Peronistas entram em ritmo de pós-kirchnerismo
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Peronistas entram em ritmo de pós-kirchnerismo

arielpalacios

21 de agosto de 2013 | 21h26

“Pingüinos” (Pinguins, denominação dos kirchneristas, por causa da origem patagônica do defunto ex-presidente Néstor Kirchner, que era “El Pingüino”) começam êxodo gradual rumo a novas lideranças peronistas não-kirchneristas (ou ex-kirchneristas…e também os kirchneristas diet). Fluxo começou após a derrota do governo nas eleições primárias de 12 de agosto. Os analistas indicam que a presidente Cristina Kirchner perderia aliados a granel nos próximos dois meses, até as eleições parlamentares de outubro. “Rajemos, muchachos” poderia ser um equivalente a “‘zimbora, rapaziada”.

Prefeitos, governadores e parlamentares do Partido Justicialista (Peronista) que respaldavam a presidente Cristina Kirchner – e antes dela, seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner – começaram a emitir sinais de diáspora ao longo dos últimos dias. No domingo dia 12 à noite a abertura das urnas das eleições primárias simultâneas e obrigatórias constituiu um duro golpe ao governo, já que os resultados indicaram que as forças kirchneristas (uma sublegenda do peronismo) obtiveram em todo o país apenas 26% dos votos, o mais baixo desempenho eleitoral em uma década de kirchnerismo. Os diversos partidos da oposição, em conjunto (entre eles, o peronismo dissidente), reuniram 74% dos votos.

Diversos líderes kirchneristas indicaram que o governo de Cristina está com graves problemas e admitem que a população está irritada. “Foi uma enorme surra. O povo está zangado”, afirmou o ex-prefeito de José C.Paz, Mario Ishii, kirchnerista e um dos “barões da Grande Buenos Aires”, denominação dos caudilhos que abasteciam o kirchnerismo com os votos dos empobrecidos municípios ao redor da capital argentina.

Discretamente, em off, diversos governadores kirchneristas criticam as ações da presidente Cristina, enquanto que seus assessores iniciam contatos com representantes do peronismo dissidente, de olho em uma sobrevivência política mais além de outubro, quando serão realizadas as eleições parlamentares que definirão o mapa do poder dos próximos dois anos.

“Se o barco afunda por teimosia do piloto, vamos procurar os botes salva-vidas”, me disse um assessor de um senador kirchnerista do norte do país, ao confirmar que os tempos “pós-kirchneristas” estão começando. Depois, sorri irônico e diz: “não somos a orquestra do Titanic para tocar até o mortal final….”.

Cartum de James Brennan sobre pingüins e o Titanic

SEM TERCEIRA EDIÇÃO – A presidente Cristina Kirchner tem pela frente um cenário no qual será impossível reformar a constituição nacional, já que, se o resultado das primárias for replicado nas eleições de outubro, o governo não obterá os dois terços do Parlamento. Esse é o patamar imprescindível para reformar a constituição nacional e, assim, tentar implementar o artigo que permitiria reeleições presidenciais indefinidas, plano denominado “Cristina eterna”.

A dois anos do fim de seu mandato, os analistas afirmam que o clima, daqui para a frente, será o de “fim de ciclo”. Diversos políticos já falam em “pós-kirchnerismo”.

O filósofo Ricardo Foster, líder dos intelectuais kirchneristas e candidato governista a deputado, admitiu que “ficou claro definitivamente que não haverá chances de mudança constitucional para permitir uma segunda reeleição”.

Cristina Kirchner foi eleita pela primeira vez em 2007, quando era primeira dama. Seu marido, Néstor Kirchner, colocou a máquina do Estado para fazer sua campanha. A presidente, que herdou quase todos os ministros do marido, foi reeleita em 2011. O mandato termina em 2015.

A analista de opinião pública Mariel Fornoni, da consultoria Management & Fit, me disse que os projetos de reeleição “vão a pique” com este resultado. “Antigamente, quando as coisas iam mal para Cristina, ela geralmente redobrava a aposta e insistia em um projeto. Mas agora não existe nem consenso dentro do peronismo para mudar a constituição sequer o apoio da opinião pública”.

O sociólogo e analista político Carlos Fara me comentou que “o plano ‘Cristina Eterna’ fica totalmente arquivado, por mais que ela tente ressuscitar o assunto, não haverá condição para isso”. Segundo Fara, a presidente Cristina comandou a campanha “como se fosse um plebiscito sobre sua gestão”.

Sem chances de terceira edição para Cristina Kirchner. O plano de mudança de reforma da carta magna para permitir um terceiro mandato fica arquivado. Se bem que no peronismo, nunca se sabe

Os analistas indicam que os expoentes do pós-kirchnerismo são duas figuras que tornaram-se referentes na província de Buenos Aires, território político crucial para definir uma eleição, já que aglutina 38% do eleitorado e 40% do PIB argentino.

Um deles é o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, considerado um kirchnerista “diet” que, perante a impossibilidade de uma nova candidatura presidencial de Cristina Kirchner, seria o escolhido do governo – a contragosto – para a sucessão em 2015.

O outro é Sergio Massa, ex-chefe do gabinete de ministros de Cristina e atual prefeito do município de Tigre. Há poucos meses Massa rompeu com o kirchnerismo, passando para o peronismo dissidente.

O prefeito, de 41 anos, tornou-se a estrela das eleições primárias do domingo passado ao derrotar o candidato de Cristina, Martín Insaurralde. Massa obteve 35% dos votos, enquanto que Insaurralde ficou com 29%.

Novas pesquisas indicam que Massa contaria com 39,9% das intenções de voto para as eleições parlamentares de outubro. No entanto, Insaurralde teria uma leve queda, para 28,8%.

“La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista, emitiu um comunicado no qual afirmam que não darão “nem um passo para trás” após a derrota nas urnas. Segundo os integrantes desta organização, cujo líder formal é Máximo Kirchner, filho do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), a oposição “está brindando com champanhe de forma antecipada” e exibindo um “triunfalismo obsceno”.

CREPÚSCULO – “O crepúsculo de um líder no peronismo começa quando confluem dois fenômenos: a derrota em uma eleição e a impossibilidade de se manter no cargo por razões constitucionais. Esses dois fatores confluem agora”, declarou Fara.

No entanto, Fara considera que o pós-kirchnerismo começou a tornar-se uma realidade desde que as pesquisas indicavam há um ano a queda da aprovação da presidente Cristina. “Isso agora ficou expresso de forma política nas eleições primárias. Em função desse contexto é de se esperar que agora surja uma expressão política dentro do próprio kirchnerismo que interpretará a demanda social”, explica.

EMPRESÁRIOS – O presidente da União Industrial Argentina (UIA), Héctor Méndez, afirmou que a derrota eleitoral sofrida pela presidente Cristina nas eleições primárias é a consequência de “vários problemas” do governo. Segundo Méndez, é preciso que a presidente Cristina “veja que a realidade é diferente da sua”.

O líder industrial, em um tom pouco frequente para a UIA – entidade que ao longo da última década teve boas relações com o governo Kirchner – afirmou que, caso a presidente Cristina “faça correções (na política econômica), terá mais votos. Se não fizer correções, terá menos votos” nas eleições parlamentares de outubro.

Uma pesquisa da consultoria OPSM indicou que 92,3% dos entrevistados querem mudanças na política econômica. Destes, 31% consideram que a presidente deve introduzir “algumas mudanças”. Outros 32,5% afirmam que deverá fazer “mudanças profundas”, enquanto que 28,8% sustentam que o governo deve implementar “uma mudança total no rumo”.

Presidente Cristina Kurchner exibe “Cristinita”, boneca de pano que retrata a presidente. Está à venda na lojinha do Museu Bicentenário, nos fundos da Casa Rosada. Segundo o presidente da UIA é preciso que a presidente Cristina “veja que a realidade é diferente da sua”.

SINDICATOS – O caminhoneiro Hugo Moyano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical da Argentina, ameaçou o governo Kirchner de declarar respaldo a Sergio Massa.

Moyano, que admitiu uma aproximação a Massa, novo inimigo de Cristina, afirmou em referência ao kirchnerismo: “este modelo está esgotado”. O sindicalista entrou em rota de colisão com a presidente Cristina Kirchner em meados do ano passado. Há poucos dias afirmou que o governo começava a ter “cheiro de copo de leite”, em irônica alusão à flor branca usada nos velórios e funerais.

Mas os sindicalistas aliados da presidente Cristina também começam a emitir sinais de que poderiam afastar-se do governo. O líder dos taxistas, Omar Viviani, declarou com pragmatismo – e com ambiguidade – que “nas eleições presidenciais de 2015 os sindicatos respaldarão aqueles que ganhem”.

E para encerrar, um pouco de Astor Piazzolla: “Soledad” (Solidão):

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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