Obituário: Felipe, o dentucinho simpático, deixa este mundo (parte o Felipe de carne e osso, fica o Felipe de tinta nanquim)
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Obituário: Felipe, o dentucinho simpático, deixa este mundo (parte o Felipe de carne e osso, fica o Felipe de tinta nanquim)

arielpalacios

11 de maio de 2011 | 20h58

 

Os dois “Felipes”: à esquerda, o amigo e fonte de inspiração de Quino. À direita, o amigo de Mafalda.

Jorge Timossi, fonte de inspiração do personagem Felipe, criado nos anos 60 pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado, a.k.a. Quino, faleceu de um enfarte do miocárdio em Havana, Cuba, aos 75 anos de idade.

Timossi foi grande amigo de Quino desde os anos 50, quando os dois conheceram-se em Buenos Aires.

Quino, que costumava dizer que Timossi tinha “dois engraçados dentes de coelhinho”, inspirou-se no amigo para fazer o desenho – e a personalidade – do amigo e vizinho da protagonista da tirinha Mafalda.

Felipe debutou no mundo da tinta nanquim em 1965. No dia 19 de janeiro daquele ano apareceu pela primeira vez na tirinha, tornando-se uma das principais figuras de Mafalda.

O Felipe da vida real – Timossi, que era jornalista – anos antes havia ido ao Rio para ocupar o posto de correspondente da agência cubana Prensa Latina. Ali chegou em 1959.

Em 1961 Timossi foi à Cuba, que fervilhava em seus primeiros anos de mudanças protagonizadas por Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara Lynch de la Serna. O amigo de Quino transformou-se em um ousado correspondente de guerra para a Prensa Latina.

Em setembro de 1973, cobrindo o golpe militar do general A.Ramón Pinochet, conseguiu falar com o presidente Salvador Allende por telefone pouco antes de seu suicídio no meio do bombardeado Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile.

Felipe, leitor de “El llanero solitario” (um herói do far-west), jogador de xadrez, mora no mesmo prédio de Mafalda (ele no quinto andar, ela no segundo). É tímido, sonhador e preguiçoso.

Timossi cobriu a invasão americana à República Dominicana em 1965, as revoluções que levaram o coronel Muammar Kadafi em 1969 e a ascenção dos aiatolás ao poder no Irã em 1979, além de revoltas no Marrocos, Sudão e Argélia, entre outras.

Desta forma, Timossi, na vida real, cobriu as expectativas de aventuras que faziam Felipe divagar nas tirinhas (especialmente na hora de fazer as tarefas de escolares).

Em 1995 Timossi publicou o livro “Cuentesillos y otras alteraciones” (Continhos e outras alterações), que foi ilustrado por Quino com uma profusão de Felipes.

Em 1970, quando já Felipe tinha cinco anos de existência, Timossi, desconfiado que o amigo havia feito uma homenagem camuflada (ou nem tanto), enviou um cartão a Quino em Buenos Aires com uma única palavra: “confessa!”.

Semanas depois, chegou a Havana um envelope com a “confissão” de Quino. Dentro, estava um desenho de Felipe. E ali, o dentucinho de tinta nanquim fazia a famosa pergunta: Justo a mí me toca ser como yo? (logo eu tenho que ser como eu?)

Felipe e seus sonhos em relação à escola:

As angústias de Felipe:

FRASES DE FELIPE

– “Até minhas fraquezas são mais fortes do que eu”

– “Decidi enfrentar a realidade. Então, logo que a realidade fique bonita, me avisem”

– “Quando a gente não sabe o que dizer, não sabe como dizer que não sabe o que dizer”

– “Sempre aparece um sarcástico materialista disposto a estragar nossas fantasias”

– “O sentido da vida… é de mão dupla?”

 Uma página do “Cuentesillos”, de Timossi:

E aqui, um dos expoentes da nova geração de cartunistas argentinos, Liniers, faz uma homenagem ao mestre Quino:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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