‘Pai’ da Democracia argentina sonhava com relação intensa com o Brasil
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‘Pai’ da Democracia argentina sonhava com relação intensa com o Brasil

arielpalacios

31 de março de 2009 | 22h15

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Alfonsín e seu costumeiro gesto de vitória

Nesta terça-feira às 20:30 o ‘Pai’ da Democracia argentina, o ex-presidente Raúl Alfonsín – que governou o país entre 1983 e 1989 – faleceu aos 82 anos após uma dura luta contra o câncer.
Durante anos, após o encerramento de seu governo, Alfonsín foi intensamente criticado por parte da opinião pública pelo descalabro econômico dos últimos meses de sua gestão, quando o país foi assolado por uma hiper-inflação de quase 5.000%.
Mas, nos últimos anos o ex-presidente estava sendo crescentemente valorizado por seu respeito às instituições democráticas e honestidade. Além disso, desde a virada do século, os argentinos resgataram o apreço de Alfonsín pelo consenso e o diálogo, algo raro na costumeiramente antagônica política argentina
Alfonsín era o único ex-presidente desde a volta da Democracia que nunca havia sido processado por corrupção (embora alguns de seus ex-assessores, sim, protagonizaram escândalos).

Em 2005 entrevistei Alfonsín sobre os 20 anos do histórico encontro que teve com o ex-presidente José Sarney sobre a ponte Tancredo Neves, sobre o rio Iguaçu, na fronteira entre os dois países, no dia 30 de novembro de 1985. A reunião foi o pontapé inicial para a integração Brasil-Argentina.
Na entrevista, Alfonsín, tal como um pai que não vê o filho se desenvolver como era esperado, não teve papas na língua em afirmar que “o Mercosul poderia ter ido mais longe. Ficou aquém do que o Sarney e eu havíamos planejado”.

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Pioneiro da integração, Raúl Alfonsín encerrou hipóteses de conflito bélico com o Brasil

Esta é a entrevista que fiz na época com o ex-presidente.

Estado – Que lembranças tem do encontro com Sarney, em 1985?

Alfonsín – Conhecia o Sarney de sua posse. Logo de cara percebi que íamos ser amigos. Pedi ver a represa de Itaipu, que havia sido fonte de discussões anos antes entre o Brasil e a Argentina. Depois o levei à nossa planta de enriquecimento de urânio (que era secreta) para que visse que era de fins pacíficos. Isso mostrou nossa vontade de buscar a integração. A ideia era superar as lendas que indicavam que os dois países sempre seriam concorrentes, especialmente na área militar. Os medos ficaram para trás. Agora temos compreensão mútua.

Estado – Enfrentou, na época, a oposição de setores dentro da Argentina que resistiam à ideia de uma integração com o Brasil?

Alfonsín – Não. Mas, o que sim acontecia era uma posição permanente dos EUA contra qualquer espécie de acordo entre os países da América Latina. Posteriormente foram surgindo alguns problemas no Mercosul, principalmente pela pressa em que a união alfandegária foi sendo levada, tal como havia determinado o Tratado de Assunção. Sarney e eu havíamos pensado a integração em um prazo de 10 anos. Mas, eles (os sucessores) a reduziram para cinco anos. Isto causou problemas. Mas, esses problemas não devem assustar-nos, já que no primeiro ano da comunidade do aço e do carvão (embrião da Comunidade Europeia e posteriomente, União Europeia) registrou mais de 700 conflitos. Os conflitos acontecem…O problema é quando não existem mecanismos que possam resolvê-los, Para isso é preciso um organismo supranacional.

Estado – Imaginou há 20 anos que o Brasil e a Argentina estariam tão integrados?

Alfonsín – Não…Eu imaginava que estariam mais integrados ainda! Sarney e eu pensávamos em outros aspectos, que foram deixados de lado. Nos anos 90 houve grandes avanços na área comercial, que não desmereço, de forma alguma. Mas agora o Mercosul está voltando à essa concepção que havíamos tido no início, que era que a integração englobasse não somente o lado comercial, mas também a área científica, tecnológica, cultural e política. Falta muito a fazer no Mercosul, mas acho que está rendendo bons resultados. Seria sido muito importante ter políticas macro-econômicas compatíveis, especialmente políticas cambiais.

Estado – Se desse uma nota de 1 a 10 para o Mercosul, qual seria?

Alfonsín – Daria uns 6 pontos…Falta muito ainda a fazer. Mas, é uma nota “boa”.
Estado – Há poucos dias, parlamentares dos países-sócios definiram qual será o formato e os prazos para a formação de um futuro Parlamento do Mercosul…
Alfonsín – É bom, sempre que não seja um organismo burocrático a mais. É positivo, pois os povos devem estar representados. Será benéfico, sempre que isso não sirva para que (os políticos) façam turismo…

Estado – A ideia da moeda única é de sua época…

Alfonsín – Pensei que poderia ter o nome “Gaucho”. Sarney gostou da ideia. A palavra é a mesma nos dois países. Pelo menos, a princípio, poderia ser uma moeda usada para o intercâmbio comercial.

Estado – Com frequência aparecem esperneios empresariais que reclamam de invasões de produtos em ambos países. Mas, esses setores em conflito envolvem menos de 5% do intercâmbio comercial…

Alfonsín – Geralmente prevalecem os interesses particulares…e se esquecem os interesses gerais. O estranho desses casos é que quem mais se queixa, e fala da Brasil-dependência, são os mesmos que defendem a ALCA. Mas (fazendo um olhar irônico), se não podem concorrer contra os industriais de São Paulo, vão poder contra os empresários dos EUA?

Estado – Acredita na retomada das negociações da ALCA?

Alfonsín – Não acho que a ALCA seja hoje em dia uma prioridade dos EUA. Por isso, espero que não aconteça uma enorme pressão, o que poderia acontecer se fosse algo importante na agenda do governo americano. Sou muito cético em relação à ALCA.Os EUA pedem tudo e não dão nada em troca. Não poderia aceitar a ALCA nas situação atual, na qual eles continuariam com os subsídios agropecuários e nós teríamos que abrir as portas a seus produtos industrializados.

Estado – O que acha da Comunidade Sul-Americana de Nações?

Alfonsín – É algo que precisa caminhar, é um objetivo, a longo prazo…

Estado – O fato de que a economia brasileira seja maior do que a da Argentina causa desequilíbrios que atrapalhem a integração?

Alfonsín – Isso dá para resolver. Só temos que procurar nichos onde crescer, avançar em alta tecnologia, podemos conviver e crescer junto com o Brasil…

Estado – Fala com Sarney com frequência?

Alfonsín – Somos convidados, sempre juntos, para dar conferências. Por isso, com freqüência tenho a oportunidade de dar um abraço nesse grande amigo, que é o arquiteto do Mercosul.

Estado – Vocês seriam uma dupla dinâmica para o Mercosul, tal como foram Charles De Gaulle e Konrad Adenauer para a União Européia?

Alfonsín (rindo maroto) – Hehehe…bom, sim…bem…levando em conta as diferentes magnitudes…

Após esta conversa, Alfonsín me acompanhou até a porta de seu amplo – embora austero – apartamento na avenida Santa Fe. Ao se despedir, pegou minha mão direita com suas duas mãos e me disse com voz paternal: “que te garúe finito!” (“que a garoa seja levinha!”, uma expressão equivalente a ‘boa sorte’).

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Em 2005, no final da entrevista, Alfonsín repetiu o gesto da vitória que costumava fazer nos comícios na volta da democracia (foto de Ariel Palacios)

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