Portunhol neste blueg
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Portunhol neste blueg

arielpalacios

29 de setembro de 2009 | 00h38

camoes
M. de Cervantes S. e L.V. de Camões: seus idiomas atualmente fundem-se das mais variadas e pitorescas formas

“..Eu vou falar no idioma do Mercosul, que é o portunhol!”.
A mais do que batida frase continua sendo um surrado hit parade na boca de políticos brasileiros e argentinos quando estão perante um auditório composto por uma maioria de pessoas da outra nacionalidade. Os anos passam e a velha frase sempre volta à baila. É indefectível. Inevitável como o ex-presidente Carlos Menem com gravatas versacianas amarelas-cheguei.
Os colegas correspondentes estamos preparados quando um ministro, governador ou deputado aparece, posiciona-se na frente de um microfone, faz a pausa dramática e solta a frase.
– Bom, eu vou falare hoje en éul…
E nós completamos mentalmente: “.. idioma déul Mercosul, qui és o portunhol!”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ocasionalmente recorre ao portunhol (de forma bastante moderada). Mas, em Assunção, Paraguai, há três anos, soltou espontaneamente uma frase antológica. Ele estava entrando para o jantar de presidentes do Mercosul quando percebeu que uma matilha de jornalistas estava esperando que ele fizesse alguma declaração.
– Presideeeente! Presidente!!! Pre-si-deeeeenteeee!!!

O presidente Lula acenou, sem parar de caminhar, e disse:

– Amanhãna eu hablo. Si queden tranquilis!

A frase é uma pérola portunholesca.
O “mañana” juntou-se ao “amanhã” e virou o híbrido “amanhãna” (com o terceiro ‘a’ anasalado, com til mesmo).
O ‘eu’, tudo bem, em português puro.
O ‘hablo’ em espanhol, o equivalente a nosso ‘falo’ (o verbo, hein! Não pensem besteira)
E o “si queden”, uma inversão fonética do espanhol ‘quédense’, isto é, ‘fiquem’.
Mas, o “tranquilis” (para indicar ‘tranquilos’) foi, como dizem os argentinos, la frutilla del postre (o morango da sobremesa), pois era um exemplo da influência de Antônio Carlos Bernardes Gomes, o defunto Mussum (1941-1994), o cômico que integrava ‘Os Trapalhões’, que finalizava boa parte das palavras que pronunciava com ‘is’. ‘Forevis’, ‘Cacildis’, ‘biritis’, p.exemplo.

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“Amanhãna eu hablo!”

Geralmente, em portunhol básico, a forma de transformar palavras do português para o espanhol, é a de colocar uma ‘ue’ onde existe a letra ‘o’ em português.
Outra forma muito usada é colocar uma ‘ón’ no final das palavras, como se tudo em espanhol fosse aumentativo.
Não se preocupem: muitos argentinos colocam ‘ão’ no final de palavras pretensamente em português.
Outra forma, ao passar do português para o espanhol, é a de colocar a letra ‘i’ ao lado da letra ‘e’ ou ‘o’. Uma espécie de ‘ditongomania’ desatada.

Esse foi o caso extremo de “El nuestro piensiamientio”. Esta eu ouvi há 14 anos, quando fui cobrir um evento no hotel Alvear. E ali estava um senhor, parente de presidente-intelectual, falando sobre sua especialidade.
A palavra ‘pensamento’ em português, que em espanhol é “pensamiento”, isto é, o acréscimo da letra ‘i’ na penúltima sílaba, foi crivada pelo visitante com várias ‘is’ para ficar mais ‘espanhola’. Logo, virou “pIensIamIentIo”.

hnd23sEntre os erros mais costumeiros dos argentinos, ao falar português ou improvisar com o portunhol, estão as seguintes palavras e expressões:

ESCOLA DO SAMBA: …Em vez de Escola de samba.

O MAIS GRANDE DO MUNDO: Na Argentina existe o mito de que os brasileiros referem-se ao próprio país, a cultura, o futebol e os produtos brasileiros como “o mais grande do mundo”. A frase é pronunciada costumeiramente em Buenos Aires como “O mais grandgi dú múndô”, com o erro gramatical incluído, em vez da correta “o maior do mundo”.
Em maio passado, ao assinar um acordo com a Embraer, a presidente Cristina Kirchner citou a frase, apesar de errada, e além disso, ingenuamente, enfatizou: “acho fantástico o orgulho dos brasileiros, que se referem assim, ‘o mais grande do mundo’! Isso mostra o orgulho que eles têm!”.

