Pacata província provoca pandemônio político
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Pacata província provoca pandemônio político

arielpalacios

09 de março de 2009 | 20h52

Encravada no sopé da Cordilheira dos Andes, a pacata província de Catamarca não despertava o interesse da mídia e da classe política argentina há mais de uma década e meia, quando o filho de um caudilho local estuprou e assassinou uma adolescente (o denominado “Crime de Maria Soledad”). Mas, nos últimos dias, a província voltou a ser o foco das atenções de todo o país por causa das eleições para a renovação de metade dos integrantes da Assembleia Legislativa local, cinco dezenas de vereadores e um prefeito.

Era uma eleição sem transcendência, já que ali só votavam 243 mil pessoas, o equivalente a 0,8% do total do eleitorado argentino. Além disso, os postos em disputa não iam além da esfera provincial. Mas, o embate realizado neste domingo envolveu as principais figuras políticas do país. E o resultado desse confronto está causando um pandemônio nas fileiras do governo.

Catamarca foi o ringue de uma disputa na qual o denominado “casal presidencial”, isto é, o ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa, sucessora e atual presidente Cristina Kirchner, confrontou-se com Julio Cobos, o rebelde vice-presidente da República (ex-“mosquinha morta”, o vice desponta como representantes de um dos pólos opositores ao governo…o próprio governo que ele integra).

Os candidatos kirchneristas conseguiram 33% dos votos catamarquenhos. Os candidatos de Cobos venceram com 42%.

Leitura da jornada: Os Kirchners – apesar de terem mobilizado o aparato do Estado argentino (com farta distribuição de dinheiro cash para os eleitores, geladeiras e até computadores) – sofreram uma dura derrota no primeiro teste eleitoral de 2009. Equivale a começar com o pé esquerdo este ano no qual serão realizadas as decisivas eleições parlamentares de outubro.

‘PIANTA-VOTOS’ – No fim da tarde, uma pesquisa realizada pelo jornal “Clarín” indicava que 84,3% dos internautas acreditavam que a derrota do kirchnerismo em Catamarca pode repertir-se nas eleições parlamentares nacionais de outubro.

O cenário está complicado para os Kirchners. Desde o início do ano o governo – por causa de uma acelerada fuga de aliados – perdeu a hegemonia na Câmara de Deputados e está a apenas um senador de ficar sem a maioria no Senado.

Em diversas províncias governadas por aliados kirchneristas lideranças políticas começavam a avaliar que não será conveniente que Kirchner – ou Cristina – apareçam muito por suas bandas. De forma acelerada, o casal está ficando com fama de “pianta-votos”(afugenta-votos).

DE ‘MOSQUINHA MORTA’ A SUPER-STAR – Cobos tornou-se um nome que não é conveniente pronunciar na frente dos suscetíveis Kirchners. O vice, em julho, derrubou no Senado, graças a seu voto de Minerva (ele também é presidente da Câmara Alta), a lei de “impostaço agrário” que sua chefe pretendia implementar. Para irritação dos Kirchners, esta atitude proporcionou ao low profile vice-presidente uma disparada em sua popularidade.

Cobos passou de ser um ignoto vice a um superstar da política, com direito a camisetas e canecas com frases suas. Além disso, tornou-se o símbolo de rebeldia anti-kirchnerista. Atualmente a imagem positiva de Cobos duplica (e quase triplica, segundo algumas pesquisas) a dos Kirchners.

Resultado da crescente popularidade do vice (enquanto a dos Kirchners declinava aceleradamente): o governo impôs um duro isolamento político ao vice-presidente. Cobos é cortado das imagens do estatal canal 7, e até complicam suas viagens (impedem suas viagens nos boeings da frota presidencial e só lhe deixam usar teco-tecos….vale a pena lembrar que esses aparelhos não possuem banheiro). A presidente Cristina não se reúne com ele desde a derrota do “impostaço agrário”. Se encontra o vice em algum evento oficial, só o cumprimenta de forma protocolar, para logo em seguida, lhe virar a cara.

A derrota do governo em Catamarca indicou à Oposição que os Kirchners podem ser derrotados, apesar do aparato estatal.

CATAMARCA TEM LONDRES – Se existe um Paris, Texas – e uma Nova Iorque, Maranhão, porque não um Londres, Catamarca? “Londres de Nueva Inglaterra”, a segunda cidade fundada na Argentina – em 1558 (a primeira foi Santiago del Estero)- está no centro-oeste catamarquenho. Seu peculiar nome foi uma homenagem à rainha Maria Tudor da Inglaterra, casada com o rei Felipe Habsburgo, da Espanha, país que havia começado a colonizar a Argentina poucos anos antes.

E o que tem isto a ver com os Kirchners e esta eleição? É que na Londres catamarquenha existem dois peculiares sinais de trânsito que bem podem simbolizar as dúvidas que pairam sobre o futuro dos Kirchners. A foto abaixo ilustra isso.
Até amanhã!
Cartazes de Londes

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