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O vulcão chileno, as súplicas mapuches, o secretário-geral coreano, o buzunga portenho e os alfajores santafecinos (e o colapso agropecuário patagônico)

arielpalacios

14 de junho de 2011 | 13h13

Vulcão e quitutes: graças ao Puyehue, secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, saboreia alfajor santafecino em posto de gasolina à beira da estrada.

Dezenas de índios mapuches – os habitantes originários da Patagônia – postaram-se em diversas ocasiões ao longo da última semana à beira do lago Nahuel Huapi, nas vizinhanças de Bariloche, na província de Rio Negro, para suplicar ao Pillán de Puyehue – o espírito que, segundo as crenças religiosas desse grupo, reside no vulcão Puyehue – que acalme sua “ira” e pare de emitir as cinzas que estão soterrando milhares de hectares no sul da Argentina.

Enquanto isso, os habitantes de diversas cidades da Patagônia pedem ao governo da presidente Cristina Kirchner urgência no envio de ajuda federal às áreas afetadas. No entanto, na semana passada a própria presidente Cristina, em discurso na TV, sustentou que os efeitos das cinzas no cotidiano dos argentinos era “algo psicológico”. Nesta segunda-feira, a presidente voltou a referir-se ao assunto ao afirmar que “é impossível controlar o clima, sequer com decretos presidenciais”. Depois, ironizou: “não temos nada contra os chilenos, mas as cinzas são deles”.

Mas, apesar das brincadeiras de Cristina, as cinzas impediram que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, pudesse desembarcar em Buenos Aires. O secretário-geral teve que aterrissar no aeroporto de Pajas Blancas, em Córdoba, e percorrer em um ônibus da portenha companhia Chevallier, fretado pela organização internacional os 713 quilômetros que separam a segunda maior cidade do país da capital argentina.

Ban Ki-Moon teve que parar em um posto de gasolina na estrada, nas vizinhanças da cidade de Rosario, para tomar o café da manhã. Acompanhado por sua mulher, Yoo Soon Taek, o diplomata coreano, que celebrava seu sexagésimo-sétimo aniversário, celebrou a data de forma prosaica na lanchonete do posto com um cafezinho e um típico alfajor santafecino (da província de Santa Fe).

DESMORONAMENTO – A erupção do vulcão, localizado do lado chileno da fronteira, a apenas 90 quilômetros da cidade de Bariloche, em Rio Negro, e de Villa La Angostura, do lado da província de Neuquén, também provocou um desabamento sobre a estrada nacional número 231, no passo Cardeal Samoré, na fronteira da Argentina com o Chile, a 10 quilômetros de distância do Puyehue.

A avalanche de cinzas e material vulcânico – arrastadas pelas fortes chuvas que assolaram a região meridional da Cordilheira dos Andes – empurrou uma faixa de 66 metros da estrada a um precipício.

“Foram toneladas de pedras, cinza e água”, explicou Ernesto Arriaga, porta-voz da Departamento Nacional Viário (DNV).

Enquanto a situação dos habitantes da região complicava-se a cada dia, neste domingo a província de Neuquén realizou eleições para governador. No entanto, devido à situação precária de várias cidades, somente 30% dos neuquinos compareceram às urnas. O governador Jorge Sapag – que foi reeleito – recebeu intensas críticas por parte da oposição e de vários setores da população, que o acusaram de ter distribuído em seu nome alimentos da Cruz Vermelha nas áreas afetadas pelas cinzas com fins eleitorais.

As novas emissões de cinzas por parte do Puyehue levaram as autoridades em Bariloche – localizada a 90 quilômetros do vulcão – a suspender novamente as aulas escolares. Perto dali, em Villa La Angostura, a apenas 40 quilômetros do Puyehue, as aulas estão suspensas desde a semana passada.

Índios Mapuches rezam para que Pillán de Puyehue acalme sua ira.

AGROPECUÁRIA E ESTRADAS – Na província de Chubut, ao sul de Rio Negro, estavam em risco de vida 750 mil ovelhas, já que as pastagens estavam cobertas por dez centímetros de cinzas. O abastecimento de água para os animais também estava comprometido, já que as cinzas cobriam os lagos e riachos da região. Antes da catástrofe do Puyehue a província havia perdido um milhão de ovelhas nos últimos quatro anos por causa das secas.

Depois de uma semana de intensos pedidos de ajuda por parte do setor agropecuário da Patagônia, o governo Kirchner anunciou ontem que declarará “emergência nacional” para o setor. O anúncio foi realizado pelo secretário-executivo de Emergência e Desastre Agropecuário Federal, Haroldo Lebed, que declarou que as províncias afetadas pelas cinzas do Puyehue já padeciam problemas por três anos acumulados de seca na região meridional do país.

O diretor da Defesa Civil de Chubut, Evaristo Melo, fez uma avaliação sombria sobre as próximas semanas: “as cinzas vieram para ficar, portanto, será preciso acostumar-se a elas”.

Mas, de forma geral o governo da presidente Cristina Kirchner costuma ser hermético quando trata-se de catástrofes ambientais e seu impacto na sociedade. Desta forma, ontem, quando o Estado telefonou à Comissão Nacional de Regulação do Transporte, as autoridades consultadas indicaram que não contavam com “dado estatístico algum” sobre o aumento do volume de transporte nas estradas no território argentino, devido à suspensão do tráfego aéreo em grande parte do país.

Na Secretaria de Transporte, as fontes consultadas pelo Estado tampouco puderam propiciar informações sobre os eventuais planos de contingência para situações de catástrofe ambiental.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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