Para celebrar o bicentenário do Paraguai, uma velha entrevista com Roa Bastos, o escritor que dissecou com elegância as ditaduras de seu país
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Para celebrar o bicentenário do Paraguai, uma velha entrevista com Roa Bastos, o escritor que dissecou com elegância as ditaduras de seu país

arielpalacios

14 de maio de 2011 | 08h55

Hoje, sábado, 14 de maio, o Paraguai celebra seu bicentenário de independência. E, que melhor forma de homenagear um país do que mostrar um de seus emblemas culturais, isto é, o escritor Augusto Roa Bastos (1917-2005)? Bom, então aproveito e coloco aqui a íntegra da entrevista que fiz com o autor de “Yo, el supremo” em dezembro de 1995, após uma conferência sua no Instituto Cultural da Espanha em Buenos Aires. Na época, Roa Bastos havia acabado de lançar seu livro “Madame Sui”. A conversa durou quase uma hora. Seus assessores queriam levá-lo para jantar. Mas, este gentleman das letras paraguaias preferiu ficar batendo papo.

“Os mitos se esgotam, como o poder” afirma pausadamente Augusto Roa Bastos, o mais importante escritor paraguaio deste século, que acaba de lançar seu último livro: “Madame Sui”, a história de uma amante do todo-poderosos ditador paraguaio Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989.

Pouco conhecido no Brasil, este colossal senhor de pouco mais de um metro e meio de altura já ganhou em terras paulistanas o prêmio Letras do Memorial da América Latina. Na terra do Quixote recebeu o prêmio Cervantes, o mais cobiçado reconhecimento aos escritores de língua espanhola. Recentemente recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de seu país. Suas histórias mesclam vidas reais com tradições guaranis, salpicados com a fina ironia que marca sua obra.

Veterano da Guerra do Chaco (1935-36), Augusto Roa Bastos passou logo para outro campo de batalha: o europeu. O mundo definia seu futuro nos campos da Rússia e nas praias francesas e o jovem paraguaio foi para cobri-la. Ao voltar para seu país, em 1949, assistiu os primórdios do regime autoritário, que em 1954 se tornaria a ditadura de Stroessner.

Ele, que havia sobrevivido a duas décadas de tiroteios, percebeu que uma ditadura pode ser mais cruel que uma trincheira. Roa Bastos chegou à conclusão de que, para continuar vivo, era mais adequada a dura estrada do auto-exílio.

O escritor partiu rio abaixo em direção a Buenos Aires, onde viveu até 1976, quando outro coup d’état o obrigou mais uma vez ao caminho do exílio. Desta vez foi para a capital de todos os refugiados: Paris.

Mas Roa Bastos sustenta: “como dizia Northop, o shakespereano personagem de Ricardo III, não há pior exílio que o exílio do idioma”. Roa Bastos sabe disso com proficiência. Cidadão de um país onde o guarani e o espanhol travam um contínuo embate – e ocasionalmente se cruzam – considera que “a língua viva é a oral. A língua morta é a oficial”.

Em “Madame Sui” Roa Bastos conta a história da uma amante de um ditador. A dedução é que o general em questão é Stroessner, embora o escritor não o mencione diretamente: “A tirania que serve de moldura a esta história, inspirada nas ideologias do nazismo e do fascismo e continuadora daqueles regimes de força, ao final da Segunda Guerra Mundial, foi a mais longa e cruel das que assolam neste século a América do Sul”, diz.

Madame Sui foi a favorita desse estranho e cruel ditador de origem teutônico, que parecia mudo de tão calado (mas que reduziu ao silêncio uma sociedade durante mais de três décadas e meia). A curva de transformação da garota primitiva, quase selvagem, em cortesã refinada e culta do final de sua evolução, não alterou o destino de Madame Sui. Ela o viveu de uma forma espontânea, talvez inconsciente, de rebelião”.

Com voz pausada e gestos finos, Roa Bastos falou ao Estado sobre os mitos, a mulher e “Madame Sui”.

Estado – Sua obra parece se basear sempre em fatos históricos…

Roa Bastos – A literatura sempre se apresentou para mim como uma forma de viver literariamente a realidade da História. A realidade dos mitos e das formas históricas penetram profundamente na superfície do destino humano.

Estado – Essa dualidade que há no Paraguai, entre o espanhol e o guarani, como se reflete na literatura?

