Rentrée paraguaia no seio mercosulino: hipóteses a granel sobre o “como” e “quando”
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Rentrée paraguaia no seio mercosulino: hipóteses a granel sobre o “como” e “quando”

arielpalacios

12 de outubro de 2012 | 16h06

“A volta do filho pródigo”, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669). Pintado entre 1663 e 1665, está exposto no Museu Hermitage, em São Petersburgo. O retorno do Paraguai seria assim ou com outro formato?

O chanceler Antonio Patriota afirmou nesta quinta-feira que o momento para a reincorporação do Paraguai de forma plena ao Mercosul será avaliado na reunião dos chefes de Estado da União das Nações Sul-americanas (Unasul), marcada para o dia 30 de novembro na capital do Peru, Lima. O assunto voltará a ser analisado uma semana depois na cúpula do Mercosul em Brasília no dia 7 de dezembro.

“Quando houver plena vigência democrática no Paraguai, o país será reincorporado. Não é uma referência a eleições propriamente dita nessas decisões”, explicou Patriota aos correspondentes brasileiros em Buenos Aires ao sair do Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, após uma reunião com seu colega Hector Timerman.

Em junho, poucos dias depois do impeachment do presidente Fernando Lugo, que foi substituído por seu vice, Federico Franco, o Paraguai foi suspenso das reuniões do Mercosul temporariamente.

Os presidentes dos outros países-sócios do bloco determinaram que o Paraguai – o parceiro mais pobre do bloco do Cone Sul – somente seria reintegrado com plenos direitos quando “a ordem democrática” seja restituída no Paraguai. Os presidentes do Mercosul afirmaram que a remoção – feita pelo Senado eleito com o próprio Lugo em 2008 – foi irregular.

No entanto, o bloco depara-se com um inusitado problema burocrático, já que na cúpula de Brasília o Brasil teria que passar a presidência pro-tempore do Mercosul – atualmente nas mãos brasileiras – ao Paraguai, tal como ocorre há 20 anos. Mas, se a suspensão dos paraguaios persistir até a realização da cúpula, a presidência pro-tempore teria que ser entregue a outro país.

Perguntado se em dezembro a presidência pro-tempore passaria ao próximo país da lista (que é por ordem alfabética), o Uruguai, Patriota respondeu: “é uma pergunta hipotética…temos que ver o que os presidentes decidem em Lima”.

Patriota esteve menos de 24 horas em Buenos Aires, onde reuniu-se com o chanceler Timerman para analisar a agenda bilateral, além do caso paraguaio.

O Mercosul tinha quatro integrantes: Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. O Paraguai foi suspenso desse balé político-comercial temporariamente. Em seu lugar entrou outro dançarino para seguir com a coreografia: a Venezuela. Mas, a coisa não termina como em “O Pato” de João Gilberto em que “o quarteto ficará muito bom, muito bem”, pois quando o Paraguai retorne plenamente, o grupo virará quinteto. Na ilustração acima, “O Lago dos cisnes” (????????? ?????), balé de Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Mais especificamente, a parte dos quatro pequenos cisnes.

SUSPENSÃO & RETORNO

Na cúpula de Mendoza, onde o Paraguai foi suspenso do bloco, os presidentes dos outros países, isto é, o Brasil, Argentina e Uruguai, indicaram que o país só voltaria ao seio mercosulino plenamente quando a ordem democrática fosse reestabelecida.

Mas, em nenhum momento os presidentes indicaram rigorosamente quando poderiam considerar que a democracia estava reestabelecida. As declarações foram genéricas.

Perguntas/hipóteses sobre como o Mercosul poderia classificar o retorno à “vigência democrática”

1 – Para o Mercosul, a democracia volta no dia das novas eleições presidenciais paraguaias, marcadas para o dia 21 de abril de 2013?

2 – Para o Mercosul, a democracia no Paraguai só volta no dia da posse do novo presidente, dia 15 de agosto de 2013?

3 – Ou para o Mercosul a realização das convenções partidárias em dezembro deste ano no Paraguai seriam suficientes para considerar que o processo democrático está em andamento?

4 – Ou para o Mercosul a manutenção do calendário eleitoral, o funcionamento do Parlamento uruguaio e das liberdades cívicas atualmente abrem alguma espécie de brecha diplomática para permtir que os governos Mujica, Dilma, Kirchner e Chávez considerem que existe democracia neste momento no Paraguai?

5 – Ou alguma outra hipótese?

Paraguai senta à mesa do almoço familiar, mas fica no canto isolado por um semestre? Acima, Alberto Sordi em “Un americano a Roma”, de 1954, devora a pastasciutta.

Hipóteses sobre como fica a presidência pró-tempore do Mercosul no 1º semestre de 2013

1 – Caso o Mercosul não reincorpore o sócio agora em dezembro e “pule” a presidência pro-tempore do Paraguai, que país recebe essa missão? O Uruguai?

2 – Poderia o Mercosul topar a reincorporação do Paraguai em dezembro, mas deixar seu governo em uma espécie de “freezer político-diplomático” (na forma, embora não na prática) até a chegada de um novo governo, eleito nas urnas em abril do ano que vem?

Isto é, um “freezer” que apenas contemplasse a realização de reuniões de segundo escalão, somente com secretários e sub-secretários dos países-sócios? Os ‘Big Shots’, nesta hipótese, só reapareceriam quando o novo governo tomar posse. Existem chances para uma modalidade assim? Quem sabe? A própria suspensão do Paraguai também foi inédita. Portanto, nada exime que o bloco tome uma atitude sui generis.

Digamos assim: poderia algo parecido quando em um almoço familiar dominical convida-se por obrigação o parente inconveniente, o cara come a macarronada, experimenta a sobremesa mas ninguém fala com ele…a não ser o mínimo, para manter a formalidade. E, agem o mínimo…por exemplo, passar o saleiro quando o parente em questão pede. Mas daí a abrir a garrafa de licor de murici pra ele, nem pensar.

3 – Nesta hipótese de “reincorporação-com-freezer-adjunto”, com as eleições paraguaias realizadas, o Mercosul faria a cúpula em junho ou julho em Assunção?

4 – Ou o Mercosul atrasaria a cúpula de Assunção para o dia 16 de agosto, isto é, um dia depois da posse do novo presidente no dia da Assunção (15 de agosto)?

Isto é, seria uma espécie de formalidade para não ter que fazer a cúpula em Assunção com o presidente Federico Franco (que, especialmente os argentinos, encaram como um “usurpador”), mas sim com um presidente novinho-em-folha.

E, quem sabe, a conveniente presença de Lugo, possivelmente eleito como senador, para abençoar a reentrée do Paraguai no bloco?

O “abençoar” em questão é um caso de “bênção” política por parte do ex-presidente, e não religiosa, embora seja um ex-monsenhor. Mas, nestas coisas de política e religião, nunca se sabe…

ALFABÉTICA FORMALIDADE

As presidências pro-tempore no Mercosul são em sequência alfabética.

Isto é: Argentina – Brasil – Paraguai – Uruguai (A, B, P e U)

Em Mendoza foi a vez da Argentina. Em dezembro será no Brasil. Nos anos anteriores, antes da crise paraguaia, as cúpulas em Assunção eram em junho (às vezes foi em julho). E em Montevidéu, Uruguai, eram em dezembro.

A Venezuela, que entrou no Mercosul em julho, transformando o quarteto em quinteto, seria anfitriã depois da vez do Uruguai (A, B, P, U e V).

E para encerrar, os pequenos cisnes do balé Tchaikovsky, na versão do American Ballet Theatre, 2005. Bom fim de semana a todos!

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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