Presidentes mortos estão bem vivos na Argentina
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Presidentes mortos estão bem vivos na Argentina

arielpalacios

16 de novembro de 2010 | 23h17

 

Juan Domingo Perón, embora defunto há 36 anos, ainda ganha eleições

“Na Argentina, os mortos participam em eleições”. A frase é de Claudio Negrete, autor de “Necromania: História de uma paixão argentina”. Segundo ele, “líderes políticos mortos – carregando a saudade pelo passado – voltarão com força na campanha eleitoral do ano que vem”. O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), morto na quarta-feira, velado na quinta e enterrado na sexta após um funeral que reuniu dezenas de milhares de pessoas, “já ganhou seu espaço na cultura necrômana nacional. Kirchner acaba de entrar para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo”, sustenta. “O ex-presidente terá direito a ter santuários, homenagens permanentes, grupos políticos que ostentarão seu nome e continuará liderando atos políticos e marchas”.

O historiador Daniel Balmaceda, autor de “Histórias insólitas da História argentina”, concorda. “Os argentinos costumam ser muito dedicados à necromania, à veneração e utilização política dos mortos”, disse ao Estado.

“Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.

Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”.

 

Néstor Kirchner, morto há menos de um mês, já está sendo usado politicamente. Cartazes espalhados em Buenos Aires ostentam os dizeres “Néstor con Perón, Cristina com el pueblo” (Néstor com Perón, Cristina com o povo). Isto é, Kirchner estaria no além, ao lado de Perón, observando (e celestialmente respaldando) a política de Cristina, que ficou na terra, com “el pueblo”.

Abaixo, fotomontagem que circula na internet, mostra Kirchner sorridente ao lado de Evita e Perón no além. Militantes kirchneristas querem equiparar o recentemente defunto líder com o casal Perón. Diversos ministros e líderes sindicais compararam Kirchner a Perón.

 Com a teoria de que “os mortos na Argentina desfrutam de boa saúde”, Negrete ilustra o efeito dos mortos na política: “Evita vive, Perón vive, Alfonsín vive e Kirchner também”.

 Como se estivesse vivo, as frases do presidente Juan Domingo Perón são citadas diariamente pelos políticos argentinos. Peronistas neoliberais e peronistas esquerdistas usam as mesmas frases – com diferentes interpretações – para justificar medidas políticas. Além disso, a imagem de Perón está presente em comícios e nos cartazes eleitorais, como se o próprio general – morto em 1974 – fosse o candidato.

O uso político dos funerais, embora tenha tido mais destaque entre os integrantes do Partido Justicialista (Peronista), também foi aplicado por outros partidos políticos argentinos.

Balmaceda destaca que o funeral do ex-presidente Raúl Alfonsín, que no ano passado mobilizou mais de 180 mil pessoas (o maior funeral desde a volta da democracia) serviu para resgatar a imagem do ex-presidente morto, além da própria popularidade de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), que aproveitou a ocasião para reunir suas forças, divididas até então por uma série de divergências.

De quebra, o funeral catapultou seu filho, Ricardo Alfonsín, ao centro do cenário político. Ele passou de ser quase desconhecido da população a transformar-se em um dos principais presidenciáveis para as eleições de 2011.

 

Funeral de Alfonsín serviu de catapulta para seu quase ignoto filho, Ricardo Alfonsín., que transformou-se em um dos dois principais candidatos de seu partido, a União Cívica Radical (UCR).

MINUTO DE SILÊNCIO DIÁRIO – Eva María Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, morreu no dia 26 de julho de 1952. A hora de sua morte, 20:25, transformou-se, durante meses, em um momento de silêncio absoluto. “Na rádio faziam um minuto de silêncio todos os dias, durante meses. Quem interrompia o silêncio nas ruas corria o risco de ser preso”, explica ao Estado o historiador Daniel Balmaceda.

Quando Evita morreu, o governo decretou 30 dias de luto nacional. O velório durou 14 dias. O corpo da “Mãe dos pobres” precisou um tratamento químico para evitar sua decomposição . Posteriormente foi embalsamada.

O funeral foi monumental e planejado em cada detalhe por Alejandro Apod, secretário de Propaganda, mais conhecido como o “Goebbels” do presidente Juan Domingo Perón.

Mais de três milhões de pessoas teriam dado o último adeus à mulher do presidente. Perón uso a procissão como um plebiscito fúnebre.

A magnitude das cerimônias fúnebres da “porta-estandarte dos humildes” inspirou, três décadas depois, a ópera rock “Evita”, de Andrew Loyd Weber, que nos anos 90 foi transformada em filme por Alan Parker.

Com sua morte, Evita virou nome de cidade (La Plata, capital da província de Buenos Aires foi rebatizada como “Ciudad Evita”) e província (La Pampa perdeu o nome e foi designada “província Eva Perón”).

