O pecado (do aumento do preço) da carne
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O pecado (do aumento do preço) da carne

arielpalacios

08 de março de 2010 | 21h00

AVISO: Caras e caros leitores-comentaristas. Ontem, dia 8 de março, completamos um ano de blog! Póc! Póc! Póc! Fiuuummm-fiummm! (onomatopéia para fogos de artifício). Foram 125 postagens desde que iniciamos o blog. Isto é, uma a cada três dias. E graças ao blog, pude conhecer vários de vocês. Alguns pelo intercâmbio de opiniões nos comentários, outros por mail, e vários pessoalmente. Esse intercâmbio foi um imenso deleite que continuará ao longo deste ano!

E também lhes aviso que desde ontem também estou em férias. Por isso, ao longo deste mês tentarei colocar os comentários de vocês a cada 4 ou 5 dias. E, na medida do possível, irei respondendo.

Agradeço a vários comentaristas a preocupação que expressaram durante minha cobertura do terremoto no Chile!

Abraços a todos,

Ariel

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Vaca é heroína, açougueiro é galã, e governos evitam aumentos do preço da carne para não irritar eleitorado

 

blog1vinhetasmarca1“A carne bovina é a única droga que qualquer governo argentino jamais proibirá”. A frase, do ensaísta Alan Pauls, ilustra a paixão de seus compatriotas pela carne bovina e o risco que corre qualquer governo em limitar o consumo desse quitute. A carne, para os argentinos, é mais do que um alimento, afirmam os especialistas, que consideram que é um modus vivendi dos habitantes deste país, que devoram 70 quilos per capita por ano, quantidade que os coloca com ampla vantagem na pole position mundial de consumo, acima do Uruguai e EUA. O volume também é significativamente superior ao do Brasil, onde a ingestão é de 36 quilos anuais (o Estado mais “carnívoro” da federação é o RS, com 46 quilos por ano).

Mas, a carne está sob perigo de escassez. No último ano a produção caiu em 25% por causa do confronto dos pecuaristas a presidente Cristina Kirchner. A queda foi agravada por uma inédita seca que assolou o país em 2009 e a falta de ajuda governamental aos produtores. Estes entraram na mira da presidente Cristina, que os acusa de “golpismo”.

O debate sobre a carne está ocupando há semanas as manchetes dos jornais portenhos e é assunto constante nos programas de TV. As associações ruralistas afirmam que a terra do baby beef depararia-se em 2011 com a necessidade de importar carne, pela primeira vez na História. Só nos últimos três anos o preço do quilo da carne cresceu em 180%. Só nos primeiros dois meses deste ano houve uma nova escalda, chegando a um aumento de 35%. O governo, no entanto, afirma que o preço só aumentou 4,5%.

O aumento do custo do quitute nacional irrita cada vez mais os argentinos com a presidente Cristina, colaborando na queda de sua popularidade. Ela reage colocando a culpa nas “excessivas chuvas” e na “cobiça” dos pecuaristas. Recentemente a presidente tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribundo-lhe poderes afrodisíacos que ela própria teria comprovado empiricamente com seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, dois fins de semana antes deste passar mal e ser operado de uma obstrução na carótida.

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Sr. Príncipe, açougueiro-mor do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, prepara-se para cortar um substancial pedaço de bovino falecido

VEGETARIANOS – Os preços sobem, as recessões assolam o país, e os governos tentam desviar o consumo. Mas, nada disso consegue evitar que os argentinos continuem aferrados à carne. “Quando os preços sobem, as pessoas começam a procurar cortes de carne de menor qualidade…mas sempre comem carne!”, afirmou ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938. Terceira geração de açougueiros (seus avós foram açougueiros do conde de Romanones, ministro do rei Alfonso XIII da Espanha) – enquanto afia duas facas como se fossem um sabre – Príncipe sustenta: “neste país, os vegetarianos são uma raridade”. As autoridades reforçam a ideia. Segundo o Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina, “os argentinos são carnívoros por excelência”. Em 2007 o então presidente Néstor Kirchner tentou conter a escalada de preços generalizada. O produto mais visado pelas medidas foi a carne. Kirchner, para reduzir o preço aos consumidores, proibiu as exportações do produto, de forma a redirecioná-lo ao mercado interno.

VACA, A HEROÍNA – Ao contrário de outros países, onde as crianças na escola primária escreviam a redação “Minhas férias”, os alunos argentinos redigiram durante décadas “La Vaca” (A Vaca), uma apologia dessa heroina quadrúpede que propiciava à Argentina riquezas e prestígio mundial por seus baby beefs.

A presença da carne está presente também na gíria portenha, especialmente para designar atração sexual. Esse é o caso da expressão “que lomo!” (que lombo!), para referir-se ao “apetitoso” corpo de um homem ou mulher. Além disso, a presença da carne na cultura também é evidente nas telenovelas, em várias das quais os protagonistas galãs interpretavam açougueiros. No início desta década o churrasco foi o centro do talk show “Um aplauso para o churrasqueiro”, onde o apresentador, Roberto Petinatto, entrevistava seus convidados enquanto preparava os sanguinolentos nacos de carne que posteriormente eram consumidos enquanto respondiam as perguntas.

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A vaca raivosa (La vache enragée) de Toulose Lautrec, cartaz de 1896

‘CARNE, NA ARGENTINA, NÃO É CONVENIÊNCIA, MAS SIM CULTURA’

 Juan José Becerra não somente ostenta alusões bovinas em seu sobrenome (becerra é ‘bezerra’ em espanhol). Ele também é autor de “A Vaca”, ensaio que disseca a importância econômica, gastronômica, política, cultural e social dos bovinos na Argentina.

 Estado – Qual é o espírito do clássico da escolar, a redação “A Vaca”,?

Becerra – O patrão formal dessa redação não obedecia à descrição da vaca como unidade industrial, o que ela verdadeiramente é, mas sim, uma descrição sentimental na qual a pobre besta aparecia como prodígio de bondade. A ideia era que a vaca nos ‘dava’ coisas, como a carne, couro, etc.

Estado – A escassez de carne pode irritar o eleitorado com um governo aqui?

Becerra – Não falaria em ‘eleitores’, mas sim em ‘comensais’. Há uma conexão entre as duas categorias. “O Matadouro”, primeiro texto narrativo de nossa literatura trata de um grupo de pessoas que mata um adversário político no meio de uma proibição da carne em 1830. Pelo menos, na literatura, os argentinos matam se ficarem sem carne bovina. É que comer carne na Argentina não está indicado por uma dieta de conveniências, mas sim pela cultura. 

Estado – A carne está tão presente até rendeu telenovelas sobre o assunto…

Becerra – Uma comédia de TV, “De carne somos”, era protagonizada por um açougueiro. Os açougues foram em nossas telas cenários cômicos ligados ao sexo. Em vários filmes aparecem os churrascos como área de ‘descanso narrativo’, mas também como verdade sociológica de um país cujos habitantes volta e meia fazem a pergunta “e quando fazemos um churrasco?”. Em nosso horizonte pode ser que não exista um destino de grandeza…mas sobram churrascos!

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