O mundo perturbador e contundente de Samanta Schweblin
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O mundo perturbador e contundente de Samanta Schweblin

arielpalacios

05 Abril 2012 | 10h28

A escritora argentina Samanta Schweblin: de Boedo para o mundo

A crítica argentina a considera “herdeira da literatura de realismo fantástico” de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. No entanto, Samanta Schweblin recusa o rótulo, agradece a lisonja, mas afirma que seus contos são “muito realistas, embora as situações sejam anormais”. Vencedora do Prêmio Casa de las Américas de 2008, Schweblin – que foi eleita em 2010 pela revista britânica Granta como uma dos 22 melhores escritores da língua espanhola da nova geração – será conhecida pelo público brasileiro nos próximos dias com o lançamento de seu livro “Pájaros em la boca”, traduzido como “Pássaros na boca”, que será publicado pela editora Benvirá.

Os contos de Schweblin, que participará da Primeira Bienal do Livro de Brasília no dia 14 de abril, possuem como marca os elementos perturbadores, que a escritora relata com precisão e contundência. “As certezas e a serenidade ficam de lado” quando alguém lê um conto de Schweblin, diz a crítica portenha. A crítica também destaca que os contos da autora de 34 anos “levam o verossímil a um extremo fora do comum, mas com muita naturalidade”.

A escritora, depois de formar-se em cinema, montou uma agência de design. “Meu plano A era o de escrever. Mas, para concretizar o plano A precisava de um plano B que me desse um retorno financeiro. No entanto, a agência crescu muito rápido e me aniquilava o tempo para o plano A. Por isso, quando recebi uma bolsa do governo mexicano em Oaxava, ‘baixei a persiana’, deixei a agência para meus empregados e decidi que só ficaria com o plano A. É difícil viver de escrever, mas dá para viver dando aulas de literatura. Minha vida agora é mais austera, menos estressante e com mais tempo livre. E estas são três coisas importantes para o espaço da escritura!”, explica a autora.

Schweblin conversou com o Estado em um dos velhos redutos do tango, o café Homero Manzi, no pacato bairro de Boedo, onde reside. Ali, sentada contra a janela enquanto bebe um café, faz uma defesa da velocidade nos contos: “a ‘velocidade’, ao contrário do que acredita-se por aí, não é ‘superficialidade’. Não é mesmo. Velocidade é precisão. E é sutileza. Mas, acima de tudo, é retirar metade da história do papel impresso e colocá-la na cabeça do leitor”.

Estado – Seus contos poderiam ser facilmente transportados ao cinema ou TV, pois possuem um lado visual forte…

Schweblin – Eu venho da carreira de cinema, e não de letras, ao contrário do costumeiro para quem quer ser escritor. Mas, ter esquivado letras foi uma decisão inteligente, pois minha intenção era a de escrever histórias. E a carreira de letras aqui é muito acadêmica. Ia aprender muito sobre a literatura espanhola do século treze, mas não a contar histórias. O fato é que aprendi a ‘contar’ histórias na ilha de edição, vendo como cortar uma cena ou juntá-la com outra. No entanto, não tive na escola o background que teria tido se tivesse feito letras. Esse background tive que conseguir de forma autodidata e improvisada. O lado visual tem um peso importantíssimo em minha geração.

Estado – Os pouquíssimos contos de Jorge Luis Borges transpostos ao cinema são os mais evidentes e menos reflexivos…

Schweblin – Borges é alucinante. Mas meu grande amor foi Adolfo Bioy Casares. Bioy, no entanto, é mais visual. O escritor mostra e o leitor conclui e entende. O entendimento não está em todas as páginas. O entendimento está na cabeça do leitor.

 

Adolfo Bioy Casares, um dos emblemas do realismo fantástico argentino. O autor preferido de Samanta Schweblin.

Estado – Seria algo interativo?

Schweblin – Sim! E nesse caso, tiro o chapéu para Clarice Lispector, pois, a respeito muitíssimo…e dou os parabéns aos brasileiros por tê-la. Ela sofria com a não-palavra. A palavra mais citada não pode estar no texto…tem que estar na cabeça do leitor! Também gosto muito de Bernardo Carvalho e Daniel Galera, de quem li “Mãos de cavalo”, que adorei.

Estado – Se o conto complementa-se com a ação do leitores, quando termina um conto, o mostra a amigos, colegas, leitores comuns?

