San Cayetano, termômetro das preocupações econômicas dos argentinos
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San Cayetano, termômetro das preocupações econômicas dos argentinos

arielpalacios

07 de agosto de 2009 | 03h00

liniers
Portas da paróquia de San Cayetano, no bairro de Liniers. Nesta sexta-feira, estima-se, o lugar seria visitado por um milhão de pessoas

Centenas de milhares de argentinos passarão hoje pela paróquia de San Cayetano no bairro de Liniers para rezar pela preservação de seus empregos (ou os empregos dos parentes). As missas começaram às 4:00 da madrugada e continuarão, a cada hora, até as 23:00.
Esta peregrinação é a que mais mobiliza pessoas em todo o país anualmente.
Evidentemente, mobiliza mais ou menos peregrinos de acordo com os vaivéns da economia argentina.
Cada 7 de agosto – o dia de San Cayetano – é um termômetro que mostra qual é o grau de preocupação dos habitantes deste país.
San Cayetano é, com motivos econômicos de sobra, o santo mais popular do país. Pelo menos, tornou-se o santo mais popular nas últimas duas décadas, ultrapassando santos com outras especializações em matéria de milagres.

Em 2002, em plena crise econômica – a pior da Historia do país – 1,5 milhão de pessoas passaram por San Cayetano. Calcula-se que naquela data outras 300 mil não puderam passar a tempo pelo templo, apesar da paróquia ter ampliado seu horário de atendimentos aos fiéis durante a madrugada do dia seguinte.

Em 2005, ano de plena expansão econômica, quando o PIB do país crescia 9%, menos de 100 mil pessoas passaram por ali

A expectativa é que hoje ao redor de 1 milhão de pessoas passem por essa paróquia localizada na periferia da Capital Federal.

São Caetano antes de adquirir características celestiais, foi originalmente um civil, Gaetano de Thiene, um cidadão de Vicenza, Itália. Nasceu em 1480. Filho do conde de Thiene, entrou para a vida clerical. Idoso, criou a organização de beneficência Monte di Pietà, que posteriormente transformou-se no Banco de Nápoles. Essa organização pretendia ser uma alternativa para os agiotas. Morreu em Nápoles em 1547, onde foi enterrado. Foi canonizado em 1671. Mas, só teve sucesso como santo protetor dos desempregados a partir da crise causada pelo crack de 1929.

Voltando à Buenos Aires: a paróquia possui uma “bolsa de trabalho” para as pessoas desempregadas. Por estar localizada ao lado de uma das mais importantes estações de trem e de uma centena de pontos de ônibus que conectam a capital com os arruinados municípios da zona oeste da Grande Buenos Aires, milhares de pessoas vão até ali semanalmente para tentar encontrar uma chance de trabalho.

Na véspera de San Cayetano, o papa Bento XVI, pela primeira vez desde o início de seu pontificado, criticou o avanço da pobreza na Argentina.
Em um comunicado emitido ontem, o papa convoca as pessoas que participam da coleta realizada nesta época do ano para que façam um esforço solidário que contribua a reduzir o que denominou de “escândalo da pobreza e da desigualdade social” na Argentina

O ex-presidente Néstor Kirchner evitou confrontos (os Kirchners e o Vaticano já tiveram vários confrontos) e somente indicou que “a Igreja sabe que Argentina está protagonizando uma grande luta contra a pobreza”.

Retomando o assunto da postagem anterior, sobre a pobreza: os dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob férrea intervenção do governo, afirmam que a pobreza na Argentina é de 18%.

No entanto, paradoxalmente, ontem à noitinha o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-200), indicou que a pobreza no país atinge de 22% a 23% da população.

Enquanto isso, a consultoria Sociedade de Estudos Trabalhistas (SEL) afirma que a pobreza assola 32% dos argentinos.

A consultoria Ecolatina, vinculada ao ex-ministro da Economia Roberto Lavagna (que foi o mais duradouro ministro de Kirchner nessa pasta), afirma que a pobreza afeta 31,8%.

E a Igreja Católica argentina, mais especificamente, o bispo Jorge Casaretto, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, sustenta que a pobreza assola 40% dos argentinos.

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