Seção Atchim & Política: “É só uma gripe!” (os presidentes argentinos e seu costume de esconder os problemas de saúde)
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Seção Atchim & Política: “É só uma gripe!” (os presidentes argentinos e seu costume de esconder os problemas de saúde)

arielpalacios

09 de outubro de 2013 | 12h00

No desenho acima, o “Pequeno Sammy” espirra e provoca um baita desastre no quadrinho. Caricatura de 1905 de Winsor McCay (1869-1934).

“Apenas uma gripe”. Com estas palavras, na última semana de junho de 1974, a Casa Rosada – o palácio presidencial argentino – explicava o estado de saúde do então presidente Juan Domingo Perón. Mas a realidade era que o caudilho de 78 anos tinha problemas mais graves do que aqueles relativos à coriza. Padecendo graves complicações cardíacas, morreu no dia 1 de julho.

Em 1993, outro peronista, o então presidente Carlos Menem foi internado às pressas. Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, enquanto seus assessores nas portas do hospital comentavam o péssimo clima de Buenos Aires e como o presidente estava espirrando, Menem estava na sala de cirurgia sendo operado da carótida.

Quando a verdade veio à tona o governo enfrentou tumultos nos mercados, pois o país estava em plena etapa de privatizações. O ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer na TV diversas vezes para acalmar os ânimos.

Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa, que teve uma obstrução na carótida em meio à recessão e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia no final daquele ano. O ministro da Saúde, Héctor Lombardo, complicou o cenário ao afirmar que De la Rúa tinha “um pouquinho de arteriosclerose…”.

DENTE E DUODENO – Segundo o jornalista Luis Majul, o presidente Néstor Kirchner costumava beber uísque e fumava até meados dos anos 90. Mas, de acordo com o autor do livro “O Dono” – uma investigação sobre os negócios empresariais obscuros do kirchnerismo – a partir da operação das hemorroidas em 1996, Kirchner tomou mais cuidado com seu estilo de vida e passou a alimentar-se com frango fervido e purê de abóbora.

No entanto, apesar dos cuidados alimentícios, continuou tendo um ritmo acelerado na política. No mesmo dia em que foi operado das hemorroidas, retomou seu trabalho de governador com intensas reuniões.

Em 2004 Kirchner estava sofrendo de uma intensa dor de dente. Sem consultar seu médico, ingeriu um potente analgésico e pegou um avião. O remédio teve o efeito colateral de lhe provocar uma grave hemorragia no duodeno e os médicos tiveram que fazer uma transfusão equivalente à metade do sangue que tinha no corpo.

Em 2010, Kirchner, um paciente rebelde, foi operado duas vezes por obstruções da carótida. No entanto, em ambas ocasiões o governo afirmou nas primeiras horas que havia sido internado para um mero “check-up”.

Uma semana depois da segunda operação Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro foi submetido à uma angioplastia.

Menos de 24 horas depois de sua internação, realizada às pressas, saiu do hospital Los Arcos, no bairro de Palermo. “Estou perfeito”, exclamou Kirchner ao sair dali perante os jornalistas estupefatos.

O pescoço de Néstor Kirchner, ao sair do hospital Los Arcos, exibe a cicatriz da cirurgia na carótida.

Menos de 48 horas depois da operação participava de um comício ao lado da mulher, a presidente Cristina. E um mês e meio depois morreu.

Em janeiro de 2009 a presidente Cristina passou mal e cancelou todas suas atividades durante cinco dias. Na época o governo disse que Cristina havia sofrido um desmaio por causa de uma “desidratação”. Mas as explicações oficiais não convenceram, pois a presidente sempre carrega uma garrafa d’água.

Nelson Castro, colunista político e médico – que escreveu um livro sobre o sigilo que costuma aparecer em torno às doenças dos presidentes argentinos disse na época que o comunicado oficial sobre o desmaio “não refletia toda a verdade”.

