O ordenhador da burguesia e o Freddy Krueger da esquerda (ou o ‘Jason’ do gasto público)
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O ordenhador da burguesia e o Freddy Krueger da esquerda (ou o ‘Jason’ do gasto público)

arielpalacios

26 de outubro de 2009 | 01h15

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O ex-guerrilheiro tupamaro Jose ‘Pepe’ Mujica reciclado em floricultor, não conseguiu vencer as eleições presidenciais deste domingo no Uruguai no primeiro turno. Mujica de acordo com as projeções de grande parte dos votos apurados, ficou em primeiro lugar, com 48% dos votos. Mas, desde a reforma constitucional de 1996, para vencer no primeiro turno é necessário obter metade mais um dos votos. Desta forma, Mujica terá que enfrentar o segundo colocado nas urnas, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco), que teve, segundo dados ainda não definitivos, 30% dos votos.

Ambos candidatos, no entanto, não despertam paixões no eleitorado. Ao contrário, enfrentam restrições em vários setores de seus respectivos partidos e na militância.

Mujica não conseguiu capitalizar os mais de 60% de popularidade de seu correligionário e presidente da República Tabaré Vázquez, um socialista light.

Lacalle teve menos votos que seu colega (e candidato a vice) teve nas eleições presidenciais de 2004, Jorge Larrañaga, que conseguiu ha meia década 34% dos votos (Lacalle, neste domingo, teria tido 30% dos votos).

O segundo turno, que promete ser acirrado, será no dia 29 de novembro.
O embate será entre o floricultor que deseja ‘ordenhar a burguesia’ e o ex-presidente que promete passar a ‘serra elétrica orçamentária’ no gasto público.

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Mujica e Manuela, sua ‘cachorra política’, no sítio do ex-guerrilheiro nos arredores de Montevidéu

O ORDENHADOR DA BURGUESIA
Uma cachorra de 16 anos de idade, com a perna dianteira esquerda amputada, corre alegremente ao redor de um septuagenário floricultor na periferia da capital uruguaia. A cachorra é Manuela, a mascote do ex-guerrilheiro tupamaro, ex-ministro da agricultura e senador José ‘Pepe’ Mujica, de 74 anos, candidato da coalizão de governo Frente Ampla à presidência do Uruguai. Mujica acaricia a fiel companheira e ressalta que é a única “cachorra política” da História de seu país.

A afirmação tem seus motivos, já que Manuela é presença frequente nas carreatas e comícios de Mujica. A imagem da militante canina vira-lata potencia o tom de informalidade deste ex-preso político da ditadura (1973-85). Mujica abomina as gravatas e despreza o protocolo. Mas, coloca limites em sua privacidade.

Esse foi o caso de uma visita inesperada que recebeu poucos dias antes das eleições. Um grupo de jornalistas estrangeiros, entre eles o Estado, apresentou-se na porteira de seu sítio de 34 hectares. Mujica disse categoricamente que não daria entrevistas, pois estava recluído para preparar-se para o dia das eleições.

No entanto, levou o grupo em uma breve visita guiada por seu estabelecimento, onde possui viveiros de flores e planta hortaliças. Mujica lamentou o aquecimento global, que causou uma seca intensa na região que afetou suas plantações.
A simples casa onde mora com sua esposa, a senadora Lucia Topolansky, também ex-guerrilheira, é um retrato da modéstia na qual o casal vive.

Os meios de locomoção de Mujica também ilustram seu espartano modus vivendi. Durante duas décadas teve uma lambreta que – segundo depoimento de amigos – “caía aos pedaços”. Mas, há menos de cinco anos, já no governo de Tabaré Vázquez, optou por incrementar sua forma de transporte e adquiriu um Fusca modelo 1982.

Se for eleito no segundo turno, Mujica, mais conhecido como ‘Pepe’, se transformará no primeiro ex-guerrilheiro que chegará à presidência de uma República na América do Sul.

