O ministro argentino de Hitler
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O ministro argentino de Hitler

arielpalacios

23 de maio de 2009 | 16h17

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Ricardo Walter Oscar Darré, do bairro portenho de Belgrano aos comícios racistas de Berlim

A Argentina forneceu ao Terceiro Reich um punhado de nazistas nativos, a maioria de pouca relevância na Alemanha de Adolf Hitler. No entanto, um deles, Ricardo Walter Oscar Darré, teve intensa influência no regime da “Nova Ordem” teutônica.
O portenho Darré foi um dos principais teóricos da doutrina do “Blut und Boden” (Sangue e Solo), que deu origem às leis raciais da Alemanha nazista.
As máximas dessa obra são citadas atualmente nos sites skinheads e grupos afins.
A frase mais conhecida é aquela na qual Darré indica que os alemães não são uma raça: “a palavra ‘espécie’ é que seria mais adequada para nós”.

Filho de alemães, Darré – que posteriormente germanizou seu Ricardo para “Richard” – nasceu na rua 11 de Setembro 769, no bairro de Belgrano, em Buenos Aires, no dia 14 de julho de 1895 (no terreno de sua casa de infância agora existe uma quadra de tênis de uma escola religiosa). Foi batizado na Igreja da Congregação Evangélica Alemã da rua Esmeralda 162. Fez a escola primária no Colégio Alemão Superior Belgrano.

Aos 14 anos foi estudar na Alemanha. Lutou na Primeira Guerra Mundial (1914-18), na qual foi ferido levemente várias vezes. Quando o conflito bélico terminou, Darré começou a planejar sua volta à Argentina para dedicar-se à vida agropecuária. Mas, a falência de sua família nos anos 20 na Alemanha colocou esses planos a pique.

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Comício nazista na Argentina nos anos 30. Os grupos nazistas argentinos eram os principais no continente americano antes da Segunda Guerra.
Este evento foi realizado no Luna Park, lugar tradicional de eventos esportivos e espetáculos musicais. O Luna Park localiza-se no início da Avenida Corrientes, em pleno centro portenho.

VACAS PURAS, LOIROS IDEM – Darré continuou na Alemanha, onde retornou aos estudos de Agronomia, especializando-se em cruzamento de animais. Ficou especialmente obcecado em conseguir vacas “puras” e cavalos idem (estes últimos, para uso de uma futura aristocracia ariana).
Posteriormente, as idéias de conseguir animais “puros” transferiu-se aos seres humanos. Darré entrou no Partido Nazista, onde formulou a teoria do “Blut und Boden”.

Junto com Alfred Rosenberg, escreveu as Leis Raciais de Nuremberg, que condenaram à segregação e à morte milhões de judeus (Rosenberg, no entanto, teve mais ibope do que Darré). Darré influenciou o chefe da SS, Heinrich Himmler, a criar uma aristocracia racial alemã baseada no cruzamento seletivo.

Darré foi o Ministro da Agricultura de Hitler entre 1933 e 1942. Além disso, foi diretor do Departamento de Raça e Reassentamento, uma das entidades mais fanaticamente racistas e anti-semitas da Alemanha da época.

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Darré, vestido à moda do Terceiro Reich

No comando desse departamento, conhecido pela sigla RuSHA (Rasse und Siedlungshauptamt), Darré propôs “restringir a proliferação de seres inferiores”. Um dos organismos na órbita do RuSHA era o “Lebensborn”, a rede de casas-maternidades para mulheres arianas que eram ‘cruzadas’ com a casta das SS.

Darré, fascinado por sua experiência bovina, pregava em seus livros “a reconstituição da Raça no homem, utilizando as mesmas normas que servem de base para a criação de animais”. O RuSHA era o organismo encarregado de emitir os certificados de “pureza racial” que diferenciavam os integrantes da “Nova Alemanha” das pessoas condenadas aos campos de concentração.

