O papa, o lobisomen e o ex-ditador
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O papa, o lobisomen e o ex-ditador

arielpalacios

24 de junho de 2013 | 20h13

Em clima de fantástica lua cheia nesta semana, uma postagem antiga, atualizada para esta ocasião, sobre os lobisomens e o ditador. E um papa.

Tradicionalmente, desde 1907, na Argentina uma mãe que dê à luz a seu sétimo filho homem possui o direito de solicitar ao presidente da República que seja o padrinho da criança. O motivo desse costume foi a superstição de que o sétimo filho masculino – tal como no Brasil – tornaria-se“lobisomem”, isto é, o homem-lobo (“lobizón” na Argentina). Ou, como diziam os gregos, lykánthropos(???????????).

O costume de pedir o apadrinhamento presidencial começou quando um casal de imigrantes alemães que havia residido na Rússia – Enrique Brost e Apolonia Holmann – teve seu sétimo filho homem, José Brost, na cidade bonaerense de Coronel Pringles. Os Brost pediram ao presidente José Figueroa Alcorta que fosse o padrinho. Eles argumentaram que na Rússia, país onde haviam morado, era tradição o czar apadrinhar a criança para quebrar o “feitiço” do sétimo filho. E, já que estavam na Argentina, pretendiam conseguir essa “garantia” por parte do presidente Figueroa Alcorta. O aristocrático presidente concordou.

Essa tradição, obviamente, acabou na Rússia com a Revolução de 1917, liderada por V.I.Lenin. Mas, sobreviveu na Argentina.

Gravura de Lucas Cranach, o velho, que mostra um homem-lobo que usa uma criança como ‘snack’. A ilustração é de 1512. Está na cidade de Gotha, no Herzogliches Museum.

A esperança dos pais de um sétimo filho homem, há mais de 100 anos, era que um apadrinhamento presidencial poderia suavizar os problemas decorrentes da suposta condição“licântropa” da criança e da discriminação social. Ser afilhado do presidente incluía o benefício de bolsas de estudos para toda a vida escolar e uma medalha de ouro. Os anos passaram e a lenda do lobisomem perdeu apelo popular. Mas, o costume do batizado presidencial permaneceu. E, em 1973 foi reforçado ao ser transformado em lei (número 20.843), pelo presidente Juan Domingo Perón, em seu derradeiro governo.

General Videla, ex-padrinho de batizado de Gastón Castillo. Longe de referências aos lobos, ostentava o felino apelido de “A pantera cor de rosa” (por sua magreza, jeito de caminhar e a sorte de salvar-se, tal como o desenho animado, de diversos atentados). Videla – “Senhora da vida e da morte” durante a ditadura – morreu em maio, de um ataque cardíaco, enquanto estava sentado no vaso sanitário de sua cela.

Em 1977, em plena ditadura, Josefa Castillo estava no quinto mês de gravidez quando seu marido, Roberto Castillo – que trabalhava em uma fábrica de frangos, sem militância política alguma – foi sequestrado pelos militares. Desesperada, tentou liberar seu marido.

Sem conseguir, meses depois, quando deu a luz a Gastón, seu sétimo filho homem, recorreu ao apadrinhamento presidencial com a expectativa de que isso salvaria a vida de seu marido. Ela pediu e obteve – com sucesso – que o poderoso ditador argentino, o general Jorge Rafael Videla, fosse o padrinho de seu filho, seguindo a tradição presidencial.

No entanto, apesar do batizado do filho, nada conseguiu sobre seu marido. Os ossos de Roberto – com sinais de ter sofrido torturas extremas – foram descobertos em 2009. Havia sido enterrado pelos militares de forma clandestina como um indigente no município de Avellaneda.

O rei Licaon, transformado por Zeus em homem-lobo. Licaon, diz a lenda, teria sido o primeiro lobisomem. Ilustração de nosso querido bracht-am-niederrheinense Hendrik Goltzius (1558-1617) para a “Metamorfose” de Ovídio.

Desde que os restos mortais de seu pai foram encontrados, seu filho Gastón tentou convencer os padres de sua paróquia a remover o general Videla de seu status de padrinho de batizado. No entanto, o jovem não teve sucesso. Um dos clérigos, indicando que remover o padrinho indigesto era mais complicado, propôs que recorresse a apostasia, isto é, que ele abjurasse do cristianismo. Mas, o jovem, muito religioso, negou-se.

Em outubro de 2010 Gastón pediu ao então cardeal Jorge Bergoglio, primaz da Argentina, que o ex-ditador fosse removido de seu status de padrinho, já que o vínculo religioso com Videla “fere, mortifica e infama o ato sagrado do batizado”.

O cardeal Bergoglio – que desde março deste ano é o papa Francisco – aceitou o pedido e determinou que o ex-ditador, autor do massacre de milhares de pessoas, não será mais o padrinho de Gastón. O jovem, que é praticante, estava livre para escolher um novo padrinho.

O escrivão do arcebispado de Buenos Aires, César Sturba, explicou que o código de Direito Canônico determina que entre as condições para ser padrinho de batizado está a de “levar uma vida coerente com a fé e com a missão que receberá”. O ex–ditador, acusado de sequestros, torturas e assassinatos, não cumpria os requisitos de “amor cristão”.

Videla, ex-“Senhora da vida e da morte”, morreu de um ataque cardíaco no dia 17 de maio sentado no prosaico vaso sanitário de sua cela no presídio de Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua pelo seqüestro, tortura e assassinato de milhares de civis durante a ditadura militar.