Castro sustentou que a versão sobre o desmaio de Cristina Kirchner foi uma demonstração de que as doenças dos presidentes “são assuntos de Estado que tem enormes implicâncias políticas”.

Em dezembro de 2011 o governo anunciou em tom dramático que a presidente padecia de câncer na tireoide. Seu amigo, o presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que os Estados Unidos teriam preparado uma arma que causava câncer nos lideres sul-americanos. No entanto, um mês depois o governo Kirchner teve que admitir que Cristina Kirchner não tinha câncer algum. O ácido humor portenho batizou o caso de “o não-câncer de Cristina”.

HEMATOMA – No sábado à tarde rumores indicavam em Buenos Aires que a presidente Cristina estava no Hospital Fundação Favaloro. O governo negou a informação. Mas, com o passar das horas, os rumores intensificaram-se. Equipes de jornalistas foram enviadas às portas do hospital. Finalmente, a imprensa viu a presidente sair do lugar em um automóvel. A Casa Rosada, nesse momento, admitiu que a presidente havia estado ali. Mas as autoridades destacaram que era somente para um check-up.

Mais tarde, perante os boatos que indicavam que a presidente teria “algo”, o porta-voz de Cristina, Alfredo Scoccimarro fez um comunicado oficial. O porta-voz causou surpresa ao anunciar que a presidente argentina ficaria de licença médica durante um mês devido a um hematoma no cérebro. Essa foi a primeira surpresa.

Scoccimarro explicou na ocasião que Cristina havia sofrido um traumatismo craniano no dia 12 de agosto (essa foi a segunda surpresa), um dia após as eleições primárias simultâneas e obrigatórias, quando o governo sofreu sua pior derrota nas urnas em uma década.

No entanto, o porta-voz da Casa Rosada, o palácio presidencial não explicou as circunstâncias do traumatismo. Segundo Scoccimarro, Cristina fez uma série de exames na época (que foram mantidos em segredo do público). Mas, nada foi detectado na ocasião.

A presidente foi operada nesta terça-feira. No entanto, o governo nada disse sobre o tamanho do hematoma que foi drenado. O governo tampouco explicou qual a origem da arritmia que a presidente Cristina padece.

Caso algum dos leitores torne-se assessor de um presidente em alguma parte do mundo, aqui vai um pequeno manual sobre como se espirra em outras partes do planeta:

Em Alemão é “hatschi”

Em Árabe é “????”

Em Búlgaro é “?????”

Em Cantonês é “hut-chi” (??)

Em Chinês é “penti” (??)

Em Croato é “ap?iha”.

Em Dinamarquês é “atjuu”

Em Esloveno é “ap?iha”.

Em Espanhol é “atchís” e “atchús”

Em Francês é “atchoum”

Em Hebreu é “apchee”

Em Hindi é “chheenk”.

Em Indonésio é “‘hatchi'”

Em Inglês é “atchoo”

Em Islandês é “Atsjú”

Em Japonês é “hakushon” ou “kushami”. Escrito como ????? ou ?(????).

Em Letão é “ap??”,

Em Marata é “shheenka”.

Em Neerlandês é “hatsjoe” e “hatsjie”

Em Norueguês é “atsjo”

Em Polaco é “apsik”

Em Romeno é “hapciu”

Em Tagalo é “hatsing”

Em Tailandês é “Hutchew ou Hutchei” (??????? or ???????)

Em Tâmil é “Thummal”.

Em Telugu é “Thummu”.

Em Turco é “hap?uu”

E falando em espirros e gripes, o tango “Enfundá la mandolina”, cantando por Carlos Gardel. Na canção, Gardel recomenda ao velho Cipriano queá pra cama…porque caso contrário, no dia seguinte, cóf, cóf, fica com tosse:

E o mesmo tango, mas cantado por Julio Sosa:

E nesta, Julio Sosa, com a orquestra de Armando Pontier. Sem imagens. Mas com áudio impecável:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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