Um exemplo de ‘o mais grande’, no jornal ‘Olé’:
http://www.ole.clarin.com/notas/2009/04/23/futbollocal/01904229.html

VERDE-AMARELHA: verde, ok. Amarela vira ‘amarelha’, por uma tendência a pensar que todo ‘l’ vai acompanhado de um ‘h’. Talvez porque em espanhol ‘amarelo’ é “amarillo”. E, como o ‘ll’ é equivalente ao ‘lh’… Vários jornais publicam a expressão dessa forma, com frequência.

FLORIANÁPOLIS: Esta, para mim, é incompreensível. Em vez de Florianópolis, fala-se FlorianÁpolis. E não é falta de turismo argentino para a capital catarinense.

CARIOCA: Usado como equivalente a “brasileiro”. Como se todo o Brasil fosse o Rio de Janeiro.

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E aqui, alguns dos diversos erros cometidos pelos brasileiros ao falar espanhol, ou improvisar com o portuñol.

LO HOMBRE, LO EDIFICIO, LO PRESIDENTE: Em vez de ‘el hombre’, el edificio, el presidente. Poderia ser pior, como ouvi semana passada, quando um casal de turistas brasileiros me viu passeando com uma de minhas cachorras, a Lucrécia (a Carlota estava com a Miriam). Um deles me perguntou, sem saber que eu era brasileiro: “qué bonito lo cachuerro! Que razia es?”. A mulher ‘corrigiu’ o marido: “Ô Lucas, não é ‘cachuerro’, é ‘pierro’!”. Eu optei por agradecer, em espanhol, os elogios à minha cachuerra. Ou pierra. Neste caso, uma pierrita, já que é uma Yorkshire.

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O ‘muuuy amigo’ de Gardelón não existe com esse sentido em espanhol

MUY AMIGO: No Brasil, essa expressão, dita em espanhol – e de preferência assim “muuuy amiigo! Muuuyyy amiigo!” (esticando a letra ‘u’ e fazendo uma voz meio rouca) – indica que alguém não é amigo coisa alguma, e sim, é um ‘amigo da onça’, ou alguém que vai nos trair ou sacanear. Mas, “Muy amigo”, em espanhol, é literalmente “muito amigo”, isto é, um bom amigo.
Volta e meia um brasileiro desembarca em Buenos Aires e – para referir-se a alguém que pretendia prejudicar outra pessoa – cita o clássico “muy amigo”, causando confusão.
A expressão é um dos bordões mais famosos cunhados por Jô Soares. O ‘muuuuy amiiigo!” era pronunciado por Gardelón, o personagem que era um argentino que morava no Brasil e que vestia-se como o clichê do cantor de tango (terno jaquetão risca de giz, lenço no bolso, bigode fininho e brilhantina no cabelo).
Gardelón era chamado por seus conhecidos brasileiros para fazer um serviço. Este serviço era apresentado inicialmente como algo fácil, em troca do qual receberia um bom pagamento. Mas, sempre tratava-se de uma tarefa na qual Gardelón corria risco de vida, de ser preso ou espancado. Em troca de uns 10 reais, por exemplo (o equivalente em cruzeiros na época). Gardelón, após ouvir as explicações, respondia, cético: “muuuuuuuuuy amigo, muuuuuy amigo!”.

Link do Youtube para Jô Soares como ‘Gardelón’:

MENDONÇA: A cidade ao sopé da cordilheira dos Andes é Mendoza. Mas, há uma tendência de muitos turistas brasileiros – inclusive aqueles que estão em Mendoza, debaixo de um imenso cartaz com as palavras ‘Bienvenido a Mendoza’ – de pronunciar ‘Mendonça’, tal como o sobrenome português.

PORTENHO / BONAERENSE: Se muitos argentinos usam ‘carioca’ para referir-se a ‘brasileiro’, muitos brasileiros abusam com frequência do ‘portenho’ (pessoa ou alguma coisa da cidade de Buenos Aires) como equivalente a ‘argentino’.
Eventualmente, o erro pode ocorrer com a palavra “bonaerense”, que refere-se à pessoa ou algo da província de Buenos Aires, já que a pessoa pode dizer, por engano, ‘buenairense’.

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Outras palavras ouvidas nos últimos anos:

RESPECHO: Portunhol do português para o espanhol para referir-se a “respeito”. Neste caso, a lógica indica que se “peito” é “pecho” em espanhol, logo, “respeito” deveria ser “respecho”, algo que se parece às mamas de uma rês. “Tengo mucho respecho por la cultura”.

BUELSA: Para referir-se a ‘bolsa’. Mas, acontece que ‘bolsa’ é simplesmente…’bolsa’!

SACUELA: Precisa uma sacuela? Esta ouvi ano passado no aerporto de Ezeiza. Portunhol do português para o espanhol.

