelaw.

Os assassinatos ocorreram em Buenos Aires,dentro do “Plano Cóndor” (plano de cooperação entre as Ditaduras do Cone Sul).

Os militares e policiais que cometeram violações aos Direitos Humanos durante a Ditadura (1973-85) foram beneficiados em 1989 com a Lei de Caducidade Punitiva do Estado (lei de anistia). No entanto, ela não contemplava os crimes cometidos por militares no exterior (vários oficiais foram extraditados por crimes no Chile, enquanto que outros aguardam a extradição por crimes realizados na Argentina) nem pelos civis, que era o caso de Bordaberry.

O ex-ditador ficou vários meses na Prisão Central de Montevidéu. Mas, finalmente, em 2007, foi transferido para sua casa para cumprir prisão domiciliar sob a alegação de problemas de saúde.

Em 2010 Bordaberry, que era acusado de crimes de contra a Humanidade (pelos casos de torturas e assassinatos), foi condenado por crimes contra a nação, pena sem antecedentes na História uruguaia, já que tinha como base a violação da Constituição por parte do ex-ditador. Na ocasião Bordaberry recebeu uma pena de 30 anos de prisão (a maior pena prevista pela lei uruguaia, já que o país não conta com pena de prisão perpétua).

Isto é: Bordaberry, que teria que cumprir a pena até 2040. Ou seja, ele sairia da prisão quando tivesse 112 anos. Mas, morreu muito antes, aos 83. O déficit que surge dessa contabilidade é de 29 anos.

NECROLÓGICAS – Com a morte de Bordaberry neste ano – e as do general AugustoPinochet e de Alfredo Stroessner em 2006 – do grupo de ex-ditadores “top” dos anos 70 no Cone Sul que participaram do Plano Condor, fica apenas vivo o general Jorge Rafael Videla.

 

Caronte, o piloto do ferry-boat que cruza o Aqueronte, o rio que leva as almas direto para o Inferno, segundo a mitologia grega. Na obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, a via fluvial em questão era a beirada do Inferno, ou, o hall do Inferno. A ilustração é de nosso genial francês Gustave Doré.

FUJIMORIZAÇÃO NÃO-BORDABERRIZADA – O general peruano Edgardo Mercado Jarrin discorda de Vargas Llosa, e indica que muitas pessoas compararam o golpe peruano com o governo de Bordaberry no Uruguai em 1973. Mas, ele sustenta que existem grandes diferentas e que na verdade, no Peru houvre “fujimorização”: “Bordaberry fue un presidente uruguayo civil puesto por los militares para que en realidad gobiernen los militares. En Perú ha habido una cosa atípica porque fue un golpe pensado y organizado por el presidente civil, que contó con el apoyo de las fuerzas armadas. Esto fue un golpe donde las fuerzas armadas no buscaron una injerencia política. La prueba es que aquí no hay ministros militares. Cada vez más las decisiones fundamentales son tomadas exclusivamente por Fujimori. Aquí no hubo una “bordaberrización” sino una “fujimorización”, y eso es porque las propias fuerzas armadas han aceptado darle ese caríz”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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