Pérolas do pensamento ‘maradoniano’
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Pérolas do pensamento ‘maradoniano’

arielpalacios

30 de março de 2009 | 07h00

maradona
Quando Maradona abre a boca, é de se esperar alguma polêmica epígrafe

Diego Armando Maradona está novamente na crista da onda. No sábado à noite debutou oficialmente como técnico da seleção argentina em um jogo oficial (os anteriores, nos últimos três meses, haviam sido amistosos). O resultado do embate no estádio Monumental de Núñez com a seleção da Venezuela – um placar de 4 a 0 a favor da Argentina – reduziu drasticamente as críticas que eram feitas ao turbulento “El Diez” desde que havia sido entronizado no final do ano passado como novo técnico da seleção argentina.

Em novembro passado diversas pesquisas indicaram que uma proporção de 60% a 85% dos argentinos não queriam Maradona de forma alguma no comando da seleção. Os argentinos não negavam reconhecimento a “El Pibe de Oro” (O Garoto de Ouro) por seu desempenho como jogador nos anos 80 e início dos 90. Mas, passado de glórias futebolísticas à parte, consideravam que o ex-jogador não tinha estabilidade emocional suficiente para o posto (levando em conta as overdoses de cocaína – e até uma insólita de croissants com doce de leite – o coma hepático, os escândalos com modelos, além dos frequentes acessos de ira, entre outros).

No entanto, o desempenho da seleção neste fim de semana – e o comportamento calmo de Maradona nos últimos meses – começaram a mudar gradualmente a postura da opinião pública a favor do técnico.

O ressurgimento do protagonismo de Maradona também está suscitando expectativas por novas “pérolas” do pensamento maradoniano. O ex-jogador é conhecido pela prática constante do esporte das epigrafes, no qual é expoente na Argentina. Suas frases, costumeiramente condimentadas com toques de humor, também contêm uma dura crueza e ocasionalmente partem para a agressividade explícita.

Segundo os jornalistas Marcelo Gantman e Andrés Burgos, autores do livro “Diego Dijo” (Diego Disse), que reúne mil frases do mais puro pensamento maradoniano, indicam que Maradona – como “frasista” – foi “um talento inesperado”: “sua capacidade de resumir em uma frase curta, às vezes com ironia, outras com ira, quase sempre com destinatário preciso, são equivalentes à resolução de suas jogadas. Diego fala tal como jogou. Pensa rápido e executa da mesma forma”.

A seguir, alguns conceitos pronunciados pelo polêmico “El Pibe de Oro” nos últimos 30 anos:

FUTEBOL – Sobre sua paixão, o futebol, Maradona não tem sutilezas. “Pressão é o que sofre o cara que acorda às 5:00 da manhã para trabalhar e ganhar 10 pesos. Não é o caso da gente, que andamos em BMW ou em Mercedes Benz” (1996), disse, referindo-se à vida dos jogadores de altos salários.

Em suas frases não falta o egocentrismo: “a bola diz ‘Diego’ em todos os pontos do planeta” (1997).

Maradona também tentou derrubar clichês sobre esse esporte: “Como é que dá para falar nessa tal de beleza futebolística?? Se formos falar de beleza, que seja a da Peleritti (Carolina Peleritti, uma morena argentina considerada nos anos 90 uma das mais belas modelos do país)…Beleza do futebol, uma ova!”. (1993).

Além disso, Maradona surpreende com o inesperado: “se não tivesse sido jogador de futebol, gostaria ter feito a carreira de contador”.

DEUS – “El Diez” considera que o futebol surgiu em sua vida como um desígnio divino: “sou um privilegiado, mas somente porque Deus quis. Porque Deus me fez jogar bem. Ele me deu essa habilidade. Por isso faço o sinal da cruz sempre que entro no campo. Se não fizesse isso, ia achar que o estava traindo”.
Sua relação com o Todo-poderoso, afirma, é especial: “é evidente que tenho linha direta com o Barba (expressão que usa para referir-se a Deus)“.

