Promotor denuncia Cristina Kirchner por encobrir participação de iranianos em atentado contra AMIA
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Promotor denuncia Cristina Kirchner por encobrir participação de iranianos em atentado contra AMIA

arielpalacios

15 de janeiro de 2015 | 00h02

Blogcristinatimerman

Acima, a presidente Cristina Kirchner e seu chanceler Héctor Timerman.

blog1dedo2bO promotor federal Alberto Nisman denunciou nesta quarta-feira a presidente Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman por “negociar um plano de impunidade e de encobrimento dos fugitivos iranianos acusados” do ataque terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) no dia 18 de julho de 1994. Nisman, encarregado do caso AMIA, solicitou o inquérito da presidente e do chanceler. Segundo ele, em troca da operação de impunidade a Casa Rosada – por motivos puramente econômicos – obteria acordos comerciais com o Irã, especialmente para as exportações de carne e oleaginosas Made in Argentina para esse país. Em troca, a Argentina – que desde 2004 padece de uma intermitente crise energética – receberia petróleo iraniano.

O promotor argumenta que a cúpula do governo Kirchner negociou e organizou com Teerã “um sofisticado plano” para o encobrimento dos participantes do atentado realizado em Buenos Aires há 21 anos. Na ocasião, um carro-bomba arrasou a sede da instituição judaica, matando 85 pessoas e ferindo e mutilando outras 300. Segundo Nisman, o plano para eliminar o Irã do caso AMIA foi motivado pela decisão da presidente Cristina de “aproximar-se geopoliticamente da Repúblia Islâmica do Irã”.

O secretário-geral da presidência da República, Aníbal Fernández, declarou que o pedido de inquérito à presidente Cristina “é algo ridículo”.

DENÚNCIA – O foco da denúncia de Nisman são as negociações realizadas secretamente durante seis meses em 2012 pela Casa Rosada com o governo iraniano para criar uma “comissão da verdade” conjunta para investigar o atentado. O governo argentino admitiu a existência das negociações em janeiro de 2013, após meses negando sua realização. Um mês depois Cristina Kirchner conseguiu aprovar o acordo graças à maioria que possui no Congresso Nacional.

No entanto, apesar da ratificação do acordo pelo lado argentino, o Parlamento em Teerã nunca aprovou o pacto, já que a Justiça em Buenos Aires não solicitou à Interpol a suspensão do pedido de captura dos iranianos acusados de participar do ataque contra a AMIA.

No ano passado, perante a ausência das prometidas “investigações conjuntas”, os partidos da oposição em Buenos Aires criticaram o pacto. A comunidade judaica argentina – a segunda maior do continente, após os Estados Unidos – também condenou o acordo com Teerã.

Nisman, em uma denúncia de 300 páginas, argumenta que existe uma “confabulação criminosa” para “desvincular de forma definitiva” a participação do governo do Irã da época nesse atentado, o maior da História da América Latina.

O promotor, que afirma que conta com gravações de conversas telefônicas que provam sua denúncia, também acusa o deputado Andrés Larroque (líder de “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista) e outros aliados do governo de participar dessas negociações a modo de “diplomacia clandestina”. Dessas discussões com Teerã também teria participado o diplomata iraniano Moshen Rabbani, um dos acusados pela Justiça argentina de ter organizado o atentado contra a AMIA.

Nisman também solicitou um embargo de US$ 23 milhões sobre os integrantes do governo Kirchner denunciados.

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Homem caminha sobre os escombros da AMIA em julho de 1994. Bairro de Balvanera, mais específicamente, uma sub-área denominada informalmente de “Once”.

ACUSADOS – A oposição e os líderes da comunidade judaica acusam o governo Kirchner de ignorar as decisões da Justiça em Buenos Aires, que condenou – à revelia – um grupo de iranianos que em 1994 ocupavam altos postos no governo da época.

Além do próprio presidente Ali Akbar Rafsanjani, a Justiça argentina considera responsáveis do ataque o ex-chanceler Ali Akbar Velayati; o ex-ministro de Inteligência, Ali Fallahijan; o ex-chefe chefe da Guarda Revolucionária, Mohsen Rezai; o ex–chefe da Força Quds e ex-ministro da Defesa, Ahmad Vahidi; o ex–adido cultural da embaixada do Irã em Buenos Aires, Mohsen Rabbani; o terceiro secretário da embaixada, Ahmad Reza Asghari e o ex-embaixador iraniano na Argentina, Hadi Soleimanpour.

Em 2007 a Justiça em Buenos Aires pediu à Interpol a captura do grupo. No entanto, todos permanecem livres. O governo de Teerã se recusa a entregá-los.

Segundo a Justiça argentina, o ataque foi organizado em Teerã em conjunto com o Hizbollah e uma conexão argentina. No ano passado a Câmara Federal Número 1 de Justiça em Buenos Aires declarou a “inconstitucionalidade” do pacto de 2013 com o Irã.

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O atentado de 1992: A embaixada de Israel em Buenos Aires, destruída, à esquerda. Na calçada da frente, do lado direito da foto, um asilo de idosos e uma escola primária, também atingidas pela explosão.

blog1dedo4COMUNIDADE JUDAICA ARGENTINA, UM ALVO FÁCIL: Nos anos 90 a Argentina era considerada um alvo fácil para um ataque terrorista, devido à baixa vigilância de suas fronteiras. Além disso, era um alvo interessante para o terrorismo fundamentalista, já que possui a maior comunidade judaica da América Latina, estimada entre 250 mil e 500 mil pessoas. Em 1992, dois anos antes do atentado contra a AMIA, um carro-bomba arrasou a sede da Embaixada de Israel em Buenos Aires, no bairro de Retiro. O ataque matou 29 pessoas e feriu outras 250, várias das quais estavam na escola primária e no asilo de idosos na calçada da frente.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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