Onanismo presidencial & rock ‘n roll (‘oh yeah, oh yeah’ em desenho animado, obviamente). E uma pitada de Molly Bloom
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Onanismo presidencial & rock ‘n roll (‘oh yeah, oh yeah’ em desenho animado, obviamente). E uma pitada de Molly Bloom

arielpalacios

06 de setembro de 2012 | 07h40

Youtube censurou vídeo no Cristina Kirchner aparece tendo um suposto orgasmo político e no qual Barack H. Obama aparece como voyeur. O clipe tem como ponto principal o ato onanista do desenho que representa a presidente Cristina. Aliás, onanismo vem do nome bíblico Onan, que no Livro do Gênesis é filho de Judá…e que recebe uma peculiar ordem. Ele não a obedece. Aí, é punido pelos comandos celestiais e vai bater alcatra na terra ingrata, coitado (se bem que a palavra ‘coitado’, que vem de coito, não se aplica aqui). E aqui está o próprio relato oficial, segundo o Gênesis 38:8-10: “Então disse Judá a Onan: Toma a mulher de teu irmão, e cumprindo-lhe o dever de cunhado, suscita descendência a teu irmão. Onan, porém, sabia que tal descendência não havia de ser para ele; de modo que, toda vez que se unia à mulher de seu irmão, derramava o sêmen no chão para não dar descendência a seu irmão. E o que ele fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que o matou também a ele”.

Nunca antes na História da Argentina uma presidente da República – ou pelo menos, uma representação iconográfica de um líder do Poder Executivo do país – havia sido mostrado em pleno ato de auto-satisfação sexual. Por esse motivo, o grupo de rock “The Rockadictos” desatou polêmica com a divulgação de seu novo videoclipe, que exibe, em formato de desenho animado, uma personagem que simula ser Cristina Kirchner protagonizando uma sessão de intensos movimentos manuais com intuitos masturbatórios.

O clip inicia com imagens da presidente argentina, triste e solitária na penumbra de seu escritório na Casa Rosada. Repentinamente, ela abre as cortinas de sua janela sobre a Praça de Mayo e vê – iluminados pelos raios de sol – dezenas de milhares de argentinos que saíram às ruas para respaldá-la. Até esse ponto, tudo indicava que o clip era uma apologia à presidente Cristina, que conta com a simpatia de diversos grupos de rock argentinos.

No entanto, ao ver o frenesi da multidão, Cristina volta para seu escritório e – inesperadamente – como se estivesse sexualmente excitada com seu poder político, começa a acariciar seus próprios seios (aliás, o artista favoreceu a presidente, já que é ilustrada com um turbinadíssimo busto). Na sequência, abre seu tailleur, exibe uma elegante lingerie (de cor preta) e inicia uma seqüência manipulatória com evidentes fins de onanismo. Uma espécie de excitação suscitada pelo poder político. Henry Kissinger, ex-secretário americano disse em 1976 que “o poder é o maior afrodisíaco do mundo”. Bom, lá fora, a multidão antes unida por Cristina, começa uma desatada pancadaria entre seus integrantes.

Wilhelm Reich, o psicólogo austríaco, autor de “A função do orgasmo” (acho que no Brasil foi editado nos anos 80 pela Nova Fronteira) teria tido um prato cheio.

O austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e seu quadro “Mulher em auto-satisfação”. Em 1916 esta imagem deu um rebu danado.

Enquanto Cristina Kirchner – ou melhor, a personagem de desenho animado que representa a presidente em questão (Ceci n’est pas une pipe, né?, teria dito o compadre Magritte) – procede solitariamente em suas atividades onanistas, surge atrás das cortinas da sala presidencial da Casa Rosada, a imagem do presidente americano Barack H. Obama, que fica observando a cena protagonizada por sua colega argentina, em silêncio. Como um voyeur, este famoso havaiano fica sem mover-se. Obama só olha – isto é, que fique bem claro que não ocorre conjunção carnal presidencial bilateral norte-sul – Cristina chega ao clímax.

O surrealista videoclipe foi censurado pelo Youtube com o argumento de que a obra cometia “uma infração da política do Youtube relacionadas com nus e conteúdo sexual”. No entanto, o desenho da personagem que simula ser a presidente fica sempre vestida, apenas exibindo parte de sua lingerie.

“Shunga” (termo japonês para designar a arte erótica). Ilustração nipônica do século XIX da autoria do artista Utagawa Kunisada (1786-1865)

VÍDEO: O vídeo do Youtube foi censurado. Mas, permanece em outros sites, como este:

The Rockadictos – Un mensaje mas por f599076761

PENETRAÇÃO – Nas redes sociais, a penetração da polêmica foi grande e dividiu os argentinos entre defensores da liberdade de expressão artística e os críticos da obra roqueira, à qual acusavam de “ultraje” sobre a imagem da representante do Poder Executivo da Argentina.

O governo Kirchner, que geralmente retruca todo tipo de crítica ou observação sobre a presidente Cristina, manteve inusitado silêncio sobre o assunto. O dois principais jornais argentinos, o “Clarín” e o “La Nación”, também evitaram comentários sobre o polêmico clip. Mas, os jornais do interior deram destaque à polêmica pelo onanismo presidencial.