Mujica nasceu em Montevidéu no dia 20 de maio de 1935, no seio de uma família de austera classe média . Na juventude militou por partido Nacional (Blanco). Mas, nos anos 60 optou pelos movimentos de esquerda e integrou o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros.

Rapidamente tornou-se um dos principais líderes do grupo que protagonizou as principais ações da guerrilha armada no Uruguai. Em 1969, durante algumas horas, os tupamaros tomaram a cidade de Pando. Durante confrontos com as forças de segurança, Mujica foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Preso várias vezes, na última etapa de detenção, o então guerrilheiro sofreu treze anos de cárceres, ao longo dos quais foi torturado

Em 1985, com a volta da democracia, recuperou a liberdade. Mujica aproveitou os novos tempos e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que posteriormente integrou a coalizão Frente Ampla, uma colcha de retalhos de sucesso que aglutina socialistas, comunistas e democratas-cristãos.

Mujica foi eleito senador e em 2005, com a posse do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da agricultura. Nesse posto, indicou – com uma metáfora pecuarista – que não pretende mais combater a “burguesia”, mas sim, usá-la a favor da economia: “não quero esmagar a burguesia…eu quero é ordenhá-la”.

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Lucía Topolansky, ex-guerrilheira, senadora e esposa de Mujica. Tudo indica que poderia ser a presidente do Senado. Quando participava das operações da guerrilha, no início dos anos 70, ia inexoravelmente maquiada.

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Lacalle é neto de caudilho histórico uruguaio

O FREDDY KRUEGER DA ESQUERDA, JASON DO GASTO PÚBLICO
Luis Alberto Lacalle ouviu falar sobre política desde que era um bebê mimado por seu avô, Luis Alberto de Herrera, um dos mais famosos caudilhos do partido Nacional (Blanco) do século vinte, que costumava embalá-lo sobre seus joelhos enquanto reunia-se com outros correligionários para discutir manobras políticas. Nesse ambiente embebido de debates, Luis Alberto cresceu e direcionou seus passos para seguir a trilha aberta pelo avô.

Desta forma, militou na política desde os 18 anos, quando afiliou-se formalmente no partido Nacional. Nos anos 70 foi detido pela ditadura durante umas poucas semanas. Liberado, integrou os movimentos de oposição à ditadura. Em 1978 a ditadura tentou envenená-lo com vinho, mas alertado por sua esposa, Julia Pou, não experimentou a bebida. Outro colega seu, que havia recebido uma garrafa similar, morreu imediatamente após provar o vinho.

Com a volta da democracia foi eleito deputado e senador. Em 1989 venceu as eleições presidenciais com 22,57% dos votos (na época, o país não contava com um segundo turno). Em 1990 tomou posse e deu início a um governo que causou polêmicas com tentativas de privatizações, tema tabu na sociedade uruguaia, acostumada à uma economia com forte presença estatal. Seu governo também sofreu diversas denúncias de corrupção.

Em 1999 tentou voltar à presidência. Mas, amargou terceiro lugar. Em meados deste ano venceu a conveção partidária. Aos 68 anos, espera impedir uma vitória da Frente Ampla no primeiro turno, e assim, no segundo turno, capitalizar os votos de seu partido e do partido Colorado, o terceiro colocado nas pesquisas.

Seus críticos o classificam de “político de direita”. Mas, ele se auto-define como um “nacionalista pragmático”. Lacalle, para diferenciar-se do governo do socialista Vázquez, promete “modernizar” o país. O ex-presidente sempre retorna ao palco da política local, após pausas ocasionais, tal como um Freddy Krueger da esquerda, à qual sempre persegue.
No entanto, para modernizar o país, explica sua modalidade com sua voz metálica e humor peculiar que o faz parecer mais ao personagem Jason: “vou passar a serra elétrica no gasto público”.

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Lacalle e ‘Julita’, sua esposa, famosa pelo caráter ‘duro’

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