Presidentes da esquerda sul-americana flertam com o papa Francisco
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Presidentes da esquerda sul-americana flertam com o papa Francisco

arielpalacios

30 de julho de 2013 | 08h02

Rafael Correa reza em uma igreja em Quito, Equador. O presidente define-se como “social-cristão”. Em sintonia com o Vaticano, é contra a descriminalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Conservador, embora moderado. Latino-americano, mas sem entusiasmo enfático pelos movimentos católicos regionais como a Teologia da Liberação. Este é Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, um sumo pontífice que nunca flertou com a esquerda da América do Sul. No entanto, apesar dessa marca, o novo papa está sendo adulado pelos presidentes que se autodefinem de “esquerda” na região. “Tenho certeza de que o presidente Hugo Chávez intercedeu pessoalmente, lá no céu, pela eleição do papa Francisco”, declarou exultante o presidente venezuelano Nicolás Maduro em março, após o anúncio de que o novo santo padre era um argentino, e portanto, um latino-americano. Maduro, tal como fazia Chávez, invoca constantemente Deus, a Virgem Maria e diversos santos.

Outro líder bolivariano, o equatoriano presidente Rafael Correa, que autodefine-se representante de um “socialismo cristão”, manteve há pouco tempo uma animada visita com o papa com o intercâmbio de uma série de piadas com o santo padre. “Quem diria que um ‘boludo’ (paspalho) como eu estaria aqui?”, perguntou Correa ao papa. Bergoglio lhe disse: “você está novinho em folha como uma alface recém-colhida”.

Tanto Correa como Maduro – em sintonia com o Vaticano – são declaradamente contra a descriminalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A mesma postura é aplicada pelo boliviano Evo Morales. Já o peruano Ollanta Humala – não se reuniu com o novo papa, mas convidou o santo padre para visitar o Peru – declara-se contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas é flexível sobre o aborto. O nacional-esquerdista (assim define-se seu partido) peruano pediu “abundantes dons divinos para nação peruana”, além de solicitar a “amorosa intercessão de Maria Santíssima” para os habitantes de seu país.

 

Maduro (bem como seu antecessor Hugo Chávez) é declaradamente homofóbico. Segundo o presidente venezuelano, o defunto presidente Chávez fez lobby no Céu para que o papa Francisco fosse eleito em março.

No caso da presidente Cristina Kirchner, o governo argentino aprovou a lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo nos tempos em que a Casa Rosada estava em conflito aberto com o então cardeal Jorge Bergoglio. No entanto, a presidente – que desde março emite constantes elogios ao sumo pontífice – deixou claro que não concordava com os projetos de lei que alguns setores kirchneristas planejavam apresentar no Parlamento para descriminalizar o aborto neste ano.

Semanas após a eleição do novo papa, o senador kirchnerista Aníbal Fernández admitiu que a existência de um argentino no trono de São Pedro tornava impossível avançar com qualquer espécie de projeto nessa direção.

Desde maio de 2003 o casal Kirchner manteve uma relação de conflitos com o cardeal Jorge Bergoglio até março deste ano, quando foi eleito papa. Durante uma década os Kirchners acusaram Bergoglio de ser “líder” da oposição. Vários aliados kirchneristas o chamavam de “fascista”. No entanto, a partir da entronização do pontífice a presidente Cristina Kirchner mudou o tom e passou a elogiar o santo padre. O governo afirma que “jamais” teve conflitos com o papa. Além disso, os ministros de Cristina até sustentam que o papa é “peronista” como eles.

Meses antes da eleição de Francisco a presidente Cristina havia assumido em seus discursos referências constantes as poderes celestiais. Desde a entronização do conterrâneo no trono de São Pedro as referências ficaram mais frequentes. Na sexta-feira ela ressaltou que um aliado político seu, Martín Insaurralde, prefeito de Lomas de Zamora e candidato a deputado, havia sido curado do câncer que sofria “por Deus e a Virgem Maria” (não citou, em momento algum, os médicos terráqueos que fizeram seu tratamento).

Na sexta-feira, durante a inauguração de um estádio na cidade de Morón, na Grande Buenos Aires, a presidente Cristina comparou o papa Francisco com o ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010 por um fulminante ataque cardíaco. Segundo Cristina, existe semelhança entre a frase do papa Francisco convocando os jovens a fazer “bagunça” e “sair às ruas” e o apelo de Kirchner para “transgredir”.

