Os vários dragões da inflação na Argentina
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Os vários dragões da inflação na Argentina

arielpalacios

19 de agosto de 2012 | 22h21

Na gravura acima, Hércules, profissão semi-deus, dá uns sopapos na Hidra de Sete Cabeças, a.k.a. Hidra de Lerna.  O helênico supracitado teve a sorte de não enfrentar o “Dragão” da inflação argentina.

Índice oficial de inflação ou o índice parlamentar? Os argentinos que estejam na dúvida entre qual cálculo optar sobre a alta de preços também podem contar com o índice “Moyano”, isto é, a estimativa sindical, chamada de “a inflação dos supermercados”. Além destes, está o extraoficial índice empresarial, baseado nos acordos de aumentos salariais. E de quebra, o argentino que duvide de todos estes índices, pode aferrar-se às expectativas populares sobre a inflação, quase sempre superiores a todos os outros cálculos. Este leque de opções, que parece digno de uma comédia de enredos, é a realidade cotidiana dos habitantes da Argentina, que contam uma ampla variedade de cálculos paralelos de inflação, já que o índice oficial, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), é suspeito de intensa manipulação dos dados por parte do governo desde janeiro de 2007.

O governo da presidente Cristina Kirchner anunciou que o índice de inflação de julho foi de 0,8%. Desta forma, segundo o Indec, a inflação acumulada nos primeiros sete meses deste ano foi de apenas 5,9%. O governo, que previu no Orçamento Nacional deste ano uma meta de inflação de 9,2%, nega taxativamente a existência de uma escalada inflacionária.

Na contra-mão, deputados da oposição divulgaram o índice que elaboram no Congresso Nacional em base a uma média de cálculos da inflação das principais consultorias econômicas do país. Segundo o “Índice do Congresso”, a inflação de julho foi de 1,76%, isto é, 2,2 vezes superior ao numero anunciado pelo governo Kirchner.

Desta forma, o índice paralelo da inflação elaborado no Parlamento mostra uma alta de 13,36% desde o início deste ano. A previsão dos economistas consultados pelos parlamentares é que a inflação de 2012 supere facilmente a faixa de 25%, o maior índice da América do Sul.

Os deputados da oposição elaboram este índice desde o ano passado, já que em 2010 o governo começou a multar as consultorias econômicas que divulgassem um índice diferente do Indec. A saída encontrada foi a de preparar uma média das consultorias, que é mensalmente anunciada pelos deputados, que possuem imunidade parlamentar. Segundo a Casa Rosada, os cálculos paralelos elaborados por economistas, associações de consumidores não passam de manobras de “golpistas” para “destituir” a presidente Cristina.

INFLAÇÕES E INFLAÇÕES – Desde a intervenção do Indec em janeiro de 2007, a inflação oficial foi de 56%. Mas, segundo os economistas, o acumulado nos últimos quatro anos e meio foi de 146%. Além destes cálculos, nos próximos dias Hugo Moyano, líder da maior central sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), anunciará um índice que servirá de alternativa ao índice do Indec. Moyano, outrora aliado da presidente Cristina Kirchner, entrou em rota de colisão com a Casa Rosada no final do ano passado pela disputa de espaços de poder. O caminhoneiro argumenta que a escalada inflacionária está “destruindo” o poder aquisitivo dos trabalhadores argentinos.

Dados preliminares da CGT indicam que a projeção de inflação para 2012 seria de 25%. Os cálculos da central sindical, denominados ironicamente de “índice Moyano”, estão sendo elaborados em base aos preços verificados em supermercados por um time da CGT e a assessoria da Universidade Nacional de Rosario.

INFLAÇÕES E PERCEPÇÕES – Independentemente dos cálculos de economistas e instituições, os argentinos possuem percepções sobre a crescente inflação. As expectativas da população são medidas mensalmente pela Universidade Di Tella, que sustenta que em julho suas pesquisas indicavam que os argentinos tinham uma expectativa de inflação de 30% para este ano.

“Neste país a inflação tem muito de real e muito de expectativa. Então, pelas dúvidas, supondo que os preços vão subir, todo mundo joga em contra”, sustentou o presidente da União Industrial Argentina (UIA), José Ignácio de Mendiguren, que afirma que as altas salariais que os empresários negociaram neste ano foram de 25%, amplamente superiores à inflação calculada pelo governo.

Segundo a consultoria Orlando Ferreres e Associados, o controle sobre as importações aplicado pelo secretário de comércio interior, Guillermo Moreno, além do gargalo na capacidade industrial de diversos setores, estão levando à uma redução da oferta. E, portanto, a um aumento dos preços dos produtos consumidos pelos argentinos.

O ‘TERMÔMETRO’ DA INFLAÇÃO  – A maquiagem de índices, afirmam os economistas, iniciou em janeiro de 2007, quando o Indec foi alvo de uma intervenção do governo do então presidente Néstor Kirchner (2003-2007). A intervenção – comandada pelo secretário de comércio interior, Guillermo Moreno – continuou na administração da presidente Cristina Kirchner e implicou na demissão ou transferência dos funcionários que não concordavam com a camuflagem da inflação. Isso levou a uma elaboração paralela de índices por parte das consultorias econômicas.

Os analistas ressaltam que Kirchner adotou essa medida por causa do fracasso da política de congelamento de preços no ano prévio, 2006.

O jornalista e analista político Jorge Lanata (que em 1987 fundou o jornal “Página 12”) definiu o comportamento do governo: “Kirchner, ao perceber que a febre da inflação era elevada demais, em vez de tentar debelar a doença, optou por mudar o termômetro. Um termômetro que mede a febre para baixo…”.

