O sequestrador e seu refém de Saturno (como exasperar um sequestrador virtual)
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O sequestrador e seu refém de Saturno (como exasperar um sequestrador virtual)

arielpalacios

16 de fevereiro de 2010 | 22h00

marte
Pelos anéis de Saturno! Nesta foto, o ator Ray Walston, emblemático protagonista de “Meu marciano favorito”. Bom, não é de Saturno…mas é que não havia série alguma com alguém proveniente desse simpático e gaseoso planeta.
maomenorsd

Nos últimos três anos uma nova modalidade de extorsão mista com virtual sequestro começou a crescer na Argentina (que também é aplicada em outros países da região, embora aqui seja implementada com particular lábia).
A sequência é assim:
– Um delinquente busca ao léu um nome em uma lista telefônica e telefona para essa pessoa. Quando a pessoa atende, apresenta-se como representante da Polícia, bombeiros, médico de um hospital público, entre outras. Logo, explica que um ‘parente’ da pessoa à qual telefona sofreu um acidente e que o ‘acidentado’ pediu que o avisassem.

Normalmente, a pessoa que atende o telefone fica preocupada. Ou, entra em desespero se marido/esposa, filho/filha, etc, não está em casa.

Nesse instante costumam ocorrer uma de duas vertentes:
a) A pessoa que recebeu a ligação pergunta, por exemplo: “oh meu Deus! É a Efigênia, minha esposa?”. Nesse caso, o bandido confirma: “sim, é ela!”

b) O delinquente pergunta rápido: “Qual é o nome de sua esposa (ou filho)?”. E a pessoa do outro lado da linha, nervosa, responde citando o nome do parente. O delinquente aproveita a deixa, e diz: “sim, confere, é ela que está aqui ferida”.

A seguir, o delinquente muda o tom e diz que a pessoa em questão não está ferida..faz uma pausa dramática, e acrescenta: “nós a sequestramos e queremos um resgate!”
Pânico do outro lado da linha.

Logo, o delinquente dá as instruções para a vítima, para que esta entregue dinheiro em algum lugar (ou pessoalmente ou que jogue o dinheiro em uma bolsa em algum lugar).

A pessoa, ingenuamente, segue as instruções, preocupada pelo destino de seu parente, e deixa/entrega o dinheiro.

Bom, nesta terça-feira à tarde, eu fui alvo de uma ligação telefônica dessa categoria (da qual consegui gravar uma parte).
O diálogo, segundo uma amiga espanhola à qual contei tudo imediatamente após o encerramento da conversa com o sequestrador, foi “almodovariano”…

handrdDramatis Personae:
O sr. Sequestrador (homem de voz levemente aguda, de uns 50 anos…tinha voz de pessoa muito magra, com ligeiro pigarro no fundo da garganta…e até o imaginei narigudo)
Eu (vosso blogueiro instalado na Rainha do Rio da Prata, a.k.a., Buenos Aires)

handrdCenário
Meu escritório, em casa, às 14:00 horas

handmaobsAto 1
Telefone toca. Eu atendo. É um senhor que posteriormente se auto-identificará como o sequestrador.

Sr. Sequestrador: Boa tarde, é o sr. Ariel Palacios?

Eu: Sim, sou eu.

Sr. Sequestrador: Olhe, sou da delegacia…e há um parente seu que sofreu um acidente, teve um ‘problema público’.

Eu: (pensando que rebuscada era a expressão “problema público”…) Um parente meu?

Sr. Sequestrador: Sim…um parente seu..acontece que uma camionete bateu em dois carros e atropelaram quatro pedestres…e uma dessas pessoas pediu que a gente entrasse em contato com o sr…

Eu: (pensei “é um golpe, vamos testar!” e simulei uma voz angustiada) Meu Deus! Não será por acaso minha tia-avó Eva? É Eva Morales que foi atropelada??? Não, por favor, não diga que foi ela!! (aviso aos leitores: não tenho nenhum parente ‘Morales’ e menos ainda uma tia ‘Eva’)

Sr. Sequestrador: Espere, deixe olhar a lista…sim, sim, é ela, Eva Morales!

Eu: (pensando na interpretação de Shelley Winters quando fica desesperada em “Posseidon”, a velha versão, claro) Não, não!!! E como ela está?

Sr. Sequestrador: Está bastante ferida…

Eu: Não..não (simulando que balbuciava nervoso)…não entendo..o que ela estava fazendo na rua com sua cadeira de rodas??

