Oposição argentina pede remoção do vice-presidente Amado Boudou, protagonista de escândalo de corrupção
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Oposição argentina pede remoção do vice-presidente Amado Boudou, protagonista de escândalo de corrupção

arielpalacios

30 de junho de 2014 | 09h15

Cristina Kirchner em discurso na Casa Rosada, o palácio presidencial. A seu lado, o vice-presidente Amado Boudou faz gracejos e provoca risos na presidente.

Os líderes dos partidos da oposição exigiram neste fim de semana a renúncia do vice-presidente Amado Boudou, processado desde a sexta-feira pelo juiz federal Ariel Lijo pelo escândalo de corrupção da gráfica Ciccone. A oposição também pede o julgamento político de Boudou, para que seja eventualmente removido de seu posto pelo Parlamento. Boudou, o integrante mais impopular do governo de Cristina Kirchner, é acusado de ter aceito como suborno dos antigos donos da Ciccone 70% das ações da empresa em troca de sua influência para salvar a companhia, que estava à beira da falência, além da injeção de novos recursos. Este suborno teria ocorrido em 2010, quando Boudou ainda era ministro da Economia de Cristina.

A decisão do juiz Lijo sobre Boudou – que o torna o primeiro vice-presidente em exercício da História argentina em ser processado – gerou uma reação imediata nos partidos da oposição. O ex-vice-presidente Julio Cobos, um dos presidenciáveis da União Cívica Radical (UCR), afirmou que os delitos pelos quais Boudou está acusado “implicam em um distanciamento do vice do governo. Caso ele não parta, é preciso iniciar um julgamento político”.

A deputada de esquerda, Victoria Donda, filha de desaparecidas da ditadura, sustentou ontem (domingo) que “Boudou não pode continuar como vice-presidente”. O líder trotskista Jorge Altamira, crítico do kirchnerismo, pediu um “plebiscito” para que “o povo decida o futuro de Boudou, caso ele não renuncie”.

O Partido Proposta Republicana (PRO), de oposição de direita, também exige o julgamento político de Boudou. Uma de suas líderes, a deputada Laura Alonso, indicou que possui a “esperança” de contar com alguns setores moderados do governo Kirchner. Setores do peronismo dissidente também respaldaram a ideia de um eventual julgamento político de Boudou.

O presidenciável Sérgio Massa, da Frente Renovadora, representante do peronismo dissidente que nas eleições parlamentares do ano passado derrotou o kirchnerismo, declarou ontem que seria um “erro” pedir a renúncia de Boudou: “isso seria lavar as mãos perante o povo. É preciso o impeachment do vice e sua remoção”.

O analista político Rosendo Fraga sustenta que considera difícil que Boudou possa ser destituído no Parlamento. Segundo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, o governo Kirchner conta com uma ajustada maioria na Câmara de Deputados e no Senado. “Além disso, a oposição está desorganizada”, ressalta.

Uma pesquisa elaborada pela consultoria Federico González e Cecília Valladares Associados indicou que apenas 19,8% dos argentinos considera que Boudou é inocente. Outros 61,8% afirmam que é culpado, enquanto que outros 18,4% não possuem opinião formada.

TESTA DE FERRO – Boudou – a segunda pessoa na linha de sucessão presidencial – teria usado o empresário Alejandro Vanderbroele como testa de ferro para obter o controle da Ciccone, que posteriormente foi rebatizada de “Companhia de Valores Sul-Americana”. A ex-esposa do empresário, Laura Muñoz, afirma que Vanderbroele e Boudou são amigos há longa data.

O vice nega conhecer o empresário. No entanto, coincidentemente, Vanderbroele paga a TV a cabo e o condomínio de um apartamento de Boudou no elitista bairro de Puerto Madero. A Justiça também comprovou que Vanderbroele fez “mais de um milhar” de ligações telefônicas à secretaria-geral da presidência da República.

O advogado de Boudou, Diego Pirota, afirmou que o vice entrará com um recurso contra seu processo. Segundo Pirota, na sexta-feira da semana que vem apresentará o recuso. O advogado acusou o juiz de ter feito o processo para chamar a atenção da mídia.

Além de Boudou o juiz Lijo processou Vanderbroele e o melhor amigo do vice (que também é seu sócio formal), o milionário José Maria Núñez Carmona. O juiz também processou os dois antigos donos da Ciccone – Nicolas Ciccone e seu genro Guillermo Reinwick – e Rafael Resnick Brenner, ex-chefe de assessores da receita federal argentina.

INVESTIGAÇÕES – Além do caso Ciccone Boudou é alvo de outras quatro investigações por enriquecimento ilícito. O vice também é investigado por suposto uso de informação privilegiada para credores que compraram títulos da dívida na reestruturação de bônus de 2010. Além disso, foi denunciado na Justiça por desvios de fundos públicos e pela falsificação de documentos para a compra de um automóvel na época em que estava divorciando-se. O vice também é alvo de uma investigação sobre irregularidades em consultorias que a Companhia de Valores Sul-americana teria dado à província de Formosa, comandada pelo kirchnerismo.

DEFENSOR DA INDÚSTRIA NACIONAL, COLECIONADOR DE HARLEYS DAVIDSONS

Dono de uma cabeleira cuidadosamente descuidada, apreciador de ternos bem-cortados, o vice-presidente Amado Boudou é ocasionalmente visto montado nas ruas de Puerto Madero sobre alguma de suas diversas importadas motos Harley-Davidson. Desde esse elitista bairro Boudou envia tuítes em defesa dos “pobres” e da “indústria nacional”.

Roqueiro amador Boudou gosta de fazer comparações com esse estilo musical e a forma da presidente Cristina Kirchner fazer política: “este é um governo muito rock ‘n roll, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.

Boudou seduziu o casal Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao governo a reestatização das aposentadorias. Em 2009 Cristina, que definia Boudou como “aquele jovem estupendo”, o designou ministro da economia.

A ala tradicional do estatizante peronismo ficou melindrada com a ascensão de Boudou, um ex-militante da União de Centro Democrático, a “UceDé”, principal reduto do neoliberalismo nativo nos anos 80 e 90. Mas, quando os Kirchners chegaram ao poder Boudou converteu-se rapidamente ao “nacionalismo popular” e às medida protecionistas, deixando de lado a doutrina dos Chicago Boys que havia defendido até a época.

Em 2010 o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) – que preparava-se para disputar a presidência nas eleições de 2011 – morreu inesperadamente de um fulminante ataque cardíaco. Sem o marido para realizar uma alternância no cargo, Cristina teve que candidatar-se à reeleição.

Em agosto de 2011 Boudou foi escolhido pela presidente para ser seu companheiro na chapa das eleições presidenciais de 2011 na categoria de vice. Na época ministros e parlamentares kirchnerisas tentaram dissuadir Cristina dessa escolha. A presidente rechaçou os conselhos.

A ascendente carreira de Boudou começou a afundar com o surgimento de denúncias do caso Ciccone. A partir dali, o vice – que não conta com força política própria – deixou de ser cotado para a sucessão e transformou-se em um peso morto.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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