O tamanduá Arturo, Schwarzenegger os 5 presidentes em 13 dias (Uma década de “El Colapso”, parte 4, a última da série)
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O tamanduá Arturo, Schwarzenegger os 5 presidentes em 13 dias (Uma década de “El Colapso”, parte 4, a última da série)

arielpalacios

03 de dezembro de 2011 | 21h45

Cinco presidentes em 13 dias. Assim foi o carrossel presidencial argentino entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002.

Milhões de argentinos surpreenderam-se no dia 21 de dezembro do ano 2000 quando viram – ao vivo – que o sisudo presidente Fernando De la Rúa, que participava de um programa de auditório de TV como convidado especial para tentar melhorar sua imagem pública, era segurado drasticamente pela gravata e na lapela do terno por um jovem militante de esquerda, Ernesto Belli, que havia invadido o palco. Estupefatos, os guarda-costas de De la Rúa ficaram imóveis enquanto o presidente era sacudido. De la Rúa – que tampouco conseguiu reagir – foi salvo pelo “Tamanduá Arturo”, um boneco de cor lilás simulando ser um tamanduá, do programa de auditório do apresentador Marcelo Tinelli.

Após a constrangedora cena, De la Rúa – embora nervoso – conseguiu manter a pose e conversou durante alguns minutos sobre política com Tinelli. Depois, cumprimentou seu imitador, Freddy Villareal, que havia popularizado a sarcástica imagem de um De la Rúa em constante estado de distração. Na sequência, o presidente pareceu emular sua paródia: sem saber por onde sair, caminhou erraticamente pelo palco, até encontrar a saída do palco. De la Rúa superava De la Rúa.

O tamanduá Arturo, guarda-costas involuntário do presidente da República Argentina em dezembro de 2000.

Neste vídeo do Youtube, parte dos peculiares incidentes do programa de Tinelli há 11 anos.

Nos 364 dias seguintes a agonia da imagem presidencial agravou-se de forma acelerada, até levar à renúncia de De la Rúa.

Em apenas 13 dias – entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002 – o “sillón de Rivadavia” (a “cadeira de Rivadavia”, denominação da cadeira presidencial) teve cinco ocupantes: o próprio De la Rúa, em seu último dia no poder, o presidente do Senado Ramón Puerta, o governador de San Luis Adolfo Rodríguez Saá, o presidente da Câmara de Deputados Eduardo Camaño e o senador Eduardo Duhalde. Essa sequência acelerada de sucessores enfraqueceu mais ainda a já debilitada figura presidencial.

De la Rúa e suas trapalhadas, além da permanente distração, eram um prato cheio para os caricaturistas. Nik, o autor da charge acima, enfurecia De la Rúa (enquanto os leitores deliciavam-se).

SCHWARZENEGGER – Ele interpretou inúmeros personagens que, sem temor, podiam enfrentar um destacamento soviético completo até um irascível monstro do espaço sideral. Mas a dimensão da crise argentina chamou a atenção do ator austro-americano Arnold Schwarzenegger, que declarou-se impressionado com o caos que imperava neste país.

Durante uma entrevista do programa “Siempre Listos” (“Sempre prontos”) do Canal 13, de Buenos Aires, o ex–mister Olímpia deixou de lado o anúncio de seu novo filme e comentou inesperadamente: “aah…Argentina, país confuso, não? É ali que toda hora vocês mudam de presidente?”.

Com a confirmação constrangida do entrevistador e depois de perguntar se já havia um outro novo presidente, em relação aos quatro homens que passaram pela Casa Rosada desde a renúncia de Fernando De la Rúa a meados de dezembro, Schwarzengger emendou: “ali, quando um presidente vai tomar posse, em seu discurso já anuncia que está ali vindo o próximo para ocupar o cargo”.

Falando em Argentina e Schwarzenegger, o ex-Mister Olympia dança um tango, o “Por uma cabeza”. Schwarzenegger pode ser péssimo dançarino, mas a curvilínea Tia Carrere, havaiana descendente de chineses, filipinos e espanhóis vale a cena. A cena do tango, aqui.