BEATIFICAÇÃO – Na América Central também existe fascínio pelo papa por parte de setores da esquerda. Esse é o caso do presidente de El Salvador, Mauricio Funes, o primeiro presidente esquerdista da História desse país, que entregou ao papa Francisco um relicário com um pedaço da batina que o arcebispo salvadorenho Oscar Arnulfo Romero vestia quando foi assassinado por um comando paramilitar de direita em 1980.

Funes, que faz constantes referências sobre monsenhor Romero como “guia espiritual da nação”, solicitou ao sumo pontífice que o arcebispo assassinado seja declarado beato. Em comunicado após o encontro o Vaticano afirmou que o presidente e o papa conversaram sobre “a defesa da vida humana, o casamento e a família”.

Em março, poucas horas após a eleição do novo papa, o presidente de Cuba, o comunista Raúl Castro, enviou seus parabéns a Francisco, expressando seus “melhores desejos para seu pontificado”.

Ao longo da última década e meia o governo cubano está retomando uma gradual reaproximação com o Vaticano, após um período de mais de 30 anos durante os quais as celebrações católicas foram desencorajadas por serem “contra-revolucionárias”. Em 1997 o líder caribenho Fidel Castro restabeleceu os festejos de Natal, enquanto que seu irmão Raúl retomou as cerimônias da sexta-feira santa em 2012.

Cristina Kirchner, feliz ao receber os sapatinhos destinados ao neto presidencial. Esse foi o obséquio do santo padre. Coincidentemente, a marca “Pimpolho” não consegue entrar na Argentina pelas barreiras aplicadas pela presidente Cristina.

MISSA, FOTO E SAPATINHOS – A presidente Cristina Kirchner viajou no sábado à noite rumo ao Rio de Janeiro para participar da missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e ter um breve encontro com o papa Francisco. No avião presidencial, o Tango 01, Cristina levou o prefeito de Lomas de Zamora, Martín Insaurralde, que é o candidato a cabeça da lista de deputados para as primárias de agosto.

Cristina, que havia ficado sem um candidato de peso para liderar estas eleições (em 2009 a cabeça de lista havia sido seu próprio marido, o ex-presidente Néstor Kirchner), recorreu a Insaurralde, praticamente desconhecido do grande público.

Nas últimas semanas Cristina atarefou-se em mostrar-se em público ao lado do candidato, para torná-lo mais conhecido.

No domingo, no Rio de Janeiro, Cristina assistiu a missa. Na fileira de trás, sentado, estava Insaurralde. A presidente apresentou seu candidato ao papa, com o qual fez uma foto.

O sumo pontífice também deu de presente à presidente argentina um par de sapatinhos para seu neto recém-nascido, Néstor Ivan Kirchner. “Ele também me abençoou uns rosários”, disse Cristina, após o encerramento da JMJ.

Cristina deu de presente ao papa uma valise de couro. “Para levar as encíclicas”, explicou a presidente argentina.

ATEU E MÃOZINHA – Entre os vários encontros que teve desde sua entronização, o papa Francisco também reuniu-se com o presidente do Uruguai, o ex-guerrilheiro montonero José “Pepe” Mujica, que além de ser declarado ateu, governa a democracia mais laica do continente, o Uruguai.

A aprovação, por parte do governo Mujica, da lei do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo (esta, semanas após a eleição papal) não foi um empecilho para uma das mais animadas reuniões que o sumo pontífice teve com um presidente latino-americano.

Ao terminar o rendez-vous, o papa declarou sobre Mujica: “é um homem sábio”.

O uruguaio comentou: “é um papa ‘descolado’ e que tem uma grande tarefa pela frente. Caso Deus exista, tem que dar uma mãozinha ao papa!”.

Mujica e Francisco, um rendez-vous de austeridade: o presidente que anda de Fusca em Montevidéu e o papa que andava de metrô em Buenos Aires.

E pra embalar a jornada, “Danse Bacchanale”, da ópera “Sansão e Dalila”, de  Camille de Saint-Saëns:

E do filme “Habemus papam”, do italiano Nanni Moretti, a divertida cena embalada pela voz de Mercedes Sosa. “Cambia, todo cambia”: 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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