Schweblin – Não fiz a carreira de letras. Mas fiz muitas oficinas de escrita. E dali fiquei com o costume de mostrar os textos aos colegas. As datas de reuniões com eles nos obrigam a fechar, concluir algo, e polir o texto. Mesmo se não estou de acordo com a outra pessoa sobre meu conto, o olhar dessa outra pessoa é importantíssimo, pois vejo as coisas no conto que não funciona, o que não se entende. Essa instância de leitura com os outros é fundamental.

Estado – Os críticos, colegas ou leitores tentam encontrar alegorias em seus textos?

Schweblin – (sorri) Sim! E em grande parte das vezes, em coisas que não tem nada a ver. Uma vez, um editor inglês me explicou – a mim, a escritora! – que meu conto “matar um cachorro” falava, na realidade, sobre a ditadura argentina… E ele tinha tanta certeza disso (ri)! Mas, há um lado positivo, que é a universalidade da literatura, pois a partir do momento em que alguém tenta explicar um conto de uma única forma, perde.

Estado – De onde saem as ideias para os contos?

Schweblin – “Irman”, do “Pássaros na boca”, veio em parte de algo que aconteceu com um casal de amigos que estavam na estrada, com muita fome, e decidiram para em um bar de um posto de gasolina. Mas, ninguém vinha atendê-los. Finalmente apareceu o garçom, que estava atrapalhado porque sua mulher havia desmaiado no meio da cozinha. E juntei isso com uma cena que vi em uma loja, na qual os dois donos haviam encontrado uma carteira de um homem que a havia perdido. Dentro havia uma foto velha, uma bala de menta toda amassada. Tudo estava gasto e velho. Mas essa pessoa a mantinha ali na carteira por algum motivo…deveria ter um grande valor para esse senhor. Mas os dois caras jogaram fora essa carteira. Juntei estas duas ideias para o conto.

Estado – seus contos possuem ritmo rápido….

Schweblin – A velocidade é algo que me interessa muito. Existe certa ideia de que a leitura veloz é leitura superficial. E eu penso o contrário. Acho que a velocidade na leitura é concedida pela profundidade nas palavras. Por exemplo, se eu digo, “lá fora faz frio e chove”, você, como leitor, entende que “lá fora faz frio e chove”. E nada mais do que isso. Como leitor, você está entendendo a mesma frase. Mas, se por acaso, escrevo “um homem sem mãos bate à minha porta para me vender uma fotografia de minha casa”, eu, a escritora, coloquei apenas uma frase. Mas, na cabeça do leitor pulam um monte de coisas: “quem é esse homem?”, “como ele bate na porta se não tem mãos?, “por qual motivo ele fez uma foto de minha casa… e porque ele quer me vender essa foto?”. E ainda pergunta-se “e como ele fez a foto, se não tem mãos???” Isso me fascina. E por isso gosto tanto da tradição americana, que é a de escrever o máximo possível em uma única frase. Gosto disso, o que ocorre dentro da cabeça do leitor. Velocidade é profundidade, não é superficialidade.

Estado – E esse estilo é útil para segurar o leitor, em um mundo de internet e de rapidez no cotidiano?

Schweblin – É por isso que acredito que é mais fundamental do que nunca ser visual. E além disso, temos que deixar que o leitor participe. Mas, é preciso explicar uma coisa sobre isto, pois normalmente quando falamos em participação do leitor, as pessoas acham que trata-se de deixar um final aberto. Ou um final que não seja totalmente claro. Mas não é isso. É exatamente o contrário. Acho que o final deve ser fechado. Gosto de ter o controle total do texto. Mas, o escritor tem que avançar nessa história, tête-a-tête, par a par com o leitor. Na hora em que não damos espaço ao leitor, a história perde…

Estado – Os contos são um gênero literário atualmente meio desprezados, apesar da grande tradição de escritores como Jorge Luis Borges, Julio Cortazar ou Edgar Allan Poe nessa área…

Schweblin – Às vezes, quando alguém me pergunta o que faço, quando ouvem minha resposta, a de que escrevo contos, exclamam “ah, você faz contos infantis?”. E dentro do meio literário, o clima é similar. Tenho a sensação de que meus editores tem fé em mim, pois parece que eles acham que não sou uma contista…acham que sou uma potencial novelista! Devem achar que uma hora vou “tomar vergonha na cara” e começar a escrever novelas. Mas eu sou uma contista nata! No entanto, não sou uma militante do conto. Escrevo contos porque acho que minhas ideias funcionam em contos. Caso algum dia eu tenha uma ideia que funciona em uma novela, escreverei uma novela, sem problemas. Não quero usar uma ideia que é adequada para a um conto, esticando-a para uma novela.