PUELVO: “Hay mucho puelvo aqui”. Esta ouvi na boca de uma brasileira, que fez uma arrevesada ida e volta entre os idiomas. Ela queria referir-se a ‘polvo’ (espanhol), que é ‘pó’ (português). Mas, pegou a palavra em espanhol e imprimiu-lhe anabolizada hispânica ao acrescentar o clássico ‘ue’. E aí surgiu ‘puelvo’.
Não é privativo desta amiga minha. No site do brasileiro IBGE, de dezembro de 2005, pode ser vista a seguinte tradução de um relatório do português para o espanhol: “Pocos productos tuvieron influencia por la alza, destacándose el refresco (8,13%), leche en puelvo(12,39%), cerveza (4,32%), café molído (9,05%) y pan francés (4,43%)”.

ENCOSTA: Portunhol do espanhol para o português. Para referir-se a ‘pesquisa’, que em espanhol é ‘encuesta’, a pessoa, uma pesquisadora, disse ‘encosta’. Neste caso, a ideia é a contrária à existente no Brasil. Isto é, para falar ‘português’ é preciso eliminar os ‘ue’ das palavras em espanhol e substituí-las por ‘o’.

E esta última, ouvida em uma coletiva de imprensa, mês passado:
“El presidente Lula fue elecho”…A pessoa, na última palavra, na verdade, queria dizer “eleito”, que em espanhol é “elegido”. Mas, considerou que o som de ‘tch’ ficaria mais espanhol, e portanto, os argentinos presentes ouviram “el presidente Lula fue elecho”. Mas, ‘helecho’ (com ‘h’ na frente) significa ‘samambaia’. Logo, todos entenderam que Lula havia transformado-se nessa planta da divisão das Pteridophyta.

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Aqui, uma publicidade argentina na qual os próprios argentinos satirizam seus compatriotas que tentam falar ‘portchuguéis”.

E neste link, o humorista Alfredo Casero canta uma bossa nova aportunholada…uma bossa nova na qual explica que seu gato não gosta de radiação:
http://www.youtube.com/watch?v=_UPh2EdGHH0

marca111PRONÚNCIA E ENTONAÇÃO:
Aos brasileiros que queiram falar espanhol-‘argentino’:
Não se fala como se estivesse rouco ou fosse o Gardelón. Fala-se normalmente. As pessoas percebem quando alguém tenta ser ‘portenho profissional’. Ou mais portenho que os portenhos.

Aos argentinos que desejem falar português-‘brasileiro’:
Os brasileiros não falam requebrando o quadril como se estivessem dançando samba todo o dia. Frequentemente ouço tal argumento (e que é dito do fundo da alma, com admiração pelo Brasil): “ah…brasileño! Que linda forma de hablar ustedes tienen…es tan musical!”.
Outro detalhe: nem todos os 185 milhões de brasileiros falam “carioquês”.
E um derradeiro: “Tudo bem!” pronuncia-se “tudo bem!”. E não “tchudo báim!”

JORNAIS, CANAIS DE TV
O “Clarín”, o jornal de maior tiragem da Argentina (e o de maior tiragem da América hispanofalante) é “Clarín”. E não como ocasionalmente aparece na forma de El Clarín”.

Na contra-mão, o jornal “O Globo” é frequentemente grafado na mídia argentina como “OGlobo”. Com apóstrofe, como se fosse ‘irlandês’. E a Rede Globo vira “Red OGlobo”.

listaaaaa E para encerrar, um poema – em portunhol – do emblemático gaúcho Mario Quintana.

Edificante Poema Escrito em Portuñol

Don Ramón se tomo um pifón:
bebia demasiado, don Ramón!

Y al volver cambaleante a su casa,
avistó em el camino:
um árbol
y um toro…

Pero como veia duplo, don Ramón
vio um árbol que era
y um árbol que no era,
um toro que era
y um toro que no era.
Y don Ramón se subió al árbol que no era:
Y lo atropelo el toro que era.
Triste fim de don Ramón!

lendo34aENCONTRO COM COMENTARISTAS E LEITORES
Caros comentaristas e leitores, estarei em São Paulo no dia 30 de setembro, 4afeira desta semana.

Estamos organizando um encontro com os comentaristas e leitores deste blog em um lugar (bar-restaurante) nas redondezas da av. Paulista para conversar.
O encontro será a partir das 18:30.

Quem quiser participar, por favor deixe em um comentário o nome e o mail com o qual posso contatá-lo (comentário que não será publicado).

A contrassenha para o encontro, comme il faut em portunhol, é: “lo pierrito de ustede és molto bonito!”
Será um prazer conhecê-los pessoalmente!!!
Abraços,
Ariel

smowkey1
Smokey, uma ‘cachuerrita’ que participou da Segunda Guerra Mundial. O primeiro canino a receber uma medalha do Exército dos EUA.

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Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
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