Roa Bastos – Não são problemas puramente literários. São problemas de vida, de História…são problemas de pessoas que levam em cima o destino de um país, que sempre esteve encurralado e assediado pela fatalidade. As leis dessa fatalidade são inescrutáveis. E isto também se reflete na palavra escrita. Ela, ao ser escrita, perde a vibração natural da palavra oral, que é a palavra da cultura paraguaia, em sua origem, em seu desenvolvimento. Também a presença permanente destas figuras simbólicas contribuem a definir o destino de toda uma coletividade. Há mitos centrais que correspondem à todas as culturas. Acho que eles definem a condição humana. A forma de ser mais universal é se ancorar no natal, nas raízes que penetram muito fundo em uma realidade cultural, histórica.

Estado – Por exemplo?

Roa Bastos – Para não falar em abstrações: há uns mitos centrais na cultura guarani, por exemplo, o mito de origem dos guaranis, é o da “Terra Intocada” ou a terra sem mal, não contaminada pela culpa humana.

Estado – Como o Éden, no cristianismo…

Roa Bastos – E não só esse exemplo. Os mitos recolhem isso que está submerso no magma da condição humana. Existe também o mito dos “Paus Cruzados”, que é o símbolo da cruz, que chegou muito depois ao Paraguai. Há evidentemente uma similitude antropológica, apesar das diferentes raças que há no mundo. Na mitologia e na cosmologia dos guaranis, os “Paus Cruzados” eram simplesmente as fundações do Cosmo. A Terra seria sustentada por estes paus cruzados. Curiosamente, mais tarde seria o símbolo do cristianismo … Como a suástica, que de origem hindu, serviu de símbolo a uns dos poderes ditatoriais mais terríveis que se abateram sobre a espécie humana. Há muitas coincidências nos mitos dos povos que habitam a Terra. Isso não é fortuito. Deve-se a estrutura de nossa condição humana, binária.

Estado – Como assim?

Roa Bastos – Vemos o mundo desde um ângulo que tem o olhar de um binóculo. Dois olhos que veem em uma mesma direção, depois juntam as imagens e assim têm uma projeção estereoscópica, de relevo. Os dois lóbulos parietais no cérebro também são testemunhas da condição binária. Não é uma condição de duplicidade, mas a condição bipolar das energias que residem no ser humano. Por isso a mulher é superior ao homem.

Estado – Isso é uma galanteria ao belo sexo, sr. Roa Bastos (ao lado, durante a entrevista, um grupo de intelectuais portenhas ouvia com atenção o escritor)…

Roa Bastos – Não (ri, e olha para elas)…Elas tem dois lóbulos interiores, os dois ovários, que fazem possível a gestação do ser humano. Não estou querendo fazer uma declaração de fé na mulher, mas é que o Paraguai, país que foi devastado pela hecatombe do século passado (a Guerra do Paraguai, onde morreram três quartos da população do país) foi reconstruído pelas mulheres. Este é um exemplo épico, estóico, o da mulher paraguaia. A submissão das mulheres não é a forma mais adequada para o desenvolvimento da espécie humana.

O ditador & general Alfredo Stroessner Matiauda – que controlou o Paraguai com mão de ferro durante três décadas e meia – passeia pelas ruas de Madri ao lado do anfitrião e congênere espanhol, o generlíssimo (por la gracia de Dios, como costumava dizer) Francisco Franco Bahamonde. Stroessner e sua ditadura seriam o alvo de diversas obras de Roa Bastos.

Estado – O sr. conta a história do ponto de vista de uma mulher. Para um homem, talvez, escrever do ponto de vista feminino não deve ser fácil…

Roa Bastos – A protagonista da obra, Madame Sui, é uma adolescente, que morre muito cedo e passa pelas piores vissicitudes que podem ocorrer ao ser humano, concretamente, a uma mulher. Isso me levou à necessidade de investigar de até onde o ser humano pode manter sua inocência nata, passar por todas estas provas e manter o calor de seu coração. Madame Sui não tinha consciência de culpa, sentimento muito ligado à religião. Ela era um ser livre, um “animalzinho vital”. Um dos personagens, que também narra a história, lhe coloca o apelido de “cabritinha doida”. Ela se suicida por esse amor profundo por este personagem que não tem nome, que chama de “Ele”. Ela não tem outro remédio senão refugiar-se na morte. Essa mulher, que cometeu as maiores aberrações do ponto de vista sexual, manteve intacta em si, uma dignidade profunda e sua inocência nata, que acredito que existe no ser humano mais culpado.