SIMBOLISMO – A medida determinada por Bergoglio possui grande valor simbólico, pois trata-se de uma rejeição da cúpula Igreja Católica a Videla, embora por vias não convencionais.

Durante a ditadura a Igreja esteve intensamente alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos centros clandestinos de detenção e pressionaram os prisioneiros a delatar, com o encobrimento da confissão, o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar.

Um dos clérigos envolvidos nas ações do regime militar, o capelão Christian Von Wernich, além de presenciar, protagonizou torturas nos centros clandestinos na província de Buenos Aires. Em 2007 Von Wernich foi condenado à prisão perpétua por 34 sequestros, 31 casos de torturas e sete homicídios.

No entanto, o jornalista Horacio Verbitsky, do jornal “Página 12”, acusa Bergoglio de ter colaborado com a ditadura, delatando dois jovens sacerdotes, que foram torturados. Bergoglio nega.

O nobel da paz argentino Adolfo Pérez Esquivel e o brasileiro frei Leonardo Boff, situados mais à esquerda que Verbitsky, defendem o papa, argumentando que não colaborou com o regime militar. Ao contrário, dizem, discretamente salvou pessoas de serem presas pelo regime.

A presidente Cristina Kirchner e seus ministros não fizeram menções sobre os argumentos de Verbitsky (embora o jornalista seja um aliado fiel do governo). Na contra-mão do jornalista, após dias a eleição do novo papa sem saber como posicionar-se perante Francisco, o governo Kirchner passou à estratégia de elogiar o sumo pontífice (e até declarar que Bergoglio é peronista).

MENINAS-LOBA – Embora a lenda do lobisomem não se aplique às filhas, em 2008 a presidente Cristina Kirchner assinou um decreto que determina que o privilégio do apadrinhamento do sétimo filho não se aplicará somente aos homens, mas também às mulheres.

No entanto, diversas parlamentares, entre elas, a deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, destacam que a lei, “atualizada” com a inclusão de mulheres (a sétima filha mulher), é anacrônica. “É um privilégio que, longe de ter fundamento em um mérito, nasce da superstição da licantropia”, sustenta.

Vaso grego do anp 460 a.C, que mostra a figura mitológica Dolon vestido com uma pele de lobo.

E falando em lobisomens, durante uma viagem noturna em caminhão, em 2005, enquanto ia de Urugaiana a Porto Alegre (era uma ampla reportagem sobre o estado da estrada entre B.Aires e São Paulo), tive uma peculiar conversa com o caminhoneiro. Este rapaz (que eu sabia que era supersticioso), depois de falar sobre a qualidade da estrada (asfalto, buracos, péssima iluminação), lançou uma pergunta inesperada:

Caminhoneiro – Mm…qual será a velocidade de um lobisomem?

Eu – Eeehhh… A velocidade de um lobisomem??

Caminhoneiro – Sim. Será que ele faz 100 kms por hora? Ou 120? Talvez 130! Semana passada o Ratinho ia mostrar um lobisomem no programa. Fiquei esperando, esperando, mas o lobisomem não foi. Aí o Ratinho falou que ele viria na semana que vem.

Eu – Äêh… (um “äêh” em minha família não quer dizer nada, mas é um elíptico e providencial monossílabo com o qual evitamos qualquer comprometimento quando nos perguntam ou comentam algo esdrúxulo; o “äêh” tem a vantagem de ser interpretado, por nossos interlocutores, como uma espécie de deixa para continuar com aquilo que estavam falando)

Caminhoneiro – Então…qual será a velocidade dele? Quanto tempo será que ele leva para ir daqui até Porto Alegre?

Eu (mantendo um tom neutro sobre o caso, mas seguindo o assunto) – Bom, depende, não é? Na estrada ou no campo?

Caminhoneiro – Como assim?

Eu – Claro, na estrada, tal como um veículo, um lobisomem deveria ir mais rápido. Mas, ao atravessar o campo, deve demorar mais, pois teria que passar por banhados, riachos, cercas de arame farpado…é um terreno no qual ele deve demorar mais, não é? E olha que é o Rio Grande do Sul, com planícies… imagina se ele tiver que atravessar o sul de Minas Gerais com as serras.

Caminhoneiro – Pois é…ia demorar mais, né?

Eu – E pela estrada não deve ir, pois senão todo mundo o veria.

Caminhoneiro – Claro!

Eu – Talvez na estrada ele poderia fazer uns 100 kms por hora… mas atravessando o campo, aqui, até Porto Alegre, talvez faria uma média de uns 60 kms, não?

Caminhoneiro – Pois é. De todas formas, ele ia ter que parar no caminho antes do amanhecer.

Eu – Por?

Caminhoneiro – É que com o raiar do sol ele deixa de ser lobisomem!

Eu – Concordo. Ser lobisomem é um atrapalho nos planos de viagem. Só pode fazer os trajetos de noite. Ele está bastante limitado.

Caminhoneiro – Pois é, coitado. Será que vão repetir o programa do Ratinho?

 

E para embalar esta noite de lua cheia, o clássico “Blue moon”, com Cybil Shepherd: 

E agora, na versão com Glenn Miller:

E ainda lua, a lua de “Clair de lune”, de Claude Debussy, com o genial David Oistrakh:

E para encerrar, esta versão de “Clair de lune” na frequência esquecida:

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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