A RECUPERAÇÃO DO PODER PRESIDENCIAL – Em maio de 2003 Kirchner foi eleito com apenas 22% dos votos, o nível mais baixo em toda a História argentina. Os cientistas políticos na época destacavam que a figura presidencial estava irremediavelmente comprometida. No entanto, em poucos meses o hiperativo Kirchner começou a reconstituir o poder presidencial. Quatro anos depois colocou sua própria mulher, Cristina, como candidata à sucessão. Em outubro passado a presidente obteve sua reeleição.

“Será um hiperpresidencialismo exacerbado, com o agravante de que a oposição não a enfrenta”, afirma Marcos Novaro, sociólogo e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), analisando o cenário que desponta no segundo mandato de Cristina Kirchner.

“O casal Kirchner possui o mérito de ter fortalecido a figura presidencial, que estava muito desgastada. Mas, evidentemente, foram além do previsto e hoje a presidente Cristina tende à hegemonia. A oposição, enquanto isso, está atomizada”, afirmou ao Estado o analista Silvio Santamarina, colunista da revista “Notícias”.

Tamanduá, em gravura de 1902.

MESMOS POLÍTICOS, CARGOS DIFERENTES – “Que se vayan todos!” (Que todos vão embora!) era o grito das manifestações de dezembro de 2001 e nos primeiros meses de 2002, quando a população pedia a remoção total dos integrantes da classe política da época. Um punhado de senadores e deputados viram suas carreiras afundar em meio às marchas de protesto e nunca mais se recuperaram. Um dos políticos que afundou totalmente foi De la Rúa, de nula influência política há uma década.

No entanto, a maioria da classe política permaneceu a mesma. As únicas modificações foram as trocas de postos: senadores na época que agora são deputados, prefeitos que tornaram-se governadores; governadores que foram eleitos senadores. O gabinete da presidente Cristina Kirchner – senadora e esposa de governador na época de “El Colapso” – é composto, em sua imensa maioria, por pessoas que já estavam na política antes da crise.

“A maior parte da classe política continua a mesma. Não houve uma grande renovação, tal como pedia a população. E nesse grupo dos políticos de sempre está o caso do próprio casal Kirchner, que até promoveu uma reforma constitucional em sua província, Santa Cruz, para permitir a reeleição indefinida de governador”, afirmou ao Estado a senadora socialista Norma Morandini, um dos poucos casos de políticos atuais que iniciaram sua carreira após a crise de 2001.

 

E a versão de “Por una cabeza” com Carlos Gardel, em filme da Paramount, aqui.

 

Osvaldo Pugliese, um dos emblemas do tango argentino.

E saímos da crise de 2001-2002 para lembrar que ontem, sexta-feira, o compositor Osvaldo Pugliese teria soprando 106 velinhas.

Mas Pugliese – Made in Villa Crespo – infelizmente partiu há 11 anos.

Ateu e militante do Partido Comunista, dirigia uma orquestra musicalmente impecável, na qual todos os músicos tinham o mesmo salário (ele dizia que “o trabalho deve ser uma dignidade pessoal e não um castigo”). Pugliese, em contrapartida, exigia um rígido código dentro do grupo, que estabelecia horários firmes nos horários e ensaios.

Atualmente Pugliese uma espécie de amuleto popular.

Sua imagem é usada como “santinho” para proteger do mau-olhado, etc. Ele transformou-se em “San Pugliese”.

Os músicos, especialmente, o usam para obter boa sorte. Outros artistas idem. Nos camarins, sua imagem é freqüente.

Alguns, antes de um show, diziam “merde”. Nos últimos anos também dizem “Pugliese, Pugliese”.

Quem quiser, pode imprimir a imagem abaixo e colocar em algum lugar que sirva para essa função.

Aqui, mais detalhes da vida de Pugliese: http://es.wikipedia.org/wiki/Osvaldo_Pugliese

E uma de suas composições mais famosas, “La Yumba”, aqui.

E sua interpretação da valsa “Desde el alma”, aqui.

 

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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