“Orletti”: oficina de torturas ou ‘escritório’ de Cordero
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“Orletti”: oficina de torturas ou ‘escritório’ de Cordero

arielpalacios

24 de janeiro de 2010 | 23h59

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Longe de ser um pacato ‘Ovis aries’, Manuel Cordero era uma das estrelas das sessões de tortura de Automotores Orletti

Manuel Cordero Piacentini, coronel da reserva do Exército do Uruguai, extraditado pelo Brasil no sábado para a Argentina, vai na contra-mão de seu ovino sobrenome. Longe de ser bisonho e manso, o militar uruguaio era uma exímio torturador e uma das principais figuras operacionais da Operação Cóndor, o sistema de coordenação entre as ditaduras do Cone Sul na segunda metade dos anos 70 e início dos 80.

Agente de inteligência em Montevidéu,onde operou nos centros de torturas conhecidos pelos ilustrativos nomes de “Infierno Chico” (Inferno Pequeno) e “Infierno Grande” (Inferno Grande), o oficial instalou-se em Buenos Aires em 1976 para encarregar-se da caça a uruguaios em território argentino.

Cordero torturava sem máscaras e sem cobrir os olhos dos torturados com um capuz. Ele pronunciava claramente seu próprio nome para intimidar as vítimas.

No Uruguai, entre várias denúncias, foi acusado de ter estuprado uma prisioneira na frente de outro prisioneiro para extorqui-los por dinheiro.

Na Argentina o oficial é acusado de pelo menos ter torturado 32 civis (27 uruguaios e cinco argentinos), e de ter sequestrado onze pessoas, cujos corpos permanecem desaparecidos até hoje, além de ter sequestrado um bebê.

Entre os mortos com cadáveres localizados está o senador uruguaio Zelmar Michelini, brutalmente assassinado em 1976 em Buenos Aires. O corpo do parlamentar, que despontava como líder da oposição ao regime militar do Uruguai, foi encontrado dentro de um carro à beira do rio da Prata.

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Edifício onde estava o “Automotores Orletti”

ORLETTI, CENTRO DO CÓNDOR
O epicentro destes crimes foi o “Automotores Orletti”, um centro clandestino de detenção e tortura da ditadura militar argentina (1976-83) localizado no bairro portenho de Floresta. Ali, Cordero foi um dos principais protagonistas. Segundo depoimentos de sobreviventes, Cordero torturava com especial sanha seus compatriotas.

Mais de 300 pessoas sequestradas foram levadas a esse centro. A maioria delas foi torturada e assassinada. Calcula-se que menos de 40 pessoas sobreviveram.

Ex-oficina mecânica, o “Automotores Orletti”, foi o principal centro da Operação Cóndor, denominação do plano de coordenação dos regimes militares do Cone Sul nos anos 70 e início dos 80. Ali foram presos, torturados e assassinados civis uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, além de argentinos.

Dois diplomáticos cubanos, apesar de sua imunidade, também foram torturados ali. O interrogatório – segundo declarou anos atrás o general chileno Juan Manuel Contreras, um dos braços direitos do ditador Augusto Pinochet – teria contado com a presença de homens da CIA.

Os gritos dos torturados eram abafados pela passagem constante de trens na linha férrea que passava ao lado da oficina mecânica e pela música altíssima que os torturadores colocavam na hora das sessões. O sino da escola vizinha, a Mauro Fernández, junto com o barulho das crianças brincando no recreio e na saída das aulas colaboravam para que os gritos dos prisioneiros não fossem ouvidos na rua.

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Os generais e ditadores Jorge Rafael Videla e Augusto Ramón Pinochet, que junto com outros colegas da região criaram a Operação Cóndor

CHASSIS E TORTURADOS
O centro clandestino possuía apenas dois andares. Mas, concentrava uma lotação de 30 prisioneiros (que ia sendo “renovada” com os assassinatos e transferências para outros centros) que contavam com um único vaso sanitário.

Nas diferentes áreas do centro acumulavam-se chassis de automóveis, além de carros roubados pelo grupo de militares e policiais do Automotores Orletti.

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Cordero, fugido do Uruguai, detido no Brasil, agora espera comparecer perante o juiz Oyarbide em Buenos Aires. Cordero teve a chance de um tribunal, algo que seus prisioneiros não tiveram.

No primeiro andar estava a área de torturas onde os militares haviam colocado um grande tanque d’água com uma roldana acima de onde eram pendurados os prisioneiros para a sessão de “submarino molhado” (afundar uma pessoa em um tanque de água, ocasionalmente também cheio de excrementos humanos).

ABRE-TE SÉSAMO
O comandante formal do centro era o general Otto Paladino. Mas, o chefe direto era o argentino Aníbal Gordon, um paramilitar que havia sido um dos homens de confiança de José López Rega, conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), eminência parda da ex-presidente Isabelita Perón (1974-76), que havia criado a Tríplice A, organização dedicada a atentados e assassinatos de pessoas consideradas “esquerdistas” ou “subversivas”. A Tríplice A também sequestrava empresários para conseguir resgates que eram divididos entre os participantes.

A maior parte dos homens de Gordon eram integrantes da Side, o serviço secreto argentino.