Além do congelamento, o governo também tentou conter a inflação por meio de outras controvertidas medidas, entre elas, as limitações às exportações de diversos produtos, como o trigo e a carne bovina, de forma a redirecioná-los para o mercado interno, e assim, forçar a baixa de seus preços.

No entanto, em 2010 Moreno começou a aplicar multas sobre os economistas que divulgavam os índices que elaboravam de forma paralela aos números oficiais.

No ano passado o governo exigiu que os jornais dessem a lista dos jornalistas que publicam as notícias sobre as altas inflacionárias, fato que gerou preocupação nas redações.

Os temores aumentaram em dezembro passado, quando o governo Kirchner, com maioria no Parlamento, aprovou a “Lei antiterrorista”. A nova norma não considera mais o terrorista exclusivamente como a pessoa que coloca bombas ou realiza atentados contra a vida dos cidadãos, mas também aquele que divulgue informações que causem “pânico” na população.

Desta forma, poderiam ser enquadrados os economistas e jornalistas que publiquem informações que o governo considere que “perturbem” a ordem pública, entre elas, a escalada inflacionária.

Mais répteis anabolizados: Hércules e a Hidra de Lerna, de Gustave Moreau (1826-98), precursor do Simbolismo. O quadro, feito em 1876, está exposto no Instituto de Arte de Chicago.

AS DESVALORIZADAS DE NOTAS DE 100 PESOS – Mais da metade das notas de pesos que circulam na Argentina atualmente são as cédulas que exibem o valor numérico de 100 pesos, com a efígie do general e presidente Julio Argentino Roca. Motivos para esta presença ostensiva das notas de 100 existem de sobra, já que a inflação galopante requer maior volume das notas com a imagem do general Roca, as de maior valor numérico no país.

Uma alternativa para esta situação, proposta por diversos líderes da oposição, é que o governo da presidente Cristina Kirchner dê a ordem de criar novas cédulas de maior valor numérico.

Mas, a criação de notas de 200 e 500 pesos é categoricamente rechaçada pela Casa Rosada, o palácio presidencial. Os analistas afirmam que a eventual emissão dessas notas implicaria em uma admissão da existência da inflação, que o governo nega categoricamente.

Segundo dados do Banco Central, atualmente o volume das notas de 100 pesos em comparação a 2003, ano em que Nestor Kirchner tomou posse, aumentou em 910%. No entanto, a emissão de notas de 10 pesos – que atualmente possuem um valor de compra pequeno – somente cresceu em 100%.

Nestes nove anos, o volume de notas de todos os valores em circulação aumentou em 430%.

Em 2003 as notas de 100 pesos serviam para fazer uma grande compra nos supermercados. Essas cédulas, na época, constituíam 29% do total de notas em circulação. Mas, atualmente, elas representam 55% das notas.

Em 2004, com uma nota de 100, uma pessoa na Argentina podia comprar 73 litros de leite. Atualmente, a mesma cédula só consegue comprar 21 litros.

Há oito anos, para ir e voltar do aeroporto de Ezeiza ao centro portenho uma cédula de 100 pesos era suficiente. Hoje para fazer o mesmo trajeto de ida e volta são necessárias três notas com a efígie de Roca.

A carne, o quitute sine qua non do cotidiano dos argentinos também requer mais notas de 100 do que em 2004. Naquele ano, uma nota desse valor permitia a compra de 16 quilos para fazer um churrasco para a família, os amigos, e também alguns vizinhos. Mas, a mesma nota, hoje em dia, serve para adquirir apenas 2,5 quilos de carne. Isto é, o suficiente para uma reunião familiar. E de preferência, sem nenhum parente excessivamente guloso.

Segundo dados do Banco Central argentino, o governo está emitindo um maior volume de cédulas. Enquanto que em maio circulavam na Argentina 1,5235 bilhão de unidades, nos primeiros dias de julho subiu para 1,731 bilhão.

O FANTASMA  HABITUÉ DOS ARGENTINOS – O histórico dos argentinos com a inflação é longo. A alta de preços assola os presidentes deste país há cinco décadas. Mas, a situação complicou-se a partir de 1975, quando foi aplicado um polêmico pacote de medidas econômicas, conhecido como o “Rodrigazo”. Durante a última Ditadura Militar (1976-83) a inflação disparou.

Mas, o ponto mais dramático ocorreu em 1989, durante o governo do então presidente Raúl Alfonsín, quando a hiper inflação chegou a 4.923,6%. Na época, até o dólar, refúgio preferido dos argentinos para os momentos de crise, sofreu as pressões inflacionárias, embora em menor escala que o peso.

Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99) tentou implementar diversas políticas econômicas para debelar a inflação. Mas, as erráticas medidas levaram o país à uma segunda etapa de hiper inflação, de 1.343,9%. Isso levou Menem a implementar uma saída drástica, a criação da Conversibilidade Econômica, que estabeleceu a paridade entre o dólar e o peso.

O sistema amarrou o pouco confiável peso ao dólar americano. Nos seguintes dez anos e meio, a Conversibilidade proporcionou a erradicação da inflação. O país até viveu vários anos sob a marca da deflação.

No entanto, o remédio para a inflação acabou tendo graves efeitos colaterais. Em 2001, o país foi assolado por uma colossal fuga de capitais. Isso, somado à crise social e política levou o governo do presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) à renúncia. A conversibilidade não conseguiu sobreviver à crise e foi extinta em janeiro de 2002.

Sem o sistema, o peso desvalorizou-se rapidamente ao longo de 2002. A inflação, durante alguns anos, manteve-se contida por causa da recessão que atingia o país. Mas, com a recuperação da economia, em 2003, a inflação voltou a crescer.

Em 2006, o governo do presidente Néstor Kirchner tentou conter a inflação com o congelamento de preços. Mas, com o fracasso dessa política, em 2007 optou por intervir o Indec e manipular o índice da inflação.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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