Palácio das Águas é elegante falsidade
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Palácio das Águas é elegante falsidade

arielpalacios

10 de abril de 2009 | 05h30

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Na avenida Córdoba, entre as calles Riobamba e Ayacucho ergue-se o imenso ‘Palácio das Águas’, edifício que ostenta uma elegante fachada que rivaliza com o próprio palácio presidencial – a Casa Rosada – e as sedes de vários ministérios, além de ser mais imponente que diversas mansões das famílias da aristocracia portenha.

Os turistas que por ali passam acreditam que trata-se da requintada sede de um organismo público. Por esse motivo, ficam surpresos ao ouvir que o edifício é praticamente uma mera – embora chique – “casca”.

Essa imponente “casca” começou a ser construída em 1887 apenas para camuflar os tanques d’água de abastecimento da cidade, instalados nessa área, a mais alta da área central da cidade. A obra concluiu em 1894.
A ideia do governo na época era a de preservar aquela área da cidade de um “horror estético” como os tanques de água. A beleza arquitetônica era uma das palavras de ordem.

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O edifício de exuberante arquitetura esconde doze imensos tanques metálicos com capacidade de 72 milhões de litros. Apenas uma pequena parte da construção contém alguns escritórios administrativos. A maioria das janelas é puro ‘fake’.

‘MANTEIGA NO TETO’, MAS COM REQUINTE – Na época Buenos Aires esbanjava riqueza e ambicionava igualar-se às capitais europeias, principalmente Paris. Eram os tempos em que os governos “tiraban manteca al techo” (expressão que literalmente significa ‘jogar manteiga no teto’ utilizada para expressar ‘esbanjar dinheiro’). Mas, ‘tiraban manteca’ com bom gosto.

Para construir o ‘Palácio das Águas’, o governo argentino importou da Inglaterra 170 mil peças de cerâmica e 130 mil tijolos esmaltados para a ornamentação externa. As telhas foram importadas de Sedan, França. O prédio também exibe na fachada os escudos das 14 províncias argentinas da época.

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O escritor espanhol Blasco Ibáñez, autor dos romances “Sangue e areia” e “Os quatro cavaleiros do apocalipse”, comentou impressionado: “este palácio não é tal palácio. Tem arcos, grandes portas e janelas. Mas é tudo fingido. Em seu interior não existem salas. Os construtores quiseram embelezá-lo com esta enorme superfluidade, para que não afetasse as ruas do centro”.

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Canos e tanques deviam ficar camuflados, ‘avec élégance’

Em seu interior funciona o Museu do Patrimônio, que conta com uma vasta coleção de vasos sanitários, bidês e encanamentos. Para os fanáticos de banheiros e descargas.
A entrada é pela rua Riobamba, 750, primeiro andar. Horário: de segunda a sexta-feira de 9:00 às 13:00. Telefone (54 -11) 6319 1104. E-mail: museo_patrimonio@aysa.com.ar

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MARCAS DA VIOLENTA HISTÓRIA – Ao lado da Casa Rosada, sobre a rua Hipólito Irigoyen, está o edifício do Ministério da Economia. Construído em 1939, foi alvo de tiros disparados pelos aviões que bombardearam e metralharam a área da Casa Rosada em 1955, durante uma tentativa de golpe militar para derrubar o governo do então presidente Juan Domingo Perón. O golpe fracassou, mas Perón caiu poucos meses depois, em um segundo levante dos quartéis.

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As marcas das balas no mármore da base do prédio foram deixadas como registro histórico da sangrenta tentativa de golpe (só na área da Praça de Mayo morreram mais de 350 pessoas, entre elas, crianças que estavam em um ônibus), além de 800 feridos.

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Os governos peronistas que vieram posteriormente consideram que as marcas são uma demonstração da violência política e que mereciam não ser apagadas, como registro da História.
Os anti-peronistas também valorizaram as marcas das balas. No entanto, como registro de sua mobilização e vitória contra Perón.

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