Peculiarmente espremidos: 80% dos argentinos em 1% do território
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Peculiarmente espremidos: 80% dos argentinos em 1% do território

arielpalacios

20 de dezembro de 2010 | 11h21

Foto de 1914: imigrantes espanhóis em Buenos Aires. A cidade cresceu na virada do século XIX para o XX graças à migração dos países europeus. Naquele ano, metade dos habitantes da cidade não haviam nascido no país.

Buenos Aires, os municípios da Grande Buenos Aires e de áreas vizinhas (entre as cidades de Escobar e La Plata), além das aglomerações urbanas das principais cidades argentinas, como Córdoba, Rosario, Mendoza, Santa Fe, Salta, Mar del Plata entre várias outras, ilustram um peculiar modus vivendi “espremido” dos argentinos: segundo os dados do censo nacional elaborado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), em 1% do território nacional, concentra-se 80% da população do país. 

Isto é, oito de cada dez argentinos residem em cidades de grande ou médio porte que, se estivessem concentradas em um único aglomerado urbano, equivaleria a 22,5 mil quilômetros quadrados, isto é, 1% do território argentino. Ou, o equivalente à menor província em área do país, Tucumán.

Desse total, boa parte – 12,7 milhões – concentram-se na cidade de Buenos Aires e sua região metropolitana. Se for acrescentado o resto da província de Buenos Aires, 18,4 milhões de pessoas (dos 40 milhões do país) aglomeram-se na cidade de Buenos Aires e no território bonaerense.

Este dado – que reforça a denominação da área metropolitana de Buenos Aires como “Cabeça de Golias” (Cabeza de Goliath, nome do livro de Ezequiel Martínez Estrada, que já em 1940 criticava a concentração excessiva da população e atividade política e econômica do país na área da capital) – é um dos diversos resultados do censo nacional. Mas, a maior parte dos dados consolidados somente serão anunciados no ano que vem.

Em diversas áreas do país o estilo de concentração de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires é reproduzida em escala menor. Esse é o caso de Mendoza, cuja capital homônima – e sua área metropolitana – concentra boa parte da população provincial. O mesmo repete-se com as capitais provinciais em Tucumán, Salta, Santa Cruz, La Pampa, entre outras.  Isto é: grande concentração ao redor de uma cidade, enquanto que o resto da província fica semi-deserta.

Por este motivo é que, ao viajar pelas estradas argentinas, o viajante poderá ver imensas áreas totalmente despovoadas entre os aglomerados urbanos.

40 MILHÕES – Segundo o censo a Argentina possui 40 milhões de habitantes. Isso equivale a 10,6% a mais do que no censo de 2001, que registrou na época 36,26 milhões de pessoas. O ritmo do crescimento da população teve uma média anual de 1,17%.

Além disso, o Indec calculou que a densidade demográfica da Argentina passou de 13 habitantes por quilômetro quadrado em 2001 para 14,4 em 2010.

Multidão em comício na portenha avenida 9 de Julio no início dos anos 5o.

BONAERENSES – Os dados indicam que província de Buenos Aires, a maior do país, possui 15,5 milhões de pessoas. Isto é, concentra 38,9% do total dos habitantes da Argentina.

Do total de habitantes no território bonaerense 9,9 milhões residem nos 24 municípios que formam a Grande Buenos Aires, cinturão industrial da capital argentina e feudo político do partido Justicialista (Peronista).

Concentração da população argentina na área de Buenos Aires. Capital do país e sua região metropolitana marcadas com a linha vermelha. Letra A, delta do rio Paraná; letra B, foz do rio Uruguai; letra C, a cidade uruguaia de Colonia; letra U, o Uruguai. A letra D marca o rio da Prata (mapa do Google Earth). Ali estão 12,7 milhões (do total de 40 milhões) de pessoas.

Embaixo, em vermelho,a província de Tucumán: sua superfície equivale a 1% do território nacional. Se a população de Buenos Aires, das cidades da Grande Buenos Aires e as principais cidades do país fossem concentradas em um único aglomerado urbano, caberia dentro desta pequena província.

PORTENHOS – Segundo o censo, a cidade de Buenos Aires teria 2,89 milhões de habitantes. Isso indica que a cidade cresceu somente 4% na última década, já que em 2001 tinha 2,7 milhões de habitantes. No entanto, a população do distrito federal caiu em relação a 1945, momento de maior expansão da cidade, quando contava com 3,2 milhões.

Segundo especialistas, a cidade esvaziou-se nas décadas posteriores com diversos êxodos de profissionais ao exterior nas crises econômicas argentinas, exílios políticos e a mudança de portenhos para bairros privados na Grande Buenos Aires, longe do tumulto do centro da capital.

Do total de habitantes em território portenho, 11% nasceram no exterior. Desse total, 6% são imigrantes de países com fronteiras com a Argentina.

Segundo o censo 5 milhões de pessoas de fora de Buenos Aires circulam diariamente nas ruas da capital. A maior parte delas são habitantes dos municípios da Grande Buenos Aires. 

Buenos Aires em um mapa do ano 1800,  quando ainda era um vilarejo perdido no sul do continente que vivia às custas do contrabando no Rio da Prata.

OUTRAS – Córdoba, capital da província homônima, que tornou-se a segunda maior cidade do país em 2001, mantém o posto com 1,33 milhão de pessoas. Rosario, na província de Santa Fe, e o maior porto de escoamento de cereais da Argentina, possui 1,19 milhão, ficando em terceiro lugar.

As duas províncias com menor quantidade de habitantes estão no extremo sul do país: Santa Cruz, com 272 mil habitantes, e Terra do Fogo, com 126 mil.

MULHERES E HOMENS – O censo também indicou que existem 95,4 homens para cada 100 mulheres em todo o país. Mas, na cidade de Buenos Aires a proporção de homens cai para 85,8 a cada 100 mulheres.

No bairro portenho da Recoleta está o menor índice de presença masculina, com 73,3 homens para cada centena de mulheres.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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