Viva, Evita havia sido a principal agente de mobilização de massas. Morta, o nome e a imagem de Evita estava em todos os lugares, servindo de garota propaganda do governo do viúvo, o presidente e general Juan Domingo Perón.

O médico espanhol Pedro Ara, autor da preservação do cadáver de Evita. O especialista observa sua obra.

UM CADÁVER ‘TROFÉU’ – Evita não teve um post-mortem plácido. Primeira integrante do casal a ir para o além, em 1952 foi embalsamada. Em 1955, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar. O corpo de Evita foi sequestrado pelos militares a modo de troféu.

Nos meses seguintes, oficiais anti-peronistas vingaram-se violando o corpo embalsamado e urinando sobre ele, além de esfaquear o cadáver e quebrar seu nariz.

Em 1956, o oficial que ficou a cargo de esconder o caixão, o coronel Eugenio Moori Koenig, ordenou ao major Eduardo Arandía que guardasse o corpo. Arandía o escondeu no sótão de sua casa e trancou a porta a chave, sem contar nada à sua esposa, Elvira Herrero.

Uma noite, Elvira, ciumenta de que seu marido guardava algum segredo no sótão, foi abrir a porta. O major, que já estava paranoico (alguns historiadores dizem que estava mentalmente perturbado pela complexa tarefa que lhe cabia) ao ouvir um barulho nessa área da casa, pegou seu revólver. Ao ver uma silhueta na escuridão, atirou, matando com dois tiros sua esposa Elvira, grávida de dois meses. Outros dizem que Arandía estava em pleno pleno delírio, e ao ver a silhueta da esposa, achou que estava vendo o fantasma da própria Evita em sua sala.

Posteriomente os militares decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, país onde era considerada “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com nome falso.

Em 1972, quando Perón estava a ponto de voltar para a Argentina, foram realizadas negociações com os militares para reaver o corpo. O grupo guerrilheiro Montoneros, para pressionar as Forças Armadas, sequestrou o corpo do general Eugenio Aramburu (que eles próprios haviam assassinado anos antes). O corpo de Aramburu só apareceu poucas horas antes de Perón pousar em Buenos Aires, já contando com o caixão de Evita.

Em 1974 Perón morreu. Durante dois anos os corpos de Perón e Evita estiveram em uma sala na residência oficial de Olivos. O governo estava nas mãos da terceira esposa de Perón, María Estela ‘Isabelita’ Martínez de Perón. Aconselhada pelo ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), Isabelita deitava-se em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia.

“El Brujo” pretendia construir um mega-mausoléu em Buenos Aires para enterrar Perón e Evita, que seria coroado por uma estátua mais alta que a da Estátua da Liberdade em Nova York. As britadeiras começaram o trabalho, mas, o golpe de 1976 interrompeu as megalômanas obras. Perón foi colocado em Chacarita e Evita, longe dali, na Recoleta.

Durante três décadas lideranças peronistas pretenderam “reunir” o emblemático casal. Após o tumultuado enterro de Perón no mausoléu de San Vicente no meio do tiroteio, foram por água abaixo as negociações com a família de Evita. “Ela continuará na Recoleta”, afirmaram de forma categórica.

IMAGEM – Com a volta da democracia, em 1983, sua imagem foi novamente usada pelo peronismo para decorar cartazes eleitorais. Passaram mais décadas e Evita continua presente. A presidente Cristina Kirchner costuma discursar sob uma imensa imagem da “protetora dos descamisados”.

 

As mãos do general – que saudaram milhões de frenéticos admiradores – desapareceram há 23 anos. Nunca mais soube-se coisa alguma delas.

MÃOS E TIROTEIO – Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o mausoléu onde estava enterrado Perón havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Nos últimos 23 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.

Mas, de 1987 para cá o corpo de Perón não descansou em paz. Em 2006 líderes peronistas decidiram levar o corpo a um novo e grande mausoléu em San Vicente, na Grande Buenos Aires.

No dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi removido da Chacarita. Milhares de velhos militantes acotovelaram-se para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.

Mas, sete horas depois o funeral terminava abruptamente. Ao chegar a San Vicente, grupos sindicalistas rivais disputaram a honra de carregar as alças do caixão com um desenfreado tiroteio. Às pressas, a guarda dos granaderos conseguiu colocar o caixão no mausoléu.

CRONOLOGIA DA AGITADA VIDA DE PERÓN COMO CADÁVER

– Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974

– Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.

– Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.

– Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.

– Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.

– Em outubro de 2006 o mausoléu está pronto. O corpo de Perón é transportado para San Vicente. O funeral termina em fracasso, em meio a um tiroteio entre sindicalistas.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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