Na visão de Félicien Rops (1833-1898), o êxtase de Santa Teresa na gravura acima. E aqui, a descrição do êxtase narrado pela própria santa, que viveu entre 1515 e 1582 (se alguém tiver reclamações sobre o conteúdo, encaminhe os protestos à própria): “Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser um pequeno fogo. Ele parecia penetrá-la várias vezes no meu coração e perfurar minhas entranhas; quando ele a tirou, parecia atraí-los para fora também, e deixando-me em fogo, com um grande amor em Deus. A dor era tão grande, que me fez gemer, e ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela. A alma está satisfeita agora com nada menos que o próprio Deus. A dor não é física mas espiritual; embora o corpo dela partilhe. É uma carícia de amor tão doce que agora tem lugar entre minha alma e Deus, que rezo a Deus pela dádiva dessa experiência, que podem pensar que estou mentindo.”

BANDA – “The Rockadictos” é uma banda de rock criado em 2008. O grupo, formado por dois argentinos e um venezuelano que residem em Miami, concentra sus produção artística naquilo que eles denominam de “tiras cômicas musicalizadas”.

Sza? uniesie?”. Ou, no idioma de Camões e Sérgio Reis, ‘Frenesi do êxtase’. Óleo de 1894 do polonês W?adys?aw Podkowi?ski(1866–1895) que representa o orgasmo de uma mulher. Está na Galeria de Arte Polonesa do século XIX no Sukiennice de Cracóvia.

DEBATE INFORMAL DO INSTITUTO SUGAWARA NO MICHIZANE DE DEBATES INFORMAIS DE BUENOS AIRES

O Instituto Sugawara no Michizane de Debates Informais de Buenos Aires aproveitou seu informal encontro bimensal para realizar um debate informal (em caráter extraordinário) sobre a representação de uma eventual atividade masturbatória na Casa Rosada. O debate transcorreu informalmente com várias – e informais – pessoas das mais diversas posições sociais, sexuais e políticas em um café (informal) de uma esquina do bairro de Balvanera (mais especificamente, na sub-área desse bairro chamada “Once”) na 3afeira à noite.

Em resumo, o debate gerou em linhas gerais as seguintes 4 posições:

a) …Pessoas que defendiam a liberdade de expressão dos artistas e levavam em conta que o rock é marcado pela irreverência e desafio aos poderosos. “É proibido proibir”, destacaram, recordando o slogan de maio de 68.

b) … Pessoas que consideraram que era um “ultraje” contra a figura da presidente da República, entre estas, basicamente militantes kirchneristas. Mas, também militantes da direita que pregavam mão dura contra qualquer indivíduo que ousasse qualquer representação artística sobre os líderes, de Margareth Thatcher a Cristina Kirchner, passando por Silvio Berlusconi e Mao Tse-Tung.

c)…Pessoas que afirmavam que a exibição de cenas masturbatórias era uma afronta contra a moral e bons costumes de um país católico governado por uma presidente católica.

d) …Pessoas que indicaram que o clipe mostra a quase sexagenária presidente argentina como uma mulher independente, com domínio de sua sexualidade e que exibe a pulsão reichiana latino-americana com ousadia na frente do representante do “império yankee”, que puritanamente, fica olhando, sem saber o que fazer perante o “vulcão” latino.

O garçom, don Alberto Quispe, imigrante boliviano (de Cochabamba), fez o único aparte externo, inquirindo se a presidente Cristina estava corretamente ilustrada no desenho (ele não havia visto o clipe). Isso suscitou uma discussão adicional entre os integrantes do Instituto, já que existiam divergências sobre o volume da turbinada bústea da líder do Poder Executivo e a relação realidade-fantasia da cintura da supracitada no desenho animado. Don Alberto ficou de pedir a seu filho que lhe mostrasse o clipe em casa, para remover pessoalmente suas dúvidas.

Após encerrar o assunto, o conclave passou à área gastronômica. Todos comeram avidamente umas pizzas de muzza com fainá. E vinho “El vasquito” pra descer o rango. Sobremesa: um orgásmico pudim de leite com doce de leite. Não façam interpretações errôneas sobre a viscosidade do doce em questão, por favor.

INTERMEZZO OPERÍSTICO

De Jules Massenet, “Manon”. O começo do segundo ato. Com Anna Netrebko e Rolando Villazón:

E já que estamos em clima de clímax, o “Poema do “Êxtase”, de ?????????? ??????????? ????????, isto é, Alexander Nikolayevich Scriabin (1872-1915)

 

AUTO-SATISFAÇÃO LITERÁRIA

James Joyce imortalizou a cena mais famosa de masturbação feminina na literatura mundial com o final de seu livro “Ulisses”, denominado popularmente de “O monólogo de Molly Bloom”. O clímax da querida Molly aproxima-se in crescendo com seus diversos “sim” que pronuncia.

Aqui segue o texto do famoso irlandês que morreu em Trieste:

“… ..o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.”

A bombshell comme il faut Marilyn Monroe lendo o Ulisses de Joyce. Podem perceber que ela está lendo o trecho final da obra.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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