Sr. Sequestrador: (pego de surpresa com a notícia sobre a invalidez de minha tia-avó) Errr…ehhh…bem, pois é…

Eu: Eu sempre falei para ela não atravessar a rua em cadeira de rodas!

Sr. Sequestrador: eehhh…

Eu: Eu sempre dizia à minha tia para não fazer isso! (soluçava, na sequência…aquele soluço mix de aspirada breve)

Sr. Sequestrador: bom, sr. Palacios…

Eu: (falando repentinamente, interrompendo meu interlocutor, como se tivesse lembrado de algo) Não, meu Deus! Por acaso ela estava com meu tio-avô, Victor Hugo Morales, o marido dela?

eleanor2
Poderia ser minha suposta tia-avó Eva Morales. Mas, trata-se de Eleanor Roosevelt, viúva
do presidente Franklin Delano Roosevelt. Foto em Calgary, Canadá, 1949

vinhetas44
victor
Victor Hugo Morales: excelente jornalista esportivo e um grande connaisseur de óperas. E não é meu tio-avô

Aqui faço uma breve pausa para explicar aos leitores-comentaristas: o uruguaio Victor Hugo Morales é um dos principais jornalistas da Argentina. Elegante comentarista esportivo, especialista (genial) em ópera (ele apresenta programas de ópera e futebol), é famoso no público argentino.
Voltamos ao diálogo…

vinhetas44

Sr. Sequestrador: Espere, deixe ver os nomes da lista de feridos…sim, Victor Hugo, aqui está…

Eu: Não! Eu sempre dizia a ele que não levasse minha tia-avó na rua na cadeira de rodas! Ela tem 85 anos…ele é bem mais jovem…(na vida real, Victor Hugo Morales tem 63 anos)…o sr. sabe, Victor Hugo Morales, o famoso jornalista…

Sr. Sequestrador: (vacilando) Sim, sei…o jornalista!

Eu: Estou muito, muito preocupado! Como eles estão?

Sr. Sequestrador: Um minuto! Espere. Tenho que desligar. Já lhe telefono!

handmaobsAto 2
Desliguei e achei que o cara não telefonaria de novo. “Com certeza percebeu que eu havia percebido tudo” com as delirantes alusões a Evo/Eva Morales e o Victor Hugo Morales.
No entanto, ele era mais ingênuo do que eu imaginava, pois voltou a telefonar!
Claro, que a pausa feita entre uma ligação e outra serviria para que a vítima ficasse mais preocupada e atendesse o telefone com mais angústia do que na primeira fase.
Retomamos:

Sr. Sequestrador: Sr. Palacios….

Eu: Sim, sou eu, estou muito preocupado! Há algum número onde possa lhe telefonar

Sr. Sequestrador: O sr. tem número de celular?

Eu: Não, não tenho celular…estou muito preocupado!

Sr. Sequestrador: O sr. mora na Avenida (XXX), número (XXX)?

Eu: (vendo que ele havia visto meu endereço na lista telefônica, levei ele para o outro lado da cidade) Não, não, esse era o endereço antigo. Agora eu moro na rua Calderón de la Barca, número 1358, terceiro andar, apartamento “D” de “dedo”!

Sr. Sequestrador: Como? Repita.

Eu: Rua Calderón de la Barca, número 1358, terceiro andar, apartamento “D” de “dedo”, no bairro de Villa Luro!

Sr. Sequestrador: É uma casa?

Eu: Não, é um prédio pequeno! Estou muito preocupado!

Sr Sequestrador: Tem varanda sobre a rua?

Eu: Não, é fundos…mas qual é o problema de ser fundos e não de frente para a rua? Mas de qual delegacia o sr. é?

vinhetas44
Pequeno intervalo especulativo:
Para quê o sr. Sequestrador queria uma varanda? Especulando com vários amigos após o telefonema (amigos cujo hobby são os casos policiais), percebemos que a varanda servia para o seguinte propósito:
– O sequestrador pede que a pessoa jogue uma bolsa com dinheiro desde a janela, na hora que um carro ou motocicleta passa, e assim, eles podem fugir com o pagamento do resgate.
Voltando ao diálogo:

vinhetas44

Sr. Sequestrador: Por acaso o sr. é muito ligado a Victor Morales?

Eu: Ele é meu tio! Victor Hugo Morales, o famoso jornalista!

Sr. Sequestrador: Quero que leve as coisas com calma…ele é o marido de sua avó?