Estado – Lhe interessa o gênero da ficção-científica?

Schweblin – Sim, em o “Núcleo do distúrbio” houve alguns contos do gênero. Mas hoje em dia não escreveria sobre isso. No entanto, tive muita influência de Ray Bradbury e Ursula K. Le Guin….

Estado – Se o rótulo é inevitável, pelo menos para ajudar os livreiros na hora de colocar os livros nas estantes, como gostaria de ser catalogada dentro do amplo leque literário? É uma escritora de realismo fantástico, tal como vários críticos a enquadram?

Schweblin – “Realismo fantástico” é uma expressão estranha. Exceto um ou dois casos em “Pássaros na boca”, a maior parte são contos realistas, embora estejam concentrados em situações anormais. Poderão ser anormais…mas são super-realistas. Não é literatura fantástica, que é um gênero que deixa o leitor em um lugar mais confortável, pois, por exemplo, Frankenstein, uma criatura que viveu há mais de um século e morreu. Eu me sinto segura ao ler Frankenstein. Mas, nestes contos super-realistas, os problemas poderiam ocorrer ao próprio leitor. Mas, nada contra a literatura fantástica, que é um gênero que amo!

Estado – Você tem fascínio pelos elementos perturbadores…

Schweblin – Isso é o que coloca em andamento meu desejo de escrever. Se não encontro nada perturbador, não me interessa narrar. Sem o elemento perturbador, não posso armar o conto.

Estado – Quando começou a escrever contos, a internet já era um fato consumado. Seu processo de escritura ou sua obra tem influência da internet?

Schweblin – Muitos leitores me disseram que compraram livros meus porque viram contos na internet. No entanto, não acho que tenha um reflexo direto na literatura. No entanto, nossa geração de escritores está conseguindo coisas muito interessantes que não teriam sido possíveis sem a internet. Por exemplo: há pouco tempo li um texto do brasileiro Santiago Nazarian, que ainda não está publicado. Como era antigamente? Ora, um escritor em Montevidéu publicava algo no Uruguai. Se a venda era boa, dois anos depois chamava a atenção de editoras da Espanha. E, se tinha boa repercussão em Madri, uns dois ou três anos depois chegava à Buenos Aires. Entre uma coisa e outra, às vezes eu só podia ler um autor uruguaio uma década depois que havia escrito o livro. Agora a coisa é diferente, pois é “ao vivo”. Os integrantes desta geração, graças à internet, nutrem-se mais entre si do que outras gerações, quando os escritores estavam mais isolados. E a internet permite um contato mais estilístico do que geográfico. Ocasionalmente posso ter mais contato por afinidades com um escritor mexicano do que com um argentino que também mora, tal como eu, neste bairro, Boedo.

Estado – Como é seu processo de escritura?

Schweblin – Gosto de sentar para escrever com a ideia na cabeça. Para mim, é importante escrever o conto na menor quantidade possível de “sentadas”. Se escrevo de uma vez só, o texto tem uma energia intensa. E a maioria dos contos são feitos em uma ou duas sentadas. No máximo, três. Não acho que devo esperar pela inspiração. É preciso trabalhar na obra.

Estado – Borges dizia que, quando começava a escrever um conto, tinha claro em sua mente o começo e o final. Desta forma, ocupava-se em escrever o miolo. Como é teu sistema?

Schweblin – Às vezes tenho uma imagem que fica, fica e fica em minha cabeça…e tento não sentar para escrever até que não tenha o conto totalmente claro. Eu prefiro que o conto seja direto. Não gosto de bifurcações. Alguns escritores possuem facilidade em corrigir. Não é meu caso. Para mim não é fácil. Quando sento para escrever, preciso saber bem para onde vou. Eu escrevo quando tenho um final. O final é o conto.

OS RECOMENDADOS DA AUTORA

Estado – Quais seus contos preferidos?

Schweblin – De Borges, “O sul”; de Bioy Casares, “O outro céu”. E de Cortázar, “Axolotl”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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