PELÉ – Em um quarto de século de carreira, “El Diez” falou sobre tudo e sobre todos. Um dos assuntos maradonianos foi seu eterno – embora não contemporâneo – rival brasileiro, Pelé.
Há frases nas quais Maradona confessa sua admiração pelo “Rei”: “morro de vontade de conhecer Pelé. Fico satisfeito se tiver cinco minutos com ele. E se tiver dez, sou Gardel (ser Gardel, na Argentina equivale a ser o máximo)“. A frase foi pronunciada em 1979, poucos dias antes do jovem Maradona conhecer o jogador brasileiro.
Logo após conhecê-lo, comentou extasiado: “eu sabia que Pelé era um deus como jogador. Mas, agora que o conheci, sei que também ele é um deus como pessoa”.
Depois, o fascínio com Pelé acabou.
Isso fica evidente em frases como “Pelé fala demais…teria que calar a boca”, pronunciada em 1982. Cinco anos depois, disparou de forma lacônica: “Pelé é homossexual”.
Em 1991, completou: “Pelé é um títere da FIFA e um office-boy de Havelange”. Mas, depois, recuou: “Pelé tem que substituir Havelange no comando da FIFA. Eu adoraria” (1995). Mais uma vez, criticou: “o negão dá pena. Está doente de protagonismo” (2000). No mesmo ano, disparou: “Pelé debutou sexualmente com um garoto, e além disso, espancava a esposa. Pelé continua transando com garotinhos”.

A VIDA – “As pessoas precisam entender que Maradona não é uma máquina de dar felicidade”, afirmou em 1982, quando já começava a falar de si próprio em terceira pessoa. Em 2004, internado em uma clínica psiquiátrica, desabafou sobre seus colegas: “nesta clínica tem um que diz que é o Robinson Crusoé…e ninguém acredita que eu sou o Maradona”.
O ex-astro lamenta que as pessoas se aproveitem dele: “todo o mundo me usou”.

DROGAS – Para todo o mundo eu fui um drogado, sou um drogado e serei em drogado”, desabafou Maradona em 1996. Em 2004, entre uma overdose e outra de cocaína, murmurou: “estou perdendo por nocaute”. Na mesma época, lamentou: “tenho 44 anos e estou mais próximo do fim de minha vida do que do início”.

POLÍTICA – Cético, Maradona mostrou na virada do século uma visão crua da Argentina: “neste país sempre acontece a mesma coisa. É o mesmo jogo, que passam 40 mil vezes em replay”. Pessimista sobre seus próprios compatriotas, afirmou: “o esporte nacional na Argentina é enganar as pessoas”.

E aqui, um bônus track:

FUTEBOL E FILOSOFIA
“Os argentinos são maradonianos” (1997)

“Chegar até a área e não poder chutar em direção ao gol é como dançar com a própria irmã” (2001)

“Nunca imaginei que existiam pessoas que ficam felizes com minha tristeza” (1990)

DROGAS
“No começo, a droga te deixa eufórico…é como ganhar um campeonato. Aí você pensa: amanhã não importa, já que hoje eu ganhei o campeonato” (1996)

“Não sei como apareceram essas substâncias no controle anti-doping. Com certeza é um engano” (1990).

“Eu me drogo, mas não vendo cocaína” (1994)

“Quando estava internado na clínica psiquiátrica eu dizia aos pacientes que era Maradona…e o louquinho que dizia que era Napoleão me respondia que eu estava maluco” (2004)

POLÍTICA
“Fidel Castro tem os testículos bem colocados” (2001)

SEXO
“Não tenho nada contra os gays. Acho bom que existam, já que dessa forma deixam livres mais mulheres para nós, que somos machos de verdade” (1998)

“Transo com a Cláudia (na época, sua esposa) todos os dias, pois quero ter um filho homem” (1999)

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