Estado – Mas como foi o processo de escritura desde o ponto de vista de uma mulher?

Roa Bastos – Utilizando um recurso de mimetismo disse “gostaria de escrever esta história como a teria escrito uma mulher”. Somente uma mulher pode escrever sobre uma mulher. Meu esforço, mais que literário, da construção de uma história, foi o fato que se possa assimilar esse estilo profundo que tem a mulher escritora. Sei que fracassei e o fracasso às vezes se constitui em suecesso se o reconhecemos….Li neste dois último anos obras escritas por mulheres, querendo mimetizar esse estilo. Bernard Shaw dizia que um autor deve ser tão malvado ou tão bondoso como o mais maldito seus personagens, e também como o mais valorizado. Se um escritor não pode alcançar na altura nem o bem nem o mal como seus personagens, tampouco pode escrever sobre eles. Esta obra pelo menos tem a intenção da noção de mundo, a sensibilidade, essa prodigiosa capacidade de intuição que a mulher tem mais de que o homem e está negada a ele. Admito meu fracasso, mas tentei essa possibilidade.

Estado – Há outra madame famosa na história paraguaia, a madame Lynch, mulher do ditador Solano López. O Paraguai parece pródigo em mulheres fortes…

Roa Bastos – A tendência da protagonista do livro é se apoiar em alguns mitos. Neste caso, com a madame Lynch, uma mulher legendária à qual madame Sui queria se parecer. Ela é um avatar de outro personagem. No livro “Filho de homem” ela se chama Lágrimas González. Não a transformei, mas lhe dei outro destino, fazendo-a mestiça de paraguaio e japonesa. Mas os mitos se esgotam, como o poder. Então ela se aferra a outro mito mais próximo. Por coincidência, sob a lei da casualidade, que é uma das mais rigorosas que existem no mundo e na vida humana, cai em suas mãos o livro de Eva Perón, “A razão de minha vida”. O mito de madame Lynch se transforma. Agora ela quer ser como Evita. E provavelmente um de seus sonhos, quando aceita ser a hetaira, a concubina do Ditador, é que este lhe dê poder e assim possa imitar Eva Perón e o que esta fez pelos descamisados na Argentina, fazendo o mesmo pelos pobres no Paraguai. Todos este mitos se diluem com o tempo e o que fica é a total solidão do ser humano diante do mistério da vida e essa fenda intransponível que é a morte. Eu, como escritor, já esqueci um pouco do que escrevi. Acho que ela se auto-sacrifica para compensar esse declínio que se produz em seu ser com a perda do amor que ela considerou eterno.

Estado – Os escritores exilados parecem ser os que melhor entendem sua pátria, disse Vargas Llosa. O sr. que colocaria nessa categoria?

Roa Bastos – Absolutamente, não. Corre-se o risco de dar uma imagem falsa de seu país. A perspectiva aumenta os excessos da imaginação. Mas os que ficaram no Paraguai não se sentiram estimulados para escrever. Todos aqueles que escrevíamos, por essa imensa carga de conceitos que a palavra leva, fomos embora. Assim surgiu uma literatura ausente. Acho que a maioria dos escritores da América Latina começaram a escrever durante o exílio talvez por um impulso desencadeado de não perder a língua nativa ao se ver em terras estrangeiras.

Estado – As ditaduras da América Latina deram esse tom diferente à literatura do continente?

Roa Bastos – Influiu muito. A palavra sempre carrega um sentido, o famoso significado do qual falavam os estruturalistas. Há uma espécie de fascinação pelo poder na qual é inevitável cair. É difícil para a literatura escapar à repressão. É mais fácil para a música ou a pintura se esquivarem da perseguição política. O poder não lê. Como não faz isso, manda preparar relatórios. E os relatórios são tão sucintos e resumidos que vão tachando as obras como perigosas para o regime. Além disso há o problema que essa literatura perseguida corre o risco de ser panfletária. Sempre resisti a essa noção da literatura engajada. A literatura mais comprometida não é aquela que dá sinais de compromisso, mas a que o pratica.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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