No meio da guerra, Darré perdeu sua influência e foi substituído por um parente do marechal Hermann Göring, um dos principais homens do Führer. Nessa época, Darré mostrava sinais de que estava psicologicamente desequilibrado (mais que a média dos já desequilibrados integrantes da cúpula nazista).

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Prisioneiros judeus no Campo de concentração de Buchenwald

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Corpos de judeus, ciganos e demais “raças” consideradas “impuras” pelo Terceiro Reich

MORTO SEM TÚMULO – Darré não foi julgado no Triubunal de Nuremberg (onde esteve quase toda a cúpula do Terceiro Reich). Ele foi levado ao banco dos réus no “Julgamento de Wilhelmstrasse”, no qual foram julgados 21 nazistas de segundo escalão, entre eles funcionários civis e banqueiros. Mas, quando os julgamentos de Wilhelmstrasse concluíram, em 1949, os EUA já estava enfocado na Guerra Fria contra a URSS e as sentenças para esta última leva de nazistas processados foram mais leves.

Darré foi condenado a sete anos de prisão. No entanto, foi solto antes do fim previsto de sua pena, em 1950.

Na época surgiram diversos rumores de que Darré havia retornado à Argentina e que estava organizando a rede de fuga de nazistas para América do Sul.

Além disso, os boatos indicavam que Darré havia levado para a Argentina o ouro roubado de países ocupados pelo Terceiro Reich na Europa durante a guerra para financiar a rede nazista no Cone Sul.

Mais boatos afirmavam que havia falecido em um acidente de carro na Alemanha. Outra informação sustentava que Darré havia morrido em circunstâncias “amorosas” na Cotê d’Azur.

Simon Wiesenthal, o famoso caçador de nazistas, disse em 1997 que Darré – que apreciava de forma intensa bebidas destiladas e fermentadas – havia morrido de cirrose em 1953. Wiesenthal explicou que – já que o ex-teórico nazista estava morto – não havia mais acompanhado seu caso.

O irmão do autor do “Blut und Boden”, Alan Darré, que tinha 89 anos em 1997 (er muitos anos mais jovem que o ministro de Hitler), e que residia na Alemanha, disse que Ricardo Oscar havia morrido em 1954.
Segundo ele, estava enterrado no cemitério de Munique.
Mas, nesse cemitério não há registros de seu túmulo.

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Hitler, acompanhado por Darré, planejou a eliminação de todos aqueles que não fossem suficientemente ‘puros’

FRASES de Ricardo Oscar Darré:
– “O conceito de sangue e solo nos dá o direito moral de pegar de volta quanta terra for necessária no leste (isto é, Polônia e Rússia) para estabelecer harmonia entre nosso povo e o espaço geopolítico”.

– “Vamos criar uma nova aristocracia germânica das reservas humanas da SS. Vamos fazer de forma sistemática e com base na ciência e conhecimento biológico aquilo que o velho sangue aristocráticos dos dias de antigamente fazia por instinto”.

EM TEMPO 1: O sobrenome Darré, na realidade, é basco-francês. Seu pai argumentava que era “um basco-francês de origem germânico”. Essa era uma das várias peculiaridades de Darré, que tal como o próprio nazismo, era pleno em contradições (Hitler, homem baixinho de cabelos negros, pregava o predomínio dos altos loiros germânicos).

EM TEMPO 2: Darré nunca perdeu seu sotaque portenho.

EM TEMPO 3: Darré foi um dos vários integrantes do entourage do austríaco vegetariano de bigodinho à la Chaplin – A. Hilter – que não havia nascido dentro das fronteiras da Alemanha.
Rudolf Hess, um dos braços-direitos do Führer, nasceu no Egito.
Alfred Rosenberg, co-autor das leis raciais, havia nascido na Lituânia (parte da Rússia na época de seu nascimento).
O próprio Hitler nasceu em Brannau, Áustria.
Para o Nazismo, não importava onde o representante ariano tivesse nascido. O importante era ser um “puro germânico”. Tal como as vacas de Ricardo Oscar Darré.

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