Para entrar nas instalações de “Automotores Orletti” os militares e policiais aproximavam-se da persiana metálica da frente do lugar e pronunciavam a contrassenha: “Operação Sésamo”.

A expressão, uma irônica alusão ao “Abre-te Sésamo” da fábula de Ali Babá e os 40 ladrões, tinha motivos de ser, já que os integrantes do centro clandestino, além de sequestrar e torturar civis, também dedicavam-se a roubar os bens dos desaparecidos.

Dinheiro, joias, móveis e obras de arte eram levados até o Automotores Orletti como fruto do saque das casas dos desaparecidos. O butim era reunido no centro clandestino e era repartido entre os participantes. Com ironia, eles chamavam o resultado do saque de “Morgan”, em referência ao pirata Henry Morgan, que no século XVII assolou o Caribe.

FARDOS
Entre os colegas argentinos do uruguaio Cordero estava Luis Porcio, chefe de segurança da Side, conhecido pelo apelido de “Enfardador”, já que apreciava amarrar cadáveres com arames, como se fossem fardos, para posteriormente queimá-los.
Outro integrante desse entourage era Osvaldo “Paqui” Forese. “Paqui” era a abreviação de “Paquiderme”, já que Forese costumava derrubar sozinho as portas das casas dos civis que sequestravam. Em diversas ocasiões, “Paqui” divertia-se a submeter a pessoa detida a um “submarino” na banheira de sua própria casa.

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Senador Michelini: segundo Justiça argentina, uma das vítimas de Cordero

CURRICULUM VITAE
Após o fim da ditadura uruguaia, em 1985, Cordero ficou em seu país, onde foi beneficiado pela lei de anistia aos ex-integrantes do regime militar. No entanto, em 2003, Cordero fez apologia da tortura em declarações à mídia em Montevidéu, causando intensa polêmica. Procurado pela Justiça uruguaia, o militar refugiou-se no Brasil, na cidade de Santana do Livramento.

Em 2006 a Justiça argentina solicitou ao Brasil sua extradição, para julgamento em Buenos Aires, pelos crimes cometidos durante a ditadura no país.

De lá para cá, em diversas ocasiões, Cordero alegou problemas de saúde, como forma de tentar permanecer no Brasil e evitar a extradição pedida pela Argentina.

Cordero passou por uma cirurgia cardiovascular há poucos anos. No entanto, foi flagrado meses atrás pelo Canal 12, a TV uruguaia, fumando e bebendo em bares de Santana do Livramento, violando sua prisão domiciliar.

Finalmente, após várias idas e vindas, as autoridades brasileiras enviaram Cordero à fronteira com a Argentina.

No sábado, Cordero, de 71 anos, que estava internado em Santana do Livramento por problemas cardíacos, foi levado até Uruguaiana. Nessa cidade na fronteira com a Argentina passou por um novo exame médico.

Depois, foi levado em uma ambulância até o meio da ponte internacional que liga Uruguaiana com a argentina Paso de los Libres. Ali, foi entregue às autoridades argentinas, que o levaram em outra ambulância.

As autoridades argentinas comprometeram-se em continuar o tratamento cardíaco de Cordero em Buenos Aires. Este compromisso foi crucial para a permissão para a transferência de Cordeiro de Santana do Livramento para Argentina.

MUDO NO TRIBUNAL
Nesta terça-feira, já em Buenos Aires, Cordero recusou-se a responder ao inquérito do juiz federal argentino Norberto Oyarbide nos tribunais do bairro de Retiro em Buenos Aires.
O militar foi levado ao banco dos réus sob a acusação de sequestro e desaparecimento de onze pessoas em Buenos Aires entre abril e setembro de 1976.

Uma das pessoas desaparecidas é Claudia Irureta de Gelman, nora de um dos mais importantes poetas uruguaios, Juan Gelman.

A Justiça argentina o considera responsável pela tortura de 32 civis durante a ditadura argentina e o sequestro e desaparecimento de outras onze pessoas, além do sequestro de um bebê.

No entanto, em Buenos Aires ele somente será julgado pelo sequestro do grupo de onze pessoas. Essa foi a condição do Brasil para extraditar o ex-torturador, pois o sequestro trata-se de um delito que não prescreve (já que a pessoa sequestrada ainda não reapareceu).

Em Buenos Aires Cordero passou por uma série de exames médicos, já que o militar padece problemas cardíacos.

Segundo fontes do tribunal comandado pelo juiz Oyarbide, Cordero ficará temporariamente internado no Hospital Militar, no portenho bairro de Palermo, que possui instalações especializadas no tratamento de casos cardíacos graves.

Posteriormente, o oficial uruguaio seria transferido para o quartel militar de Campo de Mayo, na província de Buenos Aires, que também conta com instalações hospitalares de alto nível. Ali estará na companhia de outro preso famoso, o ex-ditador e general Jorge Rafael Videla, um dos criadores da “Operação Condor”.

Dependendo das circunstâncias de saúde de Cordero no futuro, o oficial poderia ser removido para a penitenciária de Marcos Paz.

A expectativa, segundo as fontes do tribunal, é que o julgamento oral e público de Cordero comece ainda neste ano.

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Oficial extraditado estava mais para lobo do que para o cordeiro. Gravura do século XIX das fábulas de Jean de La Fontaine

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