Eu: É o marido de minha tia-avó, não de minha avó, de minha tia-avó!

gorevidal
O escritor Gore Vidal, em seu livro “Juliano”, sobre Juliano o Apóstata (imperador bizantino, 332-363 dC), indica que para ser alguém ser convincente é preciso exagerar em sua forma entediante e prolixa. Grande Gore! Foto de Gore Vidal na Wikipedia

Sr. Sequestrador: (com voz exasperada de ouvir tanta explicação genealógica), sr. Palacios, sr. Palácios…

Eu: (falando alto) Mas como eles estão???

Sr. Sequestrador: Estão em um…em um “problema público”, me compreende?. Olhe, estamos seguindo o sr. Victor Hugo Morales há 15 dias, e o sequestramos. (aí, sua voz fica mais agressiva e fala mais rápido). E se você desliga o telefone, vamos matá-lo, Ariel. Fica claro?

Eu: Ai, ai, ai…! (pausa) Que maravilha! Obrigado! Vocês fariam um grande favor para mim!

Sr. Sequestrador: (vacila) …ehhh…como?? Quer que o matemos??

Eu: Sim, assim ganho a herança!

Sr: Sequestrador: Herança? Quer que a gente o elimine?

Eu: Claro, sim! E minha tia-avó de 85 anos também.

Sr Sequestrador: …Bom…mas você vai ter que pagar.

Eu: Pagar? (e aí pensei: “se ele primeiro ameaçou matar…agora quer que eu pague para que o matem??)

Sr. Sequestrador: Se quer que a gente elimine ele, vai ter que pagar…quanto você tem aí?

Eu: Não tenho nada. Ele tem todo o dinheiro, o sr. sabe, ele é o famoso jornalista

Sr. Sequestrador: Sim, por isso mesmo o sequestramos! Quanto você tem?

Eu: Nada, não tenho dinheiro. E há um problema adicional…Victor Hugo Morales, na verdade, não é jornalista…ele veio do planeta Saturno…e é um extraterrestre muito perigoso!!!!

Sr. Sequestrador: (bufa irritado)

vinhetas44

Nesse instante, após uma pausa reflexiva, o sr. Sequestrador desligou. Ele até havia acreditado que Victor Hugo Morales era casado com minha hipotética tia-avó Eva Morales, bem mais velha do que ele. E além disso, uma versão feminina do presidente Evo Morales.
E de quebra, ainda havia citado a rua Calderón de la Barca, que originalmente homenageou o grande escritor espanhol, autor de “A vida é sonho” (e que sim, existe uma rua mesmo no hiper-pacato bairro de Villa Luro com esse nome, mas duvido que ele soubesse disso).
Mas, o sequestrador só percebeu que eu é que estava fazendo ele de palhaço quando ressaltei que Victor Hugo Morales tinha passaporte de origem saturnina.
Com certeza ele não acredita em vida fora de nosso planeta…

Ora bolas, pensei: se governos saturam nossa paciência com discursos absurdos, se empresas privatizadas (e estatais) vivem enganando a gente, se temos que aguentar calores tropicais (sem praias por perto em meu caso) por causa do aquecimento global, além da lerdeza kafkiana de repartições públicas (entre uma montanha de outras coisas), por qual motivo desperdiçaria a chance de fazer uma deliciosa catarse gozando da cara de um delinquente?

GLOSSÁRIO SOBRE CRIMINALIDADE E AFINS
Chorro: Ladrão. Pode ser usado para designar tanto o batedor de carteira como para o ladrão de alto nível. Exemplo: “El diputado Juan Atilio Piantadini es un gran chorro” (o deputado Juan Atilio Piantadini é um grande ladrão).
Ou, como no tango “Chorra!”, de Enrique Santos Discépolo, cuja letra dizia: “Hoy me entero que tu mamá / noble viuda de un guerrero / fue la chorra de más fama / que ha pisado la Treinta y Seis” (Hoje fico sabendo que tua mamãe / nobre viúva de um guerreiro / foi a ladra de maior fama / que colocou os pés na Trinta e Seis).
A Trinta e Seis é uma das delegacias de Buenos Aires.

Cuentero: Aquele que faz um ‘cuento’ (conto). Quem conta uma falsidade para enganar outrem. Picareta com lábia.

Cana: Policial

Yuta: Policial

FRASE DOS ‘CUENTEROS’
“Cada día nace un otario, la cuestión es encontrarlo” (Cada dia nasce um otário, a questão é encontrá-lo)

juliano
Volta e meia é batuta fazer catarse inspirando-se no imperador Juliano. Moeda com efígie do mestre na arte da defesa fazendo-se de entediante, cunhada na cidade de Antioquia

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