Petrobrás teve uma década de tango “Amablemente” na Argentina
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Petrobrás teve uma década de tango “Amablemente” na Argentina

arielpalacios

21 de abril de 2012 | 16h49

 

Edmundo Rivero, o emblemático cantor de tangos e milongas que compôs o irônico “Amablemente” (Amavelmente)

“Y luego, besuqueándole la frente, con gran tranqüilidade, amablemente, le fajó treinta y cuatro puñaladas” (E na sequência, beijando-a na testa, com grande tranquilidade, amavelmente, lhe desferiu trinta e quatro punhaladas). Esses são os versos finais do tango “Amablemente” (Amavelmente), do compositor e cantor Edmundo Rivero. A letra ilustra bem o comportamento mutável dos governos do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua sucessora Cristina Kirchner com a Petrobrás, empresa do principal parceiro estratégico da Argentina, que desembarcou no país em grande estilo em 2002, quando adquiriu os ativos da Pérez Companc (Pecom), que era a última grande empresa privada do setor energético da Argentina que ainda estava em mãos nacionais.

Na época, a compra quase foi a pique pela oposição do presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003). No entanto, depois de ter driblado os obstáculos, a Petrobrás também teve problemas com o sucessor de Duhalde, Néstor Kirchner (2003-2007), que também preferia que empresários argentinos amigáveis com o governo controlassem os ativos adquiridos pela empresa brasileira.

Para embalar a leitura, “Amablemente”, com Edmundo Rivero. Gravação ao vivo, no El Viejo Almacén.

 http://www.youtube.com/watch?v=QJG_LkQJSYs

Em 2004 Kirchner exigiu que a Petrobrás Energia – nome da subsidiária argentina – colocasse os fundos que faltavam para a conclusão da ampliação do gasoduto San Martín, que liga o sul da Argentina com a Grande Buenos Aires. Nervoso, durante um encontro na Casa Rosada com o então chanceler Celso Amorim, Kirchner esbravejou duramente sobre o assunto. Ou, mais especificamente, teve um inesperado e frenético esperneio na frente do ministro. A crise só foi suspensa graças à intervenção do BNDES, que enviou os fundos exigidos pelo presidente. Na seqüência, Kirchner fez longos elogios à capacidade tecnológica da Petrobrás e à associação estratégica com o Brasil.

Um ano depois a Petrobrás Energia começou a sofrer pressões de Kirchner para vender a participação acionária que possuía na Transener (companhia responsável pela maior parte da distribuição da energia elétrica no país). A empresa retrucou, afirmando que no contrato a venda dessas ações era “voluntária” e sem prazo determinado. Mas, Kirchner continuou pressionando e a Petrobrás teve que colocar as ações à venda. A opção da empresa era vender às ações à americana Eton Park. No entanto, Kirchner bloqueou a operação e forçou a venda à empresa argentina Electroingeniería, de empresários com vinculados aos Kirchners.

O ano 2012 começou com novos problemas, pois a Petrobrás – junto com outras companhias petrolíferas – foram acusadas por Cristina Kirchner de “cartelização de preços” e ameaçadas com aplicação da “Lei do Abastecimento”, que consiste em ações de castigo às empresas que sejam consideradas responsáveis por alta de preços e desabastecimento. A lei permite que o governo confisque mercadorias, coloque executivos na prisão e feche empresas.

MAIS INVESTIMENTOS – No dia 7 de março o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, reuniu-se em Buenos Aires com o ministro do Planejamento Federal, Julio De Vido, e a presidente Cristina. Na ocasião, Lobão declarou que Cristina havia pedido “mais investimentos da Petrobrás na Argentina”.

Lobão relativizou a venda de 365 postos de gasolina (de um total de 565 postos) e de uma refinaria da Petrobrás na Argentina realizada em 2010: “sim, a empresa reduziu sua presença aqui…mas pode voltar a aumentar nossa atuação!”

Essa foi a segunda vez em menos de um mês que o governo Kirchner pediu “mais investimentos” da Petrobrás na Argentina. Em fevereiro o ministro De Vido havia estado em Brasília com o mesmo pedido. Na segunda-feira, durante o discurso de anúncio da expropriação da YPF, a presidente citou a Petrobrás como modelo a seguir de sociedade anônima. Ela também sugeriu, muito superficialmente, a necessidade de uma “parceria” com a empresa brasileira na YPF.

Na sexta-feira, De Vido, o braço-direito de Cristina na área energética, esteve em Brasília para uma reunião com a presidente da Petrobrás, Maria das Graças Silva Foster e Lobão. Ali, pediu mais investimentos na Argentina.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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