O gordo nu, o decapitado desorientado e o priápico-barbudo duende ecologista
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O gordo nu, o decapitado desorientado e o priápico-barbudo duende ecologista

arielpalacios

14 de outubro de 2010 | 18h41

Não é o gordo que rola na estrada. Mas, na ausência de registros fotográficos sobre o adiposo fantasma, colocamos aqui uma ilustração de Fernando Botero, pintor colombiano especializado (obcecado, diria) com figuras roliças.

A pedidos de vários comentaristas – e amigos que leram a postagem anterior – aqui explico a lenda do “Gordo que rola nu na estrada”. A história do adiposo personagem do além foi relatada por caminhoneiros brasileiros e argentinos. Apesar do público binacional, ele opera em um trecho específico da estrada que vai de Uruguaiana a São Gabriel, no Rio Grande do Sul.

Aproveito a ocasião para também explicar o “Pombero”, lenda do nordeste da Argentina, a peculiar “leitoa com correntes” e a onomatopeica “Zapám-zucúm”.

 O GORDO QUE ROLA NU NA ESTRADA – O gordo que rola nu na estrada (nunca vi um nome tão longo para um fantasma) é uma das lendas mais sem objetivo que vi em minha vida. Fiquei sabendo desta história, tal como contei na postagem anterior, quando fazia uma viagem em caminhão entre Buenos Aires e São Paulo em 2005. Os caminhoneiros relataram que, perto de São Gabriel, no centro do Rio Grande do Sul, existe a lenda do “homem gordo que rola nu na estrada”. Um deles, um senhor de 65 anos, jurava de pé junto que havia deparado-se com este adiposo fantasma uma noite de lua cheia na estrada em meados dos anos 90. Não é um fantasma que apareça com frequência.

Físico – Trata-se, pelas descrições, de um senhor muito gordo, obeso, de talvez uns 150 a 160 quilos, que – totalmente nu – rola ladeira abaixo na estrada. O sr. em questão é “branquelo”, o que sugere que poderia ter sido – no período em que estava vivo e que tinha que pagar impostos – um integrante da comunidade polonesa ou alemã da região, segundo o diálogo que mantive com o grupo de pessoas que acreditavam no “gordo que rola…”. No entanto, quando tentei especular sobre a eventualidade de que fosse albino, não tive respostas entusiastas sobre o assunto.

Modus operandi – Ele rola nu, girando a grande velocidade (como se fosse um imenso barril). E, quando está perto da colisão com um veículo, desaparece no ar.

Onde – Ele rola na estrada. Em uma ladeira, na direção do declive. Logo, não há esforço algum.

Efeitos colaterais da performance do gordo nu e branco – Nenhum efeito. O gordo aparece e some. O único ponto negativo é o susto – breve – do risco de atropelar o obeso fantasma. E de talvez amassar o pára-lamas

Trânsito – O gordo em questão atua em um trecho específico da estrada (e somente à noite). E. mais especificamente ainda, só para os que trafegam de Uruguaiana rumo à Porto Alegre (no sentido inverso, aparentemente, o sr. obeso não age. O motivo disso não o conheço. Mas, essa unilateralidade não parecia que fosse um problema para as testemunhas desse evento fantasmagórico)

 

Pombero aterrorizava a personagem de Isabel Sarli. Aqui, a musa que foi sex symbol do país durante décadas

 POMBERO – Este personagem lendário, a.k.a. Pyragué (em guarani, “pés peludos”) ou Karaí pyhare (senhor da noite) – e ainda Kuarahy jára (dono do sol) – predomina especialmente no nordeste da Argentina e no Paraguai.

Físico – Baixo, troncudo, muito peludo. Possui longos braços que arrastra pelo chão. Seus pés podem ser virados para a direção oposta (isto é, ficar como os do brasileiro Curupira). “Duende”, segundo alguns especialistas que tentam fazer paralelos com seus primos europeus, o Pombero seria bem-dotado. Ele arrasta seu membro viril pelo chão (não ao ponto do “Curupí”, primo distante – e com variações – do Curupira que precisa enrolar o membro viril ao redor da cintura). No entanto, a imensa barba que ostenta costuma cobrir a avantajada genitália do Pombero.

O Pombero, por esta característica, e por estar em frequente estado de priapismo, foi protagonista de um clássico da cinematografia argentina, o “Embrujada”, de 1969, com a voluptuosa atriz (e ex-miss Argentina) Isabel “Coca” Sarli, sex symbol argentina durante décadas.

No meio do filme Ansise (o personagem de Sarli) está deitada na grama, depois de ter tentado (sem resultados) refrescar seu tórrido físico (que não conseguia satisfazer seus desejos devido à impotência de seu marido) nas águas das cataratas do Iguaçu. Ali ela é possuída pelo pombero, que a engravida. O filme tem um quê de outro clássico (de Hollywood), o “Bebê de Rosemary”, de Roman Polansky.

Forma de comunicação: Assobia. Mas também relincha. Ocasionalmente pia.

Ética: O Pombero possui ética ecologista, pois fica zangadíssimo quando vê que um caçador mata mais animais do que aqueles que consumirá.

Hobbie: Fuma cigarros muito fortes.

Costume sexual: Ele engravida mulheres por meios convencionais, mas também tocando suas barrigas com a ponta do dedo da mão. Ele prefere as mulheres que não foram batizadas.

Figurino – Chapéu de palha. Ocasionalmente, uma bolsa a tiracolo.

Característica sui generis: É o duende mais popular da região guarani. Mas também é o que menos foi visto pessoalmente segundo os depoimentos.

Temporada: Ele costuma aparecer a partir de outubro, até final de março. Isto é, nos meses de maior calor na região onde opera.

Horário: De preferência, no modorrento período da siesta.

 ZAPÁM-ZUCÚM – Morenaça que possui ostensivos seios. É um espírito positivo, de bem com a vida, que protege crianças que ficam sozinhas enquanto suas mães participam da colheita.

Característica peculiar: a lenda diz que seus seios são morenos… e rosados ao mesmo tempo.

Denominação: “Zapám-zucúm” é um nome onomatopeico, já que os habitantes do interior afirma que esse é o barulho que seus seios fazem quando se movem enquanto ela caminha pelo campo.

Mãos: pequenas e brancas.

 

Leitoa com correntes agita a vida nortuna no norte de Córdoba. Enrolada em correntes, sobe nos fios do telégrafo. Acima, leitoa sem correntes. Ilustração acima mostra Miss Piggy, acompanhada por Caco, o sapo, protagonizou nos anos 70 “Os Muppets”. Ocasionalmente Miss Piggy aterrorizava o verde representante da familia dos Bofonidae.

 LEITOA COM CORRENTES – A “chanca con cadenas” (leitoa com correntes) é uma suína que costuma fazer footing noturno no norte da província de Córdoba. Dizem que é “diabólica” mas as lendas populares não costumam explicar o que ela faz de maligno.

Cenário: Ela aparece nas redondezas das estações ferroviárias (logo, é um espírito surgido a partir do século XIX).

Modus operandi: Ela arrasta correntes de metal. Logo, quando passa entre as ferrovias, faz um barulho danado.

Modus operandi adicional: Também passeia por cima dos fios do telégrafo com suas correntes.

Horário: Noturno.

Identificação: Toda vez que alguém que ouve seu barulho e tenta encontrá-la para vê-la, a leitoa – providencialmente – desaparece no ar.

 

O caudilho Justo José de Urquiza, manda-chuva da província de Entre Ríos e figura crucial de História argentina de meados do século XIX. Um de seus oficiais seria o desorientado “decapitado que aponta”.

 O DECAPITADO QUE APONTA – Outra assombração sobre a qual que fiquei sabendo alguns detalhes durante esta viagem em caminhão foi “o decapitado que aponta”. O fantasma em questão é um homem que aparece na véspera de desastres & tragédias. Ele é o presságio de problemas. Não é o protagonista das complicações. Ele apenas avisa sobre a inevitabilidade de um evento, simplesmente com sua muda (é decapitado, lembrem) presença. A assombração em questão foi um guerreiro das guerras civis que assolaram essa parte da Argentina em meados do século XIX. Ele teria sido morto pelos inimigos, e degolado. Desta forma, sem sua cabeça, aparece à beira das estradas.

Peculiaridades: Na véspera de um acidente, morte ou tragédia, ele aparece do lado esquerdo da estrada (para quem ruma ao norte) e aponta em uma direção. Mas, essa não é a direção na qual os problemas acontecerão. Conselho: o desastre ocorrerá na direção oposta. Talvez pela falta da cabeça – que teria provocado certa desorientação no nosso fantasma – o decapitado aponta sempre na direção errada (mas sempre é a direção oposta… isto é, se ele aponta para noroeste, fique sabendo que a catástrofe será do lado sudeste, por exemplo). Ou, talvez aponta errado por incompetência em matéria de assombrar. Tudo indica que não é por maldade.

Local: Ele aparece na beira da estrada na zona leste da província de Entre Ríos (mais especificamente, no norte da província, na área dos municípios de Concordia e Federación)

Figurino: Está vestido de civil. Mas foi um militar das guerras civis, possivelmente, do grupo do caudilho Justo José de Urquiza. Como alguém sabe que ele foi um militar? Boa pergunta! 

 E já que falamos em lendas e maldade, a genial Eartha Kitt no irônico “I want to be evil” (Eu quero ser má), de 1962. O link do Youtube, aqui.